“Proibir e criminalizar as drogas favorecem apenas a libertação dos demônios que irão atordoar o usuário, seus familiares e a comunidade.”

É o que diz o juiz baiano, Gerivaldo Neiva, ao dissertar sobre uma das questões mais recorrentes do debate sobre a legalização da maconha: seria ela porta de entrada para outras drogas? Confira o depoimento completo do Juiz que, nas últimas semanas, surpreendeu  o Brasil – e esquentou o debate- ao afirmar em um texto que “Ontem foi domingo e me droguei muito“:

A porta de entrada das drogas é a alma

Por Gerivaldo Neiva

Na busca automática, o rádio do carro sintonizou com melhor qualidade uma estação de FM que tocava uma música cantada por Simone, composta por Sueli Costa e Abel Silva, que falava das portas da alma:

    Há almas que têmGerivaldo Paiter-Suruí

    As dores secretas

    As portas abertas

    Sempre pra dor

    Há almas que têm

    Juízo e vontades

    Alguma bondade

    E algum amor


Estava saindo da cidade para mais uma palestra sobre o tema drogas, legalização da maconha… O script estava pronto. Falaria sobre o fracasso da guerra às drogas (ou guerra aos pobres e criminalização da pobreza?), sobre os pequenos traficantes que o sistema de justiça criminal insiste – quando não são mortos por concorrentes ou pela polícia – em condenar a pena de prisão em regime fechado em penitenciárias. Falaria também sobre a necessidade de compreender o usuário e o dependente como figuras absolutamente distintas, sobre o problema do usuário que termina se transformando em problema para sua família, comunidade e saúde pública, sobre a enorme hipocrisia reinante em aceitar como cultural o álcool e tabaco, que causam males terríveis ao usuário e à saúde pública, e criminalizar outras drogas que causariam danos em bem menor ao usuário e à saúde pública etc etc.

Dirigindo, pensando, elaborando o discurso e ouvindo a música (… Há almas que tem as dores secretas…) e buscando argumentos para as perguntas após a palestra: – O Brasil está preparado? Vai aumentar o consumo? E as respostas sendo elaboradas: – O Brasil não está preparado, mas o debate é urgente e precisamos enfrenta-lo sem medos ou preconceitos; não dá para continuar como está; os jovens estão morrendo nesta guerra insana; as experiências internacionais têm demonstrado que a legalização não resultou em aumento no consumo e diminuiu drásticamente os problemas causados pelo enfrentamento às drogas etc etc

E a música tocando, agora em melhor qualidade, (… as portas abertas sempre pra dor…) e a palestra e debate em elaboração: as drogas sempre presentes na história da humanidade, desde os romanos tomando vinho, os andinos mascando folhas de coca, os tupinambás tomando cauim etc. A revolução industrial, a formação das cidades, todos os problemas decorrentes da falta de saneamento básico, a poluição, o trânsito, o stress, a loucura da cidade grande, a solidão na multidão, os amigos virtuais que podem sumir com a tecla “delete”, a depressão, a fuga da realidade, as viagens etc.

Uma pausa para respirar e ouvir a música (… há almas que tem juízo e vontades, alguma bondade e alguma dor…) e continuar pensando sobre a palestra e os argumentos para o debate que se seguirá. Agora, a pergunta clássica: – professor, sendo legalizada, a maconha não pode ser a porta de entrada para outras drogas?

“Há almas que tem as dores secretas, as portas abertas, sempre pra dor…”

Na verdade, nenhuma droga entra na vida da pessoa sem que haja uma porta aberta em sua alma, sem que haja um convite, um aceno da alma para as drogas, sejam classificadas como lícitas ou ilícitas. E por que as almas das pessoas acenam para as drogas? E por que as drogas causam alegria e bem-estar às essas pessoas? E por que outras almas mantêm suas portas sempre fechadas para o mundo? São esses, portanto, os desafios do nosso tempo: entender a alma humana e buscar compreender por que algumas mantém as portas abertas “sempre pra dor” e outras abertas para todas as experiências proporcionadas pela beleza que é a vida!

Ora, as drogas não têm mobilidade, não arrombam portas e estão no lugar que sempre estiveram historicamente: parreiras produzindo uvas para o vinho, canaviais produzindo álcool, papoulas produzindo ópio, a Erythroxylum coca produzindo cocaína, a cannabis sativa produzindo maconha etc. Drogas não caminham em busca das pessoas. As drogas, todas elas, em si mesmo, não encerram maldades e não são criação do “demo”, não representam condutas criminosas. Drogas, na tradução botânica e química, são plantas, preparos, misturas e combinações de moléculas, ou seja, drogas estão na natureza ou resultado da combinação de ingredientes presentes na natureza.

Absolutamente incompreensível, portanto, por que a política internacional rotulou algumas drogas como legais e outras como ilegais, ou seja, resolveu dizer, seguindo orientações da política internacional dos EUA, que algumas drogas são criminosas e outras não são criminosas. Sendo assim, precisamos pensar e entender por que as pessoas procuram as drogas; por que as pessoas se desesperam e buscam as drogas; porque as pessoas furtam, roubam e matam por causa das drogas e, finalmente, por que as pessoas se sentem felizes usando drogas.

Logo, meu caro amigo, ponha tua pergunta de cabeça para baixo e me pergunte assim: – professor, por que algumas almas abrem sua porta de entrada para as drogas e outras não? Assim, também me virando de ponta à cabeça, podemos dialogar sobre esta questão chave: maconha é porta de entrada para outras drogas ou é apenas convidada, por tua alma, para entrar e tomar um café em tua sala de estar?

O problema é que a demonização das drogas e criminalização dos usuários termina fazendo com que as drogas deixem a alegre sala de estar da alma do usuário e começa a ocupar outros espaços. Primeiro o quarto de dormir, a sala de jantar, a cozinha e, finalmente, adentra ao porão onde a alma mantém trancafiados todos os seus demônios. Portanto, proibir e criminalizar as drogas favorecem apenas a libertação dos demônios que irão atordoar o usuário, seus familiares e a comunidade.

O Debate vai continuar intenso. Sei disso. Cheguei ao meu destino. Antes de estacionar, ainda ouvi um pequeno trecho da próxima música:

    A minha alma tá armada e apontada

    Para cara do sossego!

    (Sêgo! Sêgo! Sêgo! Sêgo!)

    Pois paz sem voz, paz sem voz

    Não é paz, é medo!

    (Medo! Medo! Medo! Medo!)

    […]

    As grades do condomínio

    São para trazer proteção

    Mas também trazem a dúvida

    Se é você que está nessa prisão

    Me abrace e me dê um beijo

    Faça um filho comigo

    Mas não me deixe sentar

    Na poltrona no dia de domingo, domingo

    Procurando novas drogas

(Minha Alma – A paz que eu não quero. O Rappa – Marcelo Yuka e Xandão e Marcelo Falcão e Marcelo Lobato e Lauro Farias)