A visão do ‘Bom Dia Brasil’ da TV Globo sobre crack, álcool e outras drogas ocultaria interesses políticos que só beneficiam um dos lados da questão?

Por Luis Fernando Tófoli*

Após assistir à edição do noticiário Bom Dia Brasil deste 15 de julho de 2013, resolvi elaborar um teste de conhecimentos sobre drogas, baseando-me em uma rápida matéria. Vejamos como o leitor se sai nos seus conhecimentos sobre este tema:

Dentre as opções que se seguem, qual é a única correta para substituir, respectivamente, os termos [entidade religiosa] e [droga]?

“A [entidade religiosa] está recebendo uma enorme quantidade de [droga] para seus rituais festivos desta semana”.

a) ‘Igreja do Santo Daime’ e ‘ayahuasca’;

b) ‘igreja rastafariana Primeira Niubingui Coptic de Sião do Brasil’ e ‘maconha’;

c) ‘Igreja Nativa Americana’ e ‘peiote’;

d) ‘Igreja Bolivariana da Santa Coca’ e ‘crack’;

e) ‘Igreja Católica Apostólica Romana’ e ‘vinho’.

Imagino que não tenha sido difícil perceber que a resposta correta é o item ‘E’. Ainda, a título de informação, vale acrescentar que a única fictícia dentre as igrejas citadas é a Bolivariana da Santa Coca. Todas as demais são reais e reclamam o uso sacramental de suas respectivas drogas, embora somente os rastafáris não estejam respaldados legalmente.

Conforme noticia o Bom Dia Brasil, é a Igreja Católica que terá à sua disposição mil garrafas de vinho gaúcho de safra 2007, para uso na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Entretanto, o que interessa abordar aqui nem é a leveza com se noticia a fartura da distribuição do álcool, droga lícita. Na mesma edição do noticiário global há uma longa matéria sobre o crack – outra droga, só que ilegal. Trata-se da primeira de uma série que será exibida ao longo da semana. Pelo que se pode avaliar pela amostra inicial, aqui também será seguido o padrão geral da imprensa televisiva brasileira que adormece a reflexão crítica sobre o assunto.

A reportagem é uma coleção de meias-verdades que, unidas, engendram uma visão tendenciosa. Cita-se a repressão policialesca como fator essencial para a redução de redução do uso de crack em Nova York, mas não se comenta que o aumento da repressão não foi capaz de resolver o intenso problema do crack em outra região americana, a de Nova Orleans. Alude-se que o ‘problema’ desta droga seria a ‘facilidade’ com que os usuários têm acesso a ela, mas não se pontua que a estratégia de restrição de oferta por aumento de penas por tráfico (que acontece desde 2006 em nosso país) não foi capaz de impedir a ampliação do comércio, não teve impacto no preço da droga e fez crescer o encarceramento de réus primários, que quando pobres e negros têm maior tendência a serem presos como traficantes do que como usuários.

Apesar das palavras cuidadosas da coordenadora de Álcool e Drogas da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, Rosângela Elias, a tônica da matéria resume-se nas palavras atribuídas ao psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, deixando transparecer o recurso da internação como ‘fundamental’. Os repórteres não saem da comodidade do senso comum para colocar em perspectiva o impacto econômico e sanitário das diversas formas de tratamento, que vão muito além da internação.

Ainda, o âncora do jornal menciona a ‘alta dependência de crack’, mas não se aborda a dramática necessidade da quantificação exata de dependentes em relação à população geral. A recente pesquisa da UNIFESP que indica um número alto de usuários no Brasil não traz com clareza quantos são, efetivamente, os dependentes e deixa escapar o fato de que a maioria dos usuários, por mais surpreendente do que isso possa parecer, não apresentam dependência. Além disso, ouve-se dos bastidores de outra pesquisa, feita pela Escola Nacional de Saúde Pública com financiamento da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), que seus resultados provavelmente indicarão um número muito menor de usuários de crack nas ruas das grandes cidades é do que é esperado pelo imaginário popular. Estes dados, infelizmente, estão aguardando divulgação por parte da SENAD.

O que mais me chama a atenção, no geral, é a completa inexistência de qualquer reflexão sobre os importantíssimos determinantes sociais do uso problemático de drogas. A substância, na visão simplista da maior emissora televisiva nacional, é sistematicamente julgada e condenada, a priori, como culpada. Dessa forma torna-se, para o telespectador da Rede Globo, desnecessário meditar sobre a complexidade real do tema, que é muito maior do que parece à primeira vista… E isso é particularmente perigoso para a já vulnerável e rejeitada população que usa crack nas ruas, uma vez que não se pode prender ou internar substâncias: são pessoas que são enviadas para o sistema carcerário e para clínicas de tratamento religioso financiadas pelo Estado laico.

Resumindo, é vasta a quantidade de perspectivas distorcidas encontradas nesta matéria, sem discussão, sem contraposição, sem a opinião de personalidades que tenham visões diversas das que são apresentadas. E o contraste com o tratamento dado pela televisão ao álcool – substância cujo uso é mais grave para a saúde pública e a segurança, e para a qual ainda há espaço na propaganda televisiva e em matérias leves sobre o ‘vinho do Papa’ – torna essas distorções ainda mais gritantes.

Não deixa de ser interessante considerar que, há muito pouco tempo, Renan Calheiros tenha colocado em regime de urgência no Senado o anacrônico projeto de lei que modifica a lei de drogas (nomeado agora como PLC 37/2013). Foi impossível, para mim, deixar de notar que a reportagem reforça quase todos os artigos do projeto de lei, mesmo que eles tenham sido rejeitados por instâncias governamentais, civis e internacionais. No entanto, o projeto foi aprovado na Câmara e é sancionado pela visão caolha das drogas que é distribuída à população em doses mais generosas do que o apoio financeiro da AMBEV à candidatura de diversos congressistas eleitos.

Resta ao jornalismo verdadeiramente independente investigar se isso é só uma ‘noia’ minha, ou se onde há a fumaça de crack na grande mídia, haja também o fogo da política acendendo os cachimbos que obnubilam a consciência do País.

* Luis Fernando Tófoli é psiquiatra e professor da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP

 

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Fonte: CartaCapital
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