Que as Marchas da Maconha estão rolando você já sabe, mas você sabe como começou essa luta e como o maconhativismo surgiu? Para mostrar como cresceu o movimento antiproibicionista, nós do Smkbd organizamos os fatos cronologicamente pra não deixar dúvida e mostrar como foi semeada a luta pela legalização na terra de Santa Cruz!  

13 anos após a primeira manifestação antiprobicionista em solo tupiniquim, acontecerá em SP mais uma Marcha da Maconha. No dia 23 de maio, no vão livre do MASP, às 14:20h, milhares de paulistas irão se encontrar e marchar pela descriminalização e legalização da maconha – e outras drogas.

Para acentuar a importância da Marcha e o papel dela na regulamentação e inspirando-se na publicação do ano passado do Vaidapé, o Smkbd decidiu contar a história do movimento no Brasil, em seus diferentes momentos.

80’s

Foi no final da Ditadura Militar, na década de 80, que o assunto começou a ser dixavado no Brasil. Neste momento, começaram a rolar alguns debates sobre as verdadeiras características do boldin e alguns meios de comunicação de pequeno porte começaram a disseminar a ideia.

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Encontro na USP, noticiado em 1986, debate descriminalização da maconha. – Foto: Arquivo pessoal Henrique Carneiro / Facebook

As discussões começaram a rolar com a retomada da União Municipal dos Estudantes Secundaristas, a UMES – que segundo a instituição, “tem como razão de ser a defesa dos interesses dos estudantes”.  Na conversa com o Vaidapé, Henrique Carneiro, hoje professor de História da USP,  que foi presidente na primeira gestão do movimento, comenta que um dos temas que foi pautados naquela época, durante os debates que rolavam entres os estudantes e ativistas, por ser uma “característica central da opressão da juventude”, foi a legalização da maconha para uso pessoal, já que eles abordavam qualquer interferência policial que pudesse atrapalhar os hábitos e vida cotidiana dos jovens.

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A luta não é de hoje – Recorte do jornal que noticiou o debate e o lançamento do manifesto a favor da descriminalização da maconha em 1986 – Foto: Arquivo Pessoal Henrique Carneiro / Facebook

Eles começaram a levar o assunto a sério e, sob a presença dos advogados Carlos Toron e Pauli Erix, do presidente do Centro Acadêmico 11 de agosto da época, Paulo Junior, João Breda (na época, candidato pelo PT) e Henrique Carneiro, em 15 de maio de 1986 aconteceu um debate na Faculdade Direito da USP, em SP, sobre a descriminalização da maconha e, segundo Henrique, foi a partir dai que nasceu a vontade de iniciar um movimento pela causa.

Em meio a isso tudo, no mesmo ano, a galera que estava nesse corre encontrou um manifesto assinado pelos Beatles e pelo Gilles Deleuze – um filósofo francês que merece sua pesquisa.  Esse manifesto, escrito em 1967, continha pesquisas e estudos defendendo a descriminalização da erva.  Esse manifesto foi traduzido e recebeu o nome  “Manifesto pela Descriminalização da Maconha”. O documento foi assinado por músicos como Arrigo Barnabé, acadêmicos como Florestan Fernandes, alguns sindicalistas, e levado no dia 30 de outubro ao Teatro Municipal de São Paulo.

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Polícia sendo Polícia desde sempre – Recorte de jornal da ocasião. Foto: Arquivo Pessoal Henrique Carneiro / Facebook

A ideia de levar o documento foi pra juntar uma galera e iniciar uma manifestação, mas quando os ativistas começaram a bolar o sistema de som, estender as faixas e dar vida à causa, foram impedidos e presos pela polícia. Não contente em prender os presentes neste momento, a polícia também deu uma carona no camburão aos que foram chegando depois.  “Não chegou a ter a manifestação. Tinha um contingente enorme de polícia e prenderam todo mundo. Depois teve uma segunda leva, outras centenas de pessoas que chegavam também eram presas”,  comenta Carneiro, que na época também era candidato a deputado da constituinte pelo Partido dos Trabalhadores.

Curiosidade:  A ação policial do dia 30 de outubro foi comandada pelo filho de Sérgio Paranhos Fleury, lembrado como ícone da tortura no período ditatorial e que, mais pra frente, foi afastado (não preso) por envolvimento com sequestradores, enquanto trabalhava na Delegacia Antissequestro – sério.

Quinhentos protestam contra ação policial
Toma lá da cá – 500 protestam contra ação policial. Foto: Arquivo pessoal Henrique Carneiro / Facebook

Seguindo lindamente a ordem natural das coisas, logo em seguida ao ocorrido aconteceu uma manifestação pelos que foram presos, no Largo São Francisco. O protesto também contou, pra não perder o costume, com repressão policial – que acabou sendo usada para o bem mais pra frente.

90’s

Foi nos anos 90 que a luta pela lega da maconha  ganhou força, ainda mais no cenário internacional, com as primeiras edições da “Million Marijuana March” e a “Global Marijuana March”, sendo o segundo um evento anual que começou na cidade de NY e conquistou outras cidades ao redor do mundo, tendo hoje cerca de 340 marchas no mundo inteiro – só no Brasil, mais de 30 acontecem.

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Global Marijuana March NY

2000

Foi só na virada do milênio que aconteceu a primeira marcha sob os moldes internacionais no Brasil, mais precisamente em 2002, no Rio de Janeiro. Organizada pela portuguesa Susana Souza, mais de 800 pessoas foram ao encontro e, acredite: não rolou repressão policial.

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Desde 2002 a PM e seu números ínfimos. “Cerca de 150 pessoas, segundo a PM, e 800, segundo os organizadores” – Foto: Psicotropicus

Curiosidade: os convites para essa marcha foi feito em sedas com as infos carimbadas e distribuídas no Posto 9, conhecido ponto de consumo de marijuana no Rio de Janeiro. Ligeira essa Susana, né?

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Convite na tradicional Colomy – Uma boa sacada em 2002

Já em São Paulo, a primeira passeata rolou em 2003, também sem repressão policial, e recebeu o nome de “Passeata Verde”. A edição se repetiu em 2004, mas diferente da primeira, nessa a presença da policia foi violenta brutal, resultando em vários feridos e mais presos.

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Sem Polícia, não há violência: 1ª Passeata Verde pela legalização da Cannabis Sativa em 2003 – Foto: CMI

Foi também em 2004 que dissidentes do PT formaram o Movimento Nacional pela Legalização das Drogas, o MDNL. A pauta do movimento, como indica, era a questão antiproibicionista e levantava os males da guerra às drogas como forma de criminalização e marginalização da pobreza. O movimento promoveu mais duas passeatas, em 2006 e 2007 e se desfez em seguida.

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Já com a presença em massa da polícia, a repressão começou logo na concentração na 2ª Passeata Verde, em São Paulo, no ano de 2004 – Foto: CMI
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Vão Livre do Masp, desde 2004 concentrando a militância canábica, com ou sem polícia!

Talvez por isso que, em 2007, um grupo de ativistas pela erva do Rio de Janeiro, se reuniram com o intuito de dar uma identidade para a marcha, onde foi decidido que a descriminalização deveria começar pelo nome e, com isso, nasceu a Marcha da Maconha.

Foi também em 2007 que foi criado um site para que fosse replicado todo o material das marchas, compartilhando as experiências nas cidades e viabilizando a organização das próximas manifestações, agora feitas pela internet, entre o país todo.

Em 2008 o ato foi marcado em 11 cidades, e em  São Paulo (parque do Ibirapuera), assim como em outras 9 capitais, a marcha foi proibida com a acusação de apologia às drogas.

A ação de proibir acabou saindo pela culatra, fazendo com impulsionasse ainda mais a causa, expandindo o tema e seu alcance. Em 2009 rolou a marcha no Rio e até 2010 a marcha continuou acontecendo, ilegalmente, em SP.

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Foi só em 2012, após a da Av. Paulista de 2011, que reuniu cerca de 2mil pessoas e muita, mas muita repressão policial, que a marcha conseguiu se libertar dos proibicionistas e ir às ruas na pura legalidade.

A repressão que rolou na marcha do dia 21 de maio de 2011 incentivou o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) a participar no julgamento da ADPF187, no STF, onde foi liberada a realização de eventos denominados “Marcha da Maconha” em solo nacional, no dia 15 de junho de 2011.

Curiosidade: Após a marcha do dia 21, em 2011, onde dois membros da Marcha da Maconha e membros do Coletivo Dar, mais de 5mil pessoas foram às ruas na semana seguinte, na passeata que recebeu o nome “Marcha pela Liberdade.

Em 2013, além das atividades, foram organizados  blocos temáticos, tratando de assuntos como a importância medicinal, cultivo, feminismo, psicodélia, entre outros e ainda rolou um show no encerramento da marcha.

Em 2014 a marcha segui a mesma onda da que rolou no ano seguinte e mais pessoas ainda foram às ruas pedindo pra liberar o green.

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Marcha da Maconha em São Paulo (2014) – Foto: Mídia Ninja / Flickr

Como você sabe agora, a luta não é e nunca foi fácil, mas estamos correndo por ela. Legalizar e descriminalizar as drogas significa muito mais que fumar unzinho andando pela rua, sem ser incomodado pelos cops. O tráfico é o culpado pelo fim da vida de muitos jovens,  além de que temos muitas amostras de como funciona a regulamentação e mais provas ainda da eficácia dessa medida.

A marcha é esse sábado, e o que você vai fazer a respeito? Muito já foi feito, mas ainda falta para alcançarmos essa evolução na lei. Não dá mais pra moscar, solta o beck (mas guarda pra acender depois) e vai pra rua lutar! E mesmo se não usufruir da erva, vá para as ruas porque o buraco da importância da regulamentação é muito mais profundo!

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Que em 2015 a história se repita – Foto: Mídia Ninja / Flick

  • Wendell Seles

    Legal!