O dia 26 de maio de 2012, um sábado, foi um dia histórico para Nova Iguaçu. Na primeira praça do skate da América Latina, ocorreu a primeira Marcha da Maconha da Baixada Fluminense. Um lugar libertário e de resistência, onde várias galeras da juventude da Baixada que incomodam mentes conservadoras e preconceituosas costumam se encontrar. A Marcha de Nova Iguaçu provou que nosso movimento não é só dos moradores da zonal sul de Ipanema, mas é deles também.

Maconheiros e simpatizantes de todos os lugares querem paz e liberdade. Como disse Núbio, um dos principais organizadores, ali ninguém fuma a erva do “capiroto”, como Wagner Montes chama a erva sagrada, pejorativamente, em seu programa de televisão no Rio de Janeiro. Estávamos ali para começar a dialogar sobre a maconha e quebrar preconceitos e tabus que geram uma violência absurda contra vendedores, consumidores e plantadores da erva da paz.

Muitos consumidores já foram assassinados na Baixada apenas por fumarem maconha. Reza a lenda que muitos policiais da Baixada são batizados pela senhora morte em pessoa. Nós, que somos da vida, fizemos o evento para começar a quebrar preconceitos onde mitos anti-cannábicos são muito difundidos e arraigados.

Por meio de diálogos no Facebook, policiais ironizavam nossa Marcha, dizendo que os repressores deveriam ter talento para baixar a porrada em nós. Encaminhamos tais diálogos à Promotoria de Justiça junto à Auditoria da Justiça Militar. Núbio foi chamado ao Batalhão, onde foi informado que a polícia compareceria ao evento para garantir a realização da Marcha da Maconha. Embora ainda apreensivos, ficamos mais tranquilos quanto ao que poderia acontecer. No dia, inclusive, uma pessoa na porta da praça dizia, muito exaltada, que não poderia se responsabilizar pelos seus atos diante do movimento. Pairou no ar que o próprio batalhão sabia disso, pois além de violento preconceito, a legalização vai reduzir uma forte cadeia de corrupção, podendo gerar incontrolável violência.

Felizmente, a polícia que ali estava foi nota dez e garantiu a Marcha, apesar da notória realidade de que não existia o total controle de pessoas que estavam indignadas com o nosso evento.

Na oportunidade, afirmei que estávamos ali quebrando tabus históricos e que deveríamos entender tais posições contrárias. Formada por mais de século de racismo e preconceitos, como o de que os maconheiros usavam a erva de Angola para praticar os crimes mais bárbaros. Sabemos da mentira dos mitos criados, mas devemos compreender tais posições para poder dialogar e quebrar esses preconceitos. Essa é a questão, a cultura da mídia de massa publica falsas verdades sobre os efeitos da maconha, como a de que os maconheiros praticam crimes violentos animados pelos efeitos da “venenosa erva maldita”. Sabemos que isto não é verdade, pois a cannabis, ao contrário, deixa o usuário calmo, reflexivo e criativo, quando a parte criativa do cérebro é acionada pela erva da paz.

Agora esta é a nossa missão, com calma, mostrar que a maconha tem diversos usos e que é muito boa para milhões de pessoas, principalmente para fins medicinais, como ensinam Renalto Marcher e Sidarta Ribeiro em seu celébre livro “MACONHA, CÉREBRO E SAÚDE”.

Parabéns às galeras do Skate, LGBT, SmokeBud, juventudes do Partido Verde e dos Trabalhadores, ao PSOL, e todos que ajudaram a construir a primeira Marcha da Maconha de Nova Iguaçu. Eram mais de duzentos corajosos ativistas que circularam pela primeira Praça do Skate da América Latina, e que no próximo ano vão ganhar as ruas de Nova Iguaçu, pois ficou claro que temos potencial.

Vamos conversar com calma, ainda mais agora, que o debate está aberto com a garantia da Marcha da Maconha em todo o território nacional pelo Supremo Tribunal Federal.

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Advogado da Marcha da Maconha, mestre em ciência penais, Secretário-Geral da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ e membro da Comissão de Direito Penal do Instituto dos Advogados Brasileiros.