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Entenda mais sobre a relação entre drogas e sociedade, a proibição da maconha e o comportamento policial quando o assunto é o bom e velho baseado neste texto mais que genial de Diego Souza Ferreira, Inspetor de Polícia do DENARC, da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, e membro do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas e Porta-Voz, no Brasil, do movimento Law Enforcement Against Prohibition (Leap-Brasil).

Por Diego Souza Ferreira*

Os policiais têm grandes dificuldades em entender o que significa a palavra droga, entorpecentes, precursores, psicotrópico, substância proscrita, o que são, para que servem e seus reais efeitos, pois essa nomenclatura é da área da ciência, da medicina, da farmacologia, da toxicologia, da química, não do Direito e da Segurança. Outra dificuldade é entender o que é a tal “Guerra às Drogas” e como ele está inserido nessa guerra, quase que como um fantoche.

“Discutir a política de drogas, nada mais é que procurar alternativas para reduzir a violência instalada após o fracasso da “War on Drugs” promovida pelos EUA.”

O termo droga tem origem na palavra droog, proveniente do holandês antigo e cujo significado é folha seca. Esta denominação é devido ao fato de, antigamente, quase todos os medicamentos utilizarem vegetais em sua composição. Na Grécia Antiga a droga era denominada “pharmakon” e possuía dupla significação: remédio e veneno, o que dependia era a dose. Podemos elencar cinco conceitos sobre o que significa drogas. A OMS conceitua droga como, “qualquer substância não produzida pelo organismo que tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de seus sistemas produzindo alterações em seu funcionamento”. A ANVISA Portaria SVS/MS nº 344 diz que droga é “substância ou matéria que tenha finalidade medicamentosa ou sanitária”; a Lei 11.343/06 diz em seu art. 66 “… denominam-se DROGAS substâncias entorpecentes, psicotrópicas, percursoras, e outras sob o controle especial da portaria SVS/MS Nº 344,”; O ONUDC diz “qualquer substância natural ou sintética, uma vez introduzida no organismo vivo, pode modificar uma ou mais de suas funções”; e, por fim, a TOXICOLOGIA diz que “droga é qualquer substância capaz de agir no centro de gratificação do cérebro, usada fora dos padrões médicos ou socioculturais, devido aos seus efeitos estimulantes, euforizantes e/ou tranquilizantes”.

Logo, açúcar, cacau, cafeína, cannabis, álcool, nicotina, cocaína, heroína, são drogas, todas dão prazer e, conforme sua relação com a substância e a forma de uso, ou abuso, podem prejudicar a saúde¹.

Na Academia de Polícia, se estuda sobre Direitos Humanos, Direito Penal (Lei de Drogas), Técnicas de Investigação Criminal, Técnicas Operacionais, Inteligência Policial, Medicina Legal e diversas matérias ligadas as atividades policiais. Não aprofundamos o estudo no conhecimento científico em relação às drogas, haja vista, não ser o nosso foco, e sim a investigação criminal.

O policial, geralmente, tem receio de falar sobre drogas e políticas de drogas, primeiro por desconhecer o assunto, segundo por que imagina que falar sobre política de drogas é algo errado, imoral, como se fosse “crime” pronunciar a palavra “drogas”, quase que uma proibição divina. Associam a palavra “droga” com “veneno” e com tudo que imaginam ser errado. Como o policial está arramado à legislação penal, muitas vezes confunde seu ofício de repressão ao crime, com sua participação na sociedade como cidadão. Discutir a política de drogas, nada mais é que procurar alternativas para reduzir a violência instalada após o fracasso da “War on Drugs” promovida pelos EUA.

O próprio STF já se manifestou em 15 de junho de 2011. O decano da Suprema Corte e respeitadíssimo Ministro Celso de Mello, proferiu seu voto na Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 187, que se destaca uma parte:

“(…) Isto porque, defender a descriminalização de certas condutas previstas em lei como crime, não é fazer apologia de fato criminoso ou de autor de crime. Igualmente, não configura o crime deste art. 287 a conduta daquele que usa camiseta com a estampa da folha da maconha, por ser inócua a caracterizar o crime e por estar abrangida na garantia constitucional da liberdade de manifestação do pensamento.” (grifei) IX. A proposta de legalização do uso de drogas, inclusive da “Cannabis Sativa Linnaeus”, ainda que defendida fora de ambientes acadêmicos, em espaços públicos ou privados, é amparada pelas liberdades constitucionais de reunião, de manifestação do pensamento e de petição. Desejo salientar, neste ponto, Senhor

Presidente, já me aproximando do encerramento deste voto, que a mera proposta de descriminalização de determinado ilícito penal não se confunde com o ato de incitação à prática do delito, nem com o de apologia de fato criminoso, eis que o debate sobre a abolição penal de determinadas condutas puníveis pode (e deve) ser realizado de forma racional, com respeito entre interlocutores, ainda que a idéia, para a maioria, possa ser eventualmente considerada estranha, extravagante, inaceitável ou, até mesmo, perigosa(…)”

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Nixon declarando “guerra às drogas”

O que é a tal “War on Drugs”, “Guerra às drogas”? Em 1971 o ex-presidente norteamericano Richard Nixon declarou “guerra às drogas” (“O inimigo público número um dos EUA é o abuso das drogas”, ele disse). Mais de quatro décadas depois pode-se afirmar: essa foi mais uma guerra perdida pelos EUA. A década de 70 foi o berço da revolução ideológica ultraliberal, que viria a se consolidar na década de 80 com Reagan (e Tatcher, na Inglaterra). Essa revolução ultraliberal espalhou pelo mundo, dentre outros, dois direcionamentos: (a) o neoliberalismo globalizado (no campo econômico) e (b) o nerconservadorismo (na área política e jurídica).

A “guerra contra as drogas” constitui a máxima expressão dessa política neoconservadora repressiva, policialesca e dantesca, que draconianamente equiparou o consumidor ao traficante, taxando todos de criminais. Em 1986, num dos seus mais alucinados momentos, os EUA aprovaram uma lei que aumentou em 100% as condenações por posse de crack. A posse de 5 gramas de crack já significava cinco anos de cadeia. Em 1980 5 mil pessoas estavam presas por posse de drogas. Em 2009 já passavam de 100 mil por esse motivo. No total, os EUA contam hoje com mais de 2 milhões e 400 mil presos.

A polícia em diversas oportunidades é instada a resolver problemas relacionado a drogas, ou seja, os 10% que possuem problemas com elas (alcoólatras, crackeiros, maconheiros, etc) e, também, dos 90% que não possuem qualquer problema, mas devido a uma proibição legal de algumas, não poderiam estar consumindo ou portando, mesmo sem violência. São ocorrências de consumo em local inadequado, consumo de substância proscrita, violência doméstica, brigas de vizinho após bebedeira, disputa por pontos de comércio dessas substâncias colocadas na ilegalidade, etc.

A lei de drogas possui como bem jurídico penalmente tutelado a “saúde pública”. Dessa forma, possuir ou consumir as substâncias colocadas na ilegalidade, necessariamente afetaria a saúde pública. Será que consumir álcool, tabaco, ansiolíticos, não prejudicam a saúde pública? Obviamente que sim. Somente 331 (0,028%) pessoas morreram de overdose em 2012, enquanto ocorreram 53.000 homicídios e desses, 35.000 relacionados ao tráfico de drogas². O que mais afeta a saúde pública? Fica cristalino nesse dado que o problema não são as drogas, nunca foram. Por que então algumas substâncias são permitidas e outra não? Apenas por um critério político, não científico. Por que, nós policiais, não precisamos perseguir, abordar pessoas na rua, viciados em álcool, ou nicotina protegendo a tal “saúde pública”, simplesmente por que esses indivíduos não estão infringindo a norma penal. A polícia trabalha com o Direito Penal, se a norma penal está banalizada a polícia também estará.

Como sabemos, há níveis do consumo de drogas, sendo que o indivíduo pode ter um consumo moderado, de abuso ou compulsivo (que pode se tornar uma dependência). Segundo publicado no editorial do NYT, o Tabaco é a droga com maior índice de dependência, com 32% dos casos, seguidos de Heroína 23%, Cocaína 16%, Álcool 15%, Ansiolíticos 9% e Maconha 9%. Sabemos também que essas pessoas do grupo de risco, podem ter sérios problemas com certas drogas, contudo elas são a exceção, pois a substância em si não é o problema, mas quem a consome, quanto e qual a relação que esse indivíduo tem com a substância.

“O policial, geralmente, tem receio de falar sobre drogas e políticas de drogas, primeiro por desconhecer o assunto, segundo por que imagina que falar sobre política de drogas é algo errado, imoral, como se fosse “crime” pronunciar a palavra “drogas”, quase que uma proibição divina.”

Percebe-se que policiais não possuem conhecimento algum sobre drogas, nem precisam saber mesmo, não é o foco, contudo não podemos nos arvorar e achar que sabemos alguma coisa de consumo, dependência, etc, se não é nem nossa área de estudo e trabalho, temos que saber escutar quem estuda e trabalha com isso 24h por dia, como nós trabalhamos com a Lei Penal 24h por dia. Nossa percepção da realidade é viciada, pois trabalhamos só com a tragédia humana, na maioria das vezes com os consumidores problemáticos das substâncias ilegais. As vezes temos que prender os consumidores recreativos, e pensamos, de forma ingênua, equivocadamente que esses consumidores recreativos financiam o tráfico. E como fica aqueles que fazem o cultivo indor de maconha?, não financiam o tráfico, acabou esse argumento. Se alguém trouxer folhas de coca da Bolívia, e fizer uma plantação particular? não financiam o tráfico, acabou o argumento. Se um consumidor de álcool bebe vodca, ele é um viciado?! não, pode ser? talvez. Ele pode produzir sua cerveja artesanal, até cachaça se quiser, não é crime. Esse consumidor de uísque PODE se tornar um bebedor compulsivo, que evolui para uma dependência, essa sua situação afeta só sua pessoa. Consumir, comercializar álcool não é crime, mas já foi. Esse consumidor problemático de álcool, não é um criminoso, NÃO É PROBLEMA DA POLÍCIA, ainda bem, é problema da saúde (12 milhões de brasileiros são dependentes químicos de álcool). Não precisamos prender o bêbado chato. Agora vejamos o mesmo caso com um consumidor de cocaína, por exemplo, pode ser qualquer outra, ele é um viciado? não, pode ser? talvez. Esse consumidor de cocaína PODE se tornar compulsivo, que evolui para uma dependência, essa situação afeta só sua pessoa? faticamente sim, legalmente não. Ele é um criminoso pela lei penal, é problema da polícia, o consumidor recreativo e o problemático, e da saúde, o problemático. Dessa forma temos uma política de drogas bipolar e esquizofrênica, sendo que para alguns consumidores há direitos e deveres e para outros apenas repressão sem sentido.

Se a polícia não possui conhecimento sobre drogas, como pode ser responsável para lidar com esse problema, da Addiction? É lógico pensar que problemas com drogas devam ser tratados com profissionais da saúde, médicos, enfermeiros, psicanalistas, psiquiatras, psicoterapeutas, etc.

Não há nenhuma justificativa científica, farmacológica, química que explique por que drogas como, o álcool, tabaco e alguns fármacos, são legalizados e drogas como, Cocaína e Cannabis Sativa (maconha), não são. Da mesma forma, por que drogas como “inibidores de apetite” (que nada mais são que anfetaminas) são permitidas o consumo, e até estimuladas pelos médicos, e outras anfetaminas não são.

Através da neurociência, percebemos que Álcool, Nicotina, THC, Cocaína, Heroína, Anfetaminas, etc, todas essas substâncias agem no Sistema Nervoso Central – SNC, no centro de recompensa ou do “prazer” do cérebro, que os cientistas chamam de nucleus accumbens.

Sabendo disso, chegamos a uma conclusão inevitável, todas as drogas, têm o potencial de viciar, causar dependência, não existindo o que muitos falam de drogas do bem ou do mal, leve ou pesada, de Deus ou do Satanás. Segundo o Dr. Carl Hart, Neurocientista da Universidade de Columbia-EUA, apenas de 10% a 20% das pessoas desenvolvem algum problema com drogas, os demais levam sua vida tranquilamente. Se todas as substâncias agem no mesmo lugar no cérebro, o que importa não é a substância em si, mas a quantidade (dose), motivo do consumo (festa, felicidade, tristeza ou depressão), como se consome (fumado, cheirado, inalado, ingerido ou injetado), local em que se consome (ambiente seguro, em casa, na rua) e, por fim, quem consome (criança, adolescente, grávidas, adultos e Grupo de Risco).

“Segundo a ONU e estudos sérios nacionais existe 8% da população brasileira que consome drogas ilegais, aproximadamente 20 milhões de pessoas, 12 milhões são dependentes do álcool, e segundo um último levantamento existem 370 mil consumidores de crack, em qual droga está a epidemia?!”

Por que então a Lei de Drogas criminaliza umas substâncias e não criminaliza outras?!A partir desse ponto temos que ver os motivos sociais, pseudomorais, políticos e históricos da criminalização de certas substâncias e plantas. Está claro que estamos com uma política de drogas equivocada, bipolar, e às avessas, pois estamos olhando para a exceção e não à regra.

Segundo a ONU e estudos sérios nacionais existe 8% da população brasileira que consome drogas ilegais, aproximadamente 20 milhões de pessoas, 12 milhões são dependentes do álcool, e segundo um último levantamento existem 370 mil consumidores de crack, em qual droga está a epidemia?! Porque em relação ao tabaco, droga legal, o Brasil obteve uma redução no consumo e em relação as outras como, maconha e cocaína, drogas tornadas ilegais, um aumento?! Simples, pois para o tabaco houve forte investimento em políticas públicas de saúde e informação sobre a droga, restrições de uso, locais, propaganda, tributação, etc, não houve histeria e criminalização.

Consequências da criminalização do álcool. A Lei Seca entrou em vigor em 1920, com o objetivo de salvar o país de problemas relacionados à pobreza e violência. A Constituição americana estabeleceu em 18ª emenda, a proibição, a fabricação, o comércio, o transporte, a exportação e a importação de bebidas alcoólicas. Pois para o governo todos os males vividos pelo país tinham apenas o álcool como agente causador. Essa lei vigorou por 13 anos, foi considerada o maior fracasso legislativo de todos os tempos nos Estados Unidos. O efeito causado pela lei foi totalmente contrário do que era esperado, ao invés de acabar com o consumo de álcool, com os problemas sociais, entre outros, a lei gerou a desmoralização das autoridades, o aumento da corrupção, explosões da criminalidade em diversos estados e, o enriquecimento das máfias que dominavam o contrabando de bebidas alcoólicas. O ponto de encontro das pessoas que queriam beber era os speakesies, ou seja, bares clandestinos localizados no subterrâneo, com o objetivo de não chamar atenção. Pela primeira vez na história as pessoas se injetaram álcool na veia, pois como era proibido, quando se conseguia, se queria o maior efeito psicoativo possível. Nessa época se criou o “Jake”, o crack do álcool, era um destilado misturado com tinta e verniz para burlar a fiscalização. Mais de 200 mil americanos ficaram cegos e paralíticos por causa dessa droga. Argumentando que a legalização das bebidas geraria mais empregos, elevaria a economia e aumentaria a arrecadação de impostos, os opositores do então presidente norte-americano Franklin Roosevelt, o convenceram a pedir ao Congresso que legalizasse a cerveja. Com isso, em 1933 é revogada a emenda constitucional da lei seca. O Ato de Proibição nacional eternizou o nome de várias pessoas, em especial a do grande gângster Al Capone, que comandou o comércio de bebidas alcoólicas em Chicago.

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A lei seca vigorou por 13 anos, foi considerada o maior fracasso legislativo de todos os tempos nos EUA.

A humanidade sempre consumiu drogas, sendo que em certos hiatos temporais criminalizou uma ou outra, por motivos divinos e políticos suspeitos. A criminalização de algumas drogas, como o álcool na década de 20, foram responsáveis pela criação de máfias, crime organizado, violência indiscriminada, corrupção dos órgãos de segurança, do judiciário, de políticos, de policiais, perda do respeito da polícia perante a sociedade, infringência dos direitos e das liberdades civis por parte da polícia, desmoralização do policial, e muitas mortes de policiais e mafiosos.

Historicamente, a criminalização de algumas drogas, está intimamente ligada a perseguição de povos, culturas, sendo uma guerra às pessoas, com cor e classe social determinadas, refletindo um racismo institucionalizado pelo Estado.

Esse desastre político, já experimentado no passado, está se repetindo, em grande intensidade, em relação as drogas, arbitrariamente, colocadas na ilegalidade, como se nota no elevado número de homicídios no Brasil, acima dos índices de guerras declaradas e no massacre de policiais que estão morrendo em uma de forma irracional, insana, descartável e, por incrível que pareça, evitável.

No Brasil morrem centenas de policiais ano, milhares de policias são feridos gravemente, e ninguém faz passeata de revolta. O país tem a segunda taxa de encarceramento do mundo. Há mais de 50 mil homicídios ano, e a cada ano mais pessoas morrem com armas de fogo, mesmo completando mais de uma década de desarmamento, onde havia 12 milhões de armas de fogo registradas, hoje há menos de 1,5 milhão. O problema não são as armas, muito menos as drogas, pois armas e drogas não matam pessoas, pessoas é que matam pessoas. Dizer não às drogas, significa dizer sim a legalização.

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Alvos da guerra às drogas. Ilustração Carlos Latuff

Se o Brasil decidiu que o direito de possuir uma arma de fogo era um direito inalienável do cidadão, sem violência, pela lógica, deveria ser favorável ao direito inalienável de possuir plantas e consumir qualquer tipo de drogas, como já o faz com o álcool e o tabaco.

A polícia, que faz parte da sociedade, foi iludida por mais de 50 anos no sentido de que algumas substâncias e plantas não poderiam estar no ambiente social, que essas substâncias traziam a degradação humana, a violência e todas as desgraças possíveis. Fomos iludidos por mais de meio século pelo proibicionismo. Muitos cidadãos e policiais, de boa-fé, acreditaram que a repressão totalitária e indiscriminada era a única solução para o problema do vício, acreditando que estariam fazendo a coisa certa, ou seja, tentando impedir que o cidadão tivesse contato com as substâncias proscritas, haja vista, o mal irreparável que elas poderiam fazer. Conclui-se que estávamos com o conhecimento entorpecido dos reais motivos da proibição criminal, bem como dos reais possíveis efeitos, sendo que não haveria motivo para pensar diferente.

Diante desses fatos, ser contra a relegalização das drogas é ser a favor do tráfico e compactuar com os Al Capones dos dias atuais, não percebendo que policiais e civis estão morrendo em uma guerra insana, estúpida e evitável. O grande imbróglio é que os agentes da lei não percebem no que estão envolvidos.

Ocorre que estamos na era da informação, as pesquisas científicas e comportamentais, da psicanalise e, principalmente, da neurociência, demonstraram de forma categórica, que as drogas nunca foram o problema, sempre foram coadjuvantes das situações de estresse ou distúrbios emocionais dos indivíduos. Contudo, a polícia é incompetente e está de mãos atadas para resolver essa injustiça criada pelo proibicionismo, pois ela não pode agir diferente se não cumprir a legislação vigente, mesmo entendendo que é ineficiente e improdutiva.

Recentemente a polícia do Colorado-EUA manifestou sua avaliação, no Jornal Independent, sobre a regulamentação da marijuana, sendo que confirmou “Está tudo bem”, “o céu não caiu”, “a legalização não aumentou a criminalidade, sendo que aumentou os empregos. Crimes violentos, contra o patrimônio, dirigir alcoolizado, foram todos caindo, e a tendência só tem a continuar caindo”.

Por que 5 estados americanos, entre eles o Colorado, vendem marijuana legalizada de forma medicinal, recreativa e industrial? Por que não se prende pessoas por isso e o estado ainda arrecada bilhões de dólares com esse mercado? Porque 50% dos estados americanos regulamentaram de alguma forma a marijuana? Será que esses estados americanos são especiais?! Será que eles conseguem conviver com essa civilidade e os outros países são incompetentes e atrasados?! Será que os policiais estão mordendo as mãos, pois agora não podem mais prender pessoas (pretos, pobres e vulneráveis) que consomem marijuana? Ou será que essa nova política de drogas humanizou e trouxe progresso a essas comunidades? Em Seattle foi instalada a primeira máquina “self-service” de venda de maconha medicinal e recreativa, da mesma forma como se compra refrigerante. Como isso é possível?! Por que cidadãos americanos podem consumir maconha livremente, para fins medicinais e recreativos, e no Brasil, temos que encarcerar pessoas por consumir maconha, seja para fins medicinais ou recreativos?!

Dessa forma, o policial que prometeu cumprir a Lei e a Constituição, honrando o ofício de proteger e servir a sociedade, deve refletir e raciocinar sobre essa “Guerra às Drogas” e sua legalização. Será que a polícia está servindo e protegendo a sociedade prendendo pessoas que não praticam violência, não prejudicam terceiros nem prejudicam o Estado?! O caminho da legalização, junto com políticas públicas de informação e redução de danos, é viável e possível, vide políticas internacionais exitosas, para a área da segurança e saúde públicas.

Essas políticas públicas demonstraram muitos acertos, tais como: redução de doenças, como DST’s, HIV, Hepatite, etc; redução do consumo de drogas mais complexas, como heroína, redução de encarceramentos desnecessários, redução de crimes sem violência, redução de disputas armadas por pontos de comércio ilegal, redução de homicídios, melhor gestão dos recursos da segurança pública voltados para as condutas graves e de prejuízo ao patrimônio público, mais investimento em inteligência policial, trabalho policial focado em crimes e conflitos sociais graves, mais colaboração e confiança da sociedade com a polícia, redução de danos com o investimento na rede de atendimento psicossocial, os atuais CAP’S AD, onde se concentrariam os indivíduos que por ventura desenvolvessem algum problema com certa substância, nos moldes das narcossalas (ambientes seguros de consumo de drogas) da Suíça, Canadá, Holanda, França, Alemanha, Austrália, Espanha, Dinamarca, Portugal, colômbia etc, e, principalmente, eliminação do estado de “guerras às drogas”, para um estado de guerra às pobreza, guerra à corrupção, guerra à discriminação, guerra ao preconceito e, por fim, guerra à violência em todas as suas formas.

A pior droga é o nosso preconceito e o pior vício é nossa ignorância. Diga não às drogas, Diga sim a legalização!

*Inspetor de Polícia, pós-graduado em Segurança Pública e Cidadania pela UFRGS. Trabalha no Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico-DENARC, da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, é membro do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas e Porta-Voz, no Brasil, do movimento Law Enforcement Against Prohibition (Leap-Brasil).

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Diego Ferreira é um agente da lei a favor da legalização das drogas. Foto: Fábio Jalowski

 

Fonte:
  1.  Araujo, Tarso. Almanque das drogas.
  2. HART, Carl. Um Preço muito alto. 2014.
  3. //saude.ig.com.br/minhasaude/2014-05-19/sociedades-medicas-pressionam-congresso-para-liberar-remedios-para-emagrecer.html
  4. HART, Carl. Um Preço muito alto. 2014.
  5. //memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-04-10/estudo-da-unifesp-estima-que-117-milhoes-de-brasileiros-sao-dependentes-de-alcool.
  6.  //g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2013/09/brasil-tem-370-mil-usuarios-regulares-de-crack-nas-capitais-aponta-fiocruz.html.
  7. //oglobo.globo.com/sociedade/saude/impostos-altos-levam-reducao-de-consumo-de-cigarro-no-brasil-12661552.
  8. //anosloucos.blogspot.com.br/2011/06/lei-seca.html.
  9. ESCOHOTADO, Antônio. A Historia General de Las Drogas. 2006.
  10. //spotniks.com/guerra-drogas-em-quadrinhos/.
  11. Beatriz Caiuby Labate, Sandra Goulart, Maurício Fiore, Edward MacRae e Henrique Carneiro – Organizadores. Drogas e Cultura: novas perspectivas. Salvador, Edufba/MINC, 2008.
  12. Mapa da Violência 2014.
  13. //noticias.terra.com.br/mundo/estados-unidos/apos-1-ano-de-liberacao-da-maconha-colorado-vai-muito-bem,71ab238db3d0b410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html/
  14. https://smkbd.com/seattle-tem-primeira-maquina-self-service-de-maconha/.
  15. BURGIERMAN, Denis Russo. O Fim da Guerra: A maconha e a criação de um novo sistema para lidar com as drogas
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