Depois de cobrir o narcotráfico e a violência na América Latina desde 2000, olho para as inúmeras fotos e vídeos que fiz e me pergunto qual seria a imagem mais simbólica desse período, uma que as pessoas vissem daqui a cem anos e entendessem exatamente do que se trata.

Será que há uma única imagem que represente as 60 mil mortes que essa guerra acarretou no México e as milhares ocorridas na Guatemala, Honduras, Colômbia e Brasil? Há uma única foto que resuma a rede complexa que liga o consumo de drogas na minha cidade, na Inglaterra, com a plantação de coca nos Andes?

Vejo fotos de soldados queimando folhas de maconha e percebo que evocam essa guerra em sua expressão mais fundamental: homens uniformizados destruindo, triunfantes, o inimigo declarado (uma planta). Eu me lembro da montanha de dinheiro vivo encontrada na mansão da Cidade do México, na maior batida do gênero já realizada: US$ 207 milhões, comprovando que tudo é mesmo uma questão de grana. Repasso as imagens das mães chorando sobre os corpos de seus filhos, mortos no fogo cruzado entre soldados e mercenários dos cartéis, cena repetida nas ruas de Ciudad Juárez, Acapulco, Tegucigalpa e Medellín. Talvez elas retratem melhor a tragédia porque a dor das pessoas que perdem entes queridos se destaca acima de todo o resto.

Entretanto, essa minha busca levanta uma questão básica: será que as pessoas daqui a cem anos vão encarar esse conflito na América Latina como um impasse arcaico há muito resolvido? Ou os EUA e a Europa continuarão a existir como os maiores mercados da droga enquanto a violência dos cartéis ainda reina ao sul do Rio Grande?

Conforme nos aproximamos de 2014, nos vemos em meio a uma mudança fundamental de atitude em relação à política antidrogas no continente, a mais radical desde que a região se voltou para proibição consequente do Harrison Narcotics Tax Act, lei federal implantada nos EUA em 1914 que gerou o tráfico de drogas na forma de contrabando de sementes de ópio a partir de Sierra Madre, no México.

Com o mercado norte-americano das drogas crescendo, impulsionado pelo movimento hippie e pelo consumo de cocaína da geração disco, a guerra dos EUA contra o tráfico se intensificou, assim como a pressão nos países latino-americanos para erradicar o fornecimento. As gerações seguintes dos cartéis se tornaram cada vez mais violentas até que deixamos de falar no combate às drogas para enfrentar uma verdadeira guerra ocasionada por elas, culminando no banho de sangue no México, talvez o episódio mais trágico do combate no mundo.

O rumo das discussões sobre o tema, porém, estão mudando com uma rapidez assustadora. Durante décadas, qualquer menção à legalização era vista pelos políticos do hemisfério como receita certa para a perda de votos; agora, os presidentes de Uruguai, Brasil, Argentina, Bolívia, Guatemala, Colômbia e México estão pedindo que se reconsiderem as políticas proibicionistas.

As eleições de 2012 no Estado de Washington e Colorado, primeiros lugares do mundo a legalizar a maconha para uso recreacional, acabou causando rachaduras no sistema, corroboradas pelo respeito da Casa Branca à escolha. Este ano, o Congresso uruguaio votou para legalizar a maconha no país inteiro, confirmando que a bola de neve estava crescendo. Várias nações latino-americanas, incluindo México e Colômbia, descriminalizaram a posse de pequenas quantidades de drogas mais pesadas, política a que Washington era visceralmente contra, mas sobre a qual atualmente se mantém reticente.

Embora seja óbvia a mudança no rumo do debate, a América Latina ainda tem um longo caminho a percorrer se quiser romper o ciclo da violência. Embora a Casa Branca seja discreta em divulgar suas atividades no exterior, realiza programas de repressão sob supervisão militar; apesar de sublimado, o problema está nas plantações de maconha do México e as de coca nos vales da Colômbia, bem como nas cidades centro-americanas. Para completar, os cartéis, financiados pelo comércio ilegal, continuam cometendo, se não ampliando, as versões mais horrendas de crimes que vão desde sequestro e extorsão a execução sumária.

Ainda não se sabe quais as consequências práticas da mudança na filosofia. Pode levar vários anos, mas a legalização da maconha parece altamente provável, gerando um potencial de mercado taxável para a erva que abrange desde as cidades norte-americanas às propriedades de cultivo na América Latina. O ex-presidente mexicano, Vicente Fox, inclusive anunciou seu apoio a um empresário norte-americano que quer apostar na maconha. Um mercado como esse tiraria bilhões de dólares das mãos dos cartéis e acabaria com os grilhões que empurram tanto produtores e vendedores para o mundo do crime organizado. Com certeza também provocaria discussões acaloradas na ONU, principalmente em relação aos tratados que obrigam os signatários a combater as drogas.

A perspectiva de discussões sobre como lidar com a cocaína, a heroína e a metanfetamina já despontam no horizonte e mesmo que se decida que essas drogas sejam muito perigosas para serem legalizadas, os lucros dos cartéis podem despencar se forem encontrados meios mais eficazes de ajudar os dependentes nos EUA e Europa.

E mesmo que as drogas percam o atrativo lucro, as autoridades latino-americanas terão que fechar o cerco com mais rigor contra sequestradores e extorsionários. A tarefa seria mais fácil, sem dúvida, se os criminosos pertencessem a gangues locais e não a redes internacionais sofisticadas. Porém, os governos precisam criar um sistema judiciário ágil e funcional, além de acabar com os guetos para que os jovens não cedam à criminalidade e acabem matando alguém por menos de US$ 100.

Analisando as imagens da violência nessas áreas pobres, vejo uma que me faz chorar, tirada por Fernando Brito, ela mostra um grupo de meninas segurando fotos de uma coleguinha em Culiacán, no México, vítima do fogo cruzado. Elas pedem justiça, exigem um basta, suas camisetas brancas enfatizam a inocência e a perspectiva de futuro. É o retrato perfeito da dor que a violência do narcotráfico está causando à América Latina. Será que daqui a um tempo as pessoas vão olhar para ela como um fator de mudança ou as pequenas estão chorando em vão?

* Ioan Grillo é jornalista e autor do livro “El Narco: Inside Mexico’s Criminal Insurgency”.

Via The New York Times / Uol