Intencionalmente ou não, a máfia italiana foi ‘esperta’ ao usar o nome “Amné” ou “Amnésia” em sua criação, considerando que há anos existe, no mercado, uma erva de qualidade e famosa nos coffe shops chamada Amnésia Haze. Confundindo os usuários, devido à semelhança da droga com a cannabis, que acabam consumindo uma substância mais potente sem saber e ficam logo viciados. As informações são do Opera Mundi.

No vasto mundo das drogas não basta o haxixe, a cocaína e o Lsd. E disso as organizações criminais sabem bem. Tanto que, recentemente, a Camorra italiana colocou uma nova droga em circulação, chamada Amnésia, ou amné, como é chamada em Nápoles.

O nome não foi dado por acaso. Fabricada nos laboratórios clandestinos da organização, a amné é um tipo de maconha de péssima qualidade, cortada com substâncias químicas como metadona e heroína – o que a torna muito perigosa. Espalhada em todo o país, principalmente no sul da Itália, ela causa perda grave de memória, falta de concentração, ataques de ansiedade, paranoia e, pior, vicia. Isso porque pouca erva é fumada – o thc da maconha é quase inexistente –, mas sim heroína.

“É como injetar na veia sem usar a seringa”, diz M., 19 anos, ex-usuário de amné. “Quando usava, não tinha percepção de nada. Mal conseguia manter os olhos abertos. Me sentia estúpido. Era mentalmente instável e paranoico”, conta.

“A Camorra usa substâncias tóxicas para nos levar à dependência”, afirmaram dois jovens napoletanos entrevistados pelo programa de TV AnnoUnno. Segundo eles, químicos com quem a organização trabalha cortam a erva com substâncias que fragilizam o usuário. “Fumo porque vou a outro mundo e, no final, esqueço tudo”, conta um dos entrevistados. Assim como eles, muitos jovens saem à noite a vão direto à Scampia, o bairro napoletano comandado pela Camorra, para comprar droga.

O grande problema é que é impossível reconhecer a amné a olho nu, pois é igual à maconha. Com isso, usuários não frequentes são trapaceados pelos donos da boca. Segundo Giovanni Serpelloni, ex-diretor do Núcleo Anti-droga do governo italiano, “não existem muitas informações disponíveis sobre essa droga. Somente uma análise química pode certificar a mistura de metadona ou heroína”.

Marketing camorrista

De acordo com Diego Besozzi, educador de uma clínica de desintoxicação na região de Marche, a droga “é pior do que o crack”. Segundo ele, ela “destrói o cérebro”. “É ingenuidade pensar que a maconha de hoje seja igual a de anos atrás. Antes era relativamente pura. Hoje quase não existe, pelo menos aqui na Itália, pois misturam agentes químicos, drogas pesadas e o que se fuma é porcaria”.

Intencionalmente ou não, a Camorra foi “esperta” ao usar o nome “amnésia” para batizar sua nova criação. Isso porque há anos existe no mercado a Amnésia Haze, uma erva de qualidade superior, geneticamente modificada e bastante famosa nos coffe shops holandeses, cujas sementes podem ser compradas pela internet.

Tanto que Serpelloni, ex-diretor do Núcleo Anti-droga, reconhece que “circula no território italiano um tipo de cannabis com um alto teor de princípio ativo, bem como misturas de ervas sintéticas que podem ser adquiridas através da rede”. Porém, além do nome e do THC, não tem nada a ver com a amnésia da organização criminal. A estratégia parece ser a de confundir uma com a outra, usar o nome de uma erva “boa” e colocar em circulação algo que destrói o usuário.

A organização criminosa se apropriou da maconha para passar a fronteira da “legalidade”, pois em muitos países é considerada uma droga leve e, tanto usuários quanto pequenos traficantes, não são presos.

A polícia faz sua parte. Segundo Francesco Rizzo, tenente coronel dos Carabinieri de Nápoles, somente em abril deste ano, foram presos quatro traficantes e aprendidos cerca de 13 kg de amnésia camorrista, o que significa uma importante perda para a organização mafiosa.

Ao que tudo indica, por enquanto, a amnè ainda não atravessou o Oceano Atlântico e está longe dos tentáculos das organizações criminais brasileiras. Segundo a assessoria de comunicação da Polícia Federal, “não há nenhum laudo emitido com a identificação dessa mistura de drogas chamada amnésia”.