Na lista de substâncias ilícitas no Brasil está a cannabis sativa. Mas com base na lei antidrogas (11.343/06) o presidente da Anvisa, Dirceu Barbano, argumenta que ela poderia ser autorizada para fins medicinais.

– O órgão se baseia em estudos de eficácia e segurança, e se bem avaliado, o produto vai para o mercado. Para pesquisas, a maconha poderia ser usada sem nenhum problema – falou ao GLOBO, citando o exemplo de opiáceos já liberados como a morfina, mas ressaltando que seriam substâncias controladas e não a erva que é usada como entorpecente.

Isto não quer dizer que uma liberação está em vias de acontecer, já que, segundo ele, nenhuma empresa – como a britânica GW, do Sativex – chegou a pedir qualquer regulação. Esse composto com duas substâncias da cannabis – o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), um dos canabinoides da planta – serve para amenizar dores da esclerose múltipla.

Em geral, as pesquisas com foco no uso terapêutico usam apenas algumas das mais de 400 substâncias da planta. O THC, que tem o efeito psicoativo, é o primeiro a ser removido ou amenizado. Mas nos EUA, por exemplo, é possível comprar a erva, e há aqueles que defendem seu uso integral mesmo para fins medicinais.

– A maconha será tão disponível quanto a aspirina – comemorou o professor de Psiquiatria da Escola Médica de Harvard, Lester Grinspoon. – Até a década de 60, eu tinha certeza de que ela era perigosa. Foi depois de me debruçar na literatura médica que descobri que não havia base científica para sua proibição. Desde então, venho estudando seus efeitos. Eu mesmo fumo há mais de 40 anos e nunca tive problemas.

Segundo Lester, a planta não é tóxica, não causa dependência, nem esquizofrenia. Ao contrário, ele acredita que a erva (e não apenas algumas moléculas) tem diversas funções, entre elas, a de tratar dores desde cólicas menstruais às da esclerose múltipla, além de náuseas e convulsões da epilepsia. Ele riu da declaração do presidente Obama:

– A maconha é muito menos prejudicial do que o álcool. Não deviam nem ser mencionados na mesma sentença. Mais de 50 mil morrem a cada ano em consequência do álcool. Nunca houve uma morte por maconha.

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Nem todos, entretanto, fumaram sem sentir efeitos negativos. Jorge Duarte, hoje com 28 anos, conta ter usado diariamente na adolescência.

– Se eu fosse sair, fumava. Se fosse num restaurante, também. Para qualquer coisa, eu usava. Era um viciadinho – conta o jovem, que explica por que resolveu parar. – Fui fazer intercâmbio nos EUA e não conseguia me comunicar. Sabia inglês, mas ficava travado. Foi quando notei que estava exagerando.

Professor de Psiquiatria da USP e com doutorado em Psicofarmacologia Clínica pela Universidade de Londres, Valentim Gentil Filho faz duras críticas aos que levantam esta bandeira.

– Esse Grinspoon tem conflitos de interesse e nem é autoridade no assunto. Além disso, é um absurdo o presidente dos EUA dar a mensagem de que é uma droga segura – afirma Gentil, que também não acredita na legalização do uso medicinal. – Primeiro, o controle de prescrição foi claramente burlado, e receitas eram vendidas sem que um profissional visse o paciente. É um disfarce para o uso recreativo. Segundo, não há pesquisas mostrando a eficácia da planta como um todo. Estão cedendo a pressões sociais, e com isso, vamos caminhar para o buraco nas próximas gerações.

Gentil lembra que na década de 60, quando a concentração de THC na maconha era bem menor, pesquisas já apontavam para o aumento de três vezes do risco de psicose esquizofrênica. Curiosamente, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto tem estudos com a cannabis no controle da esquizofrenia.

– A planta tem em torno de 80 canabinoides. Doses elevadas de THC produzem, em humanos saudáveis, sintomas psicóticos e em esquizofrênicos um agravamento dos sintomas. O canabinoide que estudamos é o CBD, que não produz os sintomas típicos da planta. Existem muitas evidências que o CBD possui uma ação antipsicótica – explicou o professor de Psiquiatria da faculdade, Antonio Zuardi.

Para ele, a possível liberação da maconha com fins medicinais deveria ser precedida da criação de uma agência reguladora do uso e de seus componentes. Quanto ao uso recreativo, ele diz ser uma decisão da sociedade. Posição semelhante é compartilhada pelo professor de Farmacologia de UFMG, Fabrício Moreira, que também realiza pesquisas sobre o efeito analgésico de substâncias análogas aos canabinoides.

– A discussão sobre o uso medicinal tem que ser embasada por evidências científicas, e sou a favor da sua regulamentação. Sobre a legalização ou não, isto tem que ser discutido sob aspectos políticos e sociais. Poderíamos começar a pensar nela como uma política de redução de danos, sabendo dos riscos.

O especialista diz que a maior preocupação é com os adolescentes. Até os 22 anos, o cérebro está ainda em formação e pode ser afetado pelo uso da maconha, reduzindo o QI, diminuindo funções executivas e causando doenças psiquiátricas.

A maconha leva poucos segundos para chegar no cérebro. E segundo a psiquiatra da Santa Casa de Misericórdia do Rio, Analice Gigliotti, causa dependência.

– A cannabis fumada tem concentração maior de THC do que de outros canabinoides, e qualquer droga fumada tem efeito mais rápido e maior potencialidade de dependência – afirma. – A legalização no Brasil é impossível neste momento. Não temos controle de venda sequer de cigarro e bebida para adolescentes. Temos que fazer o dever de casa ainda.

Via O Globo