Para matar a fome de novidades dos fãs de Bob Marley,  hoje, Robert Nesta Marley completaria 70 anos se estivesse vivo e para não passar em branco, reunimos as opiniões de Chris Salewics, autor do livro “Bob Marley: A História Não Contada” e de um dos filhos do cantor, o empresário Rohan Marley.

ALTOS E BAIXOS DA VIDA DE BOB MARLEY AJUDARAM NA CONSTRUÇÃO DA LENDA

bobmarley-untoldstory2
Bob Marley: a história não contada.

Sem os obstáculos e as controvérsias de sua vida pessoal, o cantor de reggae Bob Marley, que completaria 70 anos nesta sexta-feira (6) caso estivesse vivo, poderia não ter se tornado o artista de renome mundial que ainda “sobrevive” na atualidade, afirma de um de seus mais reconhecidos biógrafos. “O conheci em 1979, quando viajei por umas semanas à Jamaica para entrevistá-lo. E posso te dizer que ele estava estranho, cansado, exausto. Trabalhava muito”, lembra Chris Salewicz, autor de “Bob Marley: The Untold Story” – Bob Marley: a história não contada.

Em entrevista à Agência Efe, publicada no G1, o escritor britânico afirma que a lenda jamaicana, que morreu em 1981, aos 36 anos, devido a um câncer, era “humanitário” e “altamente produtivo”.

O espírito revolucionário de Bob Marley remonta aos anos 60, quando o cantor, autor de clássicos com temática social como “No woman, no Cry”, viajou várias vezes aos Estados Unidos para visitar sua mãe, que tinha se mudado para o estado de Delaware para tentar melhorar de vida.

“Ela trabalhou numa fábrica de carros. Nesse tempo, a segregação racial era muito forte”, relata o biógrafo, explicando que a situação social americana inspirou muitas das letras compostas por Marley e depois gravadas em parceira com o The Wailers, em 1970, quando retornou à ilha caribenha.

Naquela época, indica Salewicz, “o pensamento de Marley mudou”. As músicas passaram a incluir a tema da justiça social, ao mesmo tempo em que ele adotava totalmente o estilo de vida rastafari, uma religião que promove a supremacia negra.

São exemplos da inconformidade com o status quo “Them Belly Full (But we hungry)” e “Zimbábue”, explica o biógrafo. “Há um mistério poético que persegue Bob Marley, que o faz brilhar ainda hoje”, afirma, convencido da participação do produtor também britânico Chris Blackwell, que o catapultou a fama internacional ao explorar comercialmente seus “dreadlocks” e o restante da incomum imagem para lançar o álbum “Catch a Fire”, em 1972.

“Foi então que Bob Marley começou a se transformar em um arquétipo da verdade e da justiça, um verdadeiro ícone da revolução. Isso é o que o tornou grande em vida, sendo lembrado até hoje por sua humildade”, garante Salewicz.

Bob Marley passou sua infância e adolescência na pobreza em Nine Miles, sua cidade natal, e depois no subúrbio de Trench Town, em Kingston, onde desenvolveu seus dotes musicais, começando a gravar seus primeiros singles. No mesmo local, em 1963, se uniu aos The Wailers. Três anos depois, se casou com Rita Anderson, sua viúva na atualidade. Neste ano, o imperador da Etiópia e “messias” do rastafari, Halie Selassie I, visitou à Jamaica, marcando profundamente a vida de ambos, que decidiram adotar essa religião.

15036355
Bob Marley em 1979 em foto tirada pelo americano Roger Steffens

Outro dos momentos chave da vida do músico ocorreu em 1976, quando dias antes de um show promovido para fomentar a união nacional da Jamaica, Bob Marley levou um tiro. A tentativa de homicídio – atribuída ao partido de oposição, apesar de os responsáveis não terem sido presos – ocorreu quando o cantor já possuía grande influência em uma Jamaica totalmente dividida politicamente.

Em 1978, Bob Marley realizou sua primeira viagem à África e visitou Quênia e Etiópia, berço dos rastafaris. Em 1980, fez um show na cerimônia oficial de independência do Zimbábue para mais de 80 mil pessoas. “Bob Marley trabalhou muito, nunca parava. Poderia dizer que nesses últimos anos, inconscientemente, ele sabia que seus dias estavam contados”, afirma Salewicz.

Em 11 de maio de 1981, Bob Marley, transformado na voz do povo jamaicano frente ao mundo, defensor da paz e da igualdade entre os homens, morreu devido a um câncer. Sobrevivem seus seis filhos com Rita, quatro próprios (Sharon, Cedella, Ziggy e Stephen), além de dois adotados (Stéphanie e Serita).

Existe controvérsia sobre o número real dos descendentes de Marley. Rita reconhece em seu livro de memórias “No woman, no cry: My life with Bob Marley” (2004), que ele foi infiel em múltiplas ocasiões. De qualquer forma, Salewicz defende que toda a família de Bob Marley está “orgulhosa de seu legado”, que incluiu o disco “Legend” (1984), um álbum de recopilações póstumo que se tornou o mais vendido da história do reggae.

Bob Marley me inspira como empresário, diz filho do cantor

Bob Marley como empreendedor. É dessa faceta do pai que diz se lembrar mais Rohan Marley, 42, um dos 11 filhos deixados pelo cantor jamaicano (1945-1981), que completaria 70 anos nesta sexta (6).

“Me lembro especialmente de seu espírito empreendedor e trabalhador. Sua ética de trabalho me inspirou a ser o empresário que sou hoje”, diz Rohan à Folha, em entrevista por e-mail. Para ele, o exemplo do pai veio de iniciativas como ter criado a sua própria gravadora e um restaurante.

Hoje Rohan –um dos poucos filhos que não seguiu carreira na música– é referência no mercado de café sustentável nos Estados Unidos, com a marca Marley Coffee –a previsão de faturamento em 2014 era de US$ 10 milhões (R$ 27,4 milhões). Em crescimento acelerado, Rohan diz ter o Brasil como um dos mercados para onde quer se expandir.

marley
Rohan Marley entre Neville Garrick (esq.) e Kevin Macdonald no Festival de Berlim

Por aqui, no entanto, ele ficou conhecido menos nas páginas de publicações de negócios e mais nas de notícias de celebridades, em função de ter sido namorado da modelo brasileira Isabeli Fontana. Antes, foi casado com a cantora americana Lauryn Hill, com quem teve quatro filhos.

Aperte e Leia: Marley Natural, a primeira marca global de maconha

Recentemente, Rohan também está empenhado em um novo negócio para a família Marley, o de uma marca de maconha. Batizada de Marley Natural e registrada no ano passado, a empresa é resultado de uma associação dos herdeiros com a companhia Privateer, uma das grandes no negócio da erva no Canadá.

O objetivo da Marley Natural é vender um blend especial de maconha em locais em que já é legalizada.

*

Leia abaixo entrevista com Rohan Marley:

Folha – Como você vai celebrar os 70 anos de nascimento do seu pai nesta sexta (6)?

Rohan Marley – Estarei na Jamaica com a minha família e amigos, celebrando em espírito com milhões de fãs ao redor do mundo. O Museu Bob Marley será a sede de muitos eventos –leituras de poesia, shows em tributo, simpósios e muito mais.

Tudo será compartilhado nas redes sociais para amplificar a mensagem do #Marley70, para inspirar os fãs a contribuírem para um mundo melhor.

Você costuma fazer algo especial nos aniversários do seu pai?

Sim, nós o homenageamos todos os anos, mas esta será uma das maiores celebrações já feitas.

Se ele estivesse vivo, o que você acha que ele estaria fazendo como músico aos 70 anos de idade? No que ele estaria trabalhando?

Ele definitivamente estaria trabalhando, agitando com muitos projetos. Ele definitivamente estaria fazendo música.

De acordo com a revista “Forbes”, Bob Marley é a quinta celebridade morta que mais fatura. Por que seu legado é tão valioso até hoje?

Acho que essas razões são muito pessoais para cada fã. Algumas pessoas se conectam com o fato de ele ter sido sempre rebelde e guerreiro, enfrentando muita adversidade para se tornar a lenda que foi. Outras se identificam com a mensagem de positividade das suas letras. E outras apenas amam a música.

Depois de Bob Marley, nenhum outro artista do reggae foi tão bem-sucedido. Por quê?

Ele apresentou ao mundo um som e uma mensagem que estavam querendo ouvir. Sua mensagem é única para gerações, então as pessoas escutam e passam adiante, e isso leva em frente a sua vida e o seu legado.