Por João Varella*

Um ex-combatente dos EUA (ou herói, se preferir assumir o ponto de vista yankee) foi o primeiro a comprar maconha para uso recreativo nos EUA. Do dia 1º, quando esse ato ocorreu, até o presente momento, nada de anormal se passou no Estado do Colorado. Nenhuma previsão catastrofista se confirmou. O país que mais bem conhece o jogo capitalista está pronto para fazer bilhões com a maconha (cannabis, marijuana, cigarrinho de artista ou o sinônimo que você preferir). Será que o Brasil vai perder esse bonde?

O produto tem o potencial de se tornar a commodity mais cara do mundo. Com folga. A soja, por exemplo, custa mais ou menos R$ 1 o quilo. No Uruguai, a maconha será vendida por US$ 1 a grama. O ex-soldado do Colorado pagou US$ 59,74 (incluindo US$ 10,76 de generosos impostos ao governo) por 3,5 gramas. Quem quiser comparar com o preço final das commodities, sugiro que vá até o supermercado da esquina verificar custo do café e do açúcar na prateleira.

A tendência é que a maconha seja vista assim mesmo, como açúcar e café. A erva foi a grande injustiçada da virada do século passado. Um movimento liderado pelos EUA – coincidentemente, um país com fraca produção da erva – fez com que o mundo criminalizasse a droga. Substâncias tão ou mais danosas à saúde foram liberadas, como uísque e tabaco. Os irmãos do norte são campeões globais na manufatura dessas substâncias. Outro acaso fortuito bilionário dos EUA.

Depois de torrar um dinheiro colossal na chamada guerra às drogas, os EUA resolveram fazer dessa substância um negócio. Já há cerca de 40 lojas que comercializam maconha no Colorado. Algumas delas já colocaram avisos de sold out na vitrine. Em 2014, é estimado que o produto gire US$ 578 milhões (R$ 1,4 bi) e gere US$ 67 milhões (R$ 159,5 mi) em impostos no Estado. Consultorias estimam que em cinco anos a maconha se transforme em um negócio de US$ 10 bilhões.

Só os ingênuos se surpreenderão quando surgirem redes de franquias especializadas no produto. Afinal, estamos falando da terra do McDonald’s, Subway, Burger King, Pizza Hut e grande parte das marcas que tomam conta do seu shopping center favorito. Jamen Shively, ex-executivo da Microsoft, está juntando US$ 10 milhões de investidores para criar uma rede de cafés que ele apelidou de “Starbucks da maconha”.

Enquanto isso, aqui, mais ao sul do planeta, o Brasil é dominado por uma letargia acachapante. Já há um claro afrouxo na repressão. Em todos os Estados, a polícia claramente começou a fazer vista grossa a pequenos usuários. Pela lei, qualquer portador de um fininho deve ser levado à delegacia para fazer um termo circunstanciado, o que desencadeia um processo criminal de crimes leves. No mundo real isso já não acontece faz tempo. E que bom, pois a polícia tem coisas muito mais importantes a fazer.

O País também não poderia legalizar do dia para a noite a maconha. O Brasil não sabe nem tratar o problemas das drogas legalizadas. Tabaco, fármacos, álcool, nada parece chamar a atenção do poder público, que só se faz presente na hora de arrecadar os impostos desses itens. Os risíveis pedidos de “beba com moderação” nas publicidades de cerveja são nossa melhor amostra de “educação”.

Assim, o Brasil deixa escorrer pelos dedos uma grande oportunidade. Quando se der conta de que a maconha não é um bicho de sete cabeças, de que é necessário se discutir uma política de legalização e mercado, o Brasil já será retardatário. Mais uma vez o País do futuro dá mostras de sua visão curta, imediatista e burra.

*João Varella é repórter da revista IstoÉ Dinheiro e fundador da editora Lote 42. Escreve semanalmente neste espaço. Este artigo não reflete necessariamente as opiniões do El Economista América.

Ilustração de FP Rodrigues

Via El Economista