Hoje o coletivo Antiproibicionista e Antimanicomial Cultura Verde passa a bola a uma mulher e candidata a deputada estadual pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados de São Paulo. A campanha de Arielli pretende ser um contraponto ao jogo eleitoral, totalmente controlado pelo poder econômico, defendendo sempre que a política possa ser diferente mas para isso, segunda ela, precisa ser feita nas ruas e greves.

Arielli é estudante da USP e começou a intervir na política a partir do movimento estudantil, pautando os debates sobre as condições de estudo no curso de Letras da Universidade de São Paulo. Fez parte da construção das greves universitárias de 2009, 2011, 2013 e agora novamente em 2014, constrói a atual gestão do Diretório Central dos Estudantes da USP.

Alem da defesa pela legalização da maconha defende uma mudança radical em nossa sociedade e que mais direitos e liberdades sejam garantidos pelo Estado. Em sua plataforma política prioriza o fim da estrutura militar da Polícia, a Tarifa Zero no transporte coletivo, a denúncia do genocídio da juventude negra, as cotas raciais no ensino público, a libertação dos presos políticos da Copa do Mundo, a criminalização do preconceito contra as LGBT e a defesa dos direitos das mulheres.

Nas eleições desse ano o Arielle é candidata a Deputada Estadual pelo PSTU de São Paulo com o número 1600.

CulturaVerde – Arielli, porque você é a favor da legalização das drogas?

Defendo a legalização das drogas porque esta é uma reivindicação urgente de grande importância social, não só para os muitos milhões de consumidores, mas para toda a população que sofre com a violência da guerra às drogas e, no caso da maconha, com a falta de acesso a um remédio útil, barato e sem riscos de letalidade ou fortes efeitos colaterais.

O uso recreativo de drogas é parte integral de praticamente todas as sociedades humanas e diz respeito a uma esfera de privacidade e intimidade que deve ser resguardada como um direito civil indispensável.

Mas, além do uso recreativo de milhões de pessoas, a maconha tem um importante e crescente uso medicinal. A legalização em 21 estados norte-americanos do uso médico é uma prova de que essa demanda é um clamor social, por pacientes de doenças graves, que necessitam do direito de meios alternativos de cura e apaziguamento do sofrimento.

A perseguição aos usuários e a batalha contra o narcotráfico são os alicerces da política proibicionista do Estado brasileiro. Os grandes empresários do tráfico continuam lavando os lucros do comércio ilegal das drogas no sistema financeiro internacional, enquanto o pequeno traficante, o pólo varejista, é brutalmente reprimido.

A guerra às drogas, na verdade, é uma política de controle social da população negra e pobre, porque aprofunda a militarização das periferias das grandes cidades, como podemos ver nos casos das Unidades de Polícia Pacificadora nos morros cariocas. A classe trabalhadora é o alvo mais atingido por esta guerra, pois fica refém da luta entre as facções do tráfico, milícias e polícia.

legaliza

CulturaVerde – Como e quando ocorreu sua aproximação das pautas e reivindicações antiproibicionistas?

Eu me aproximei do movimento antiproibicionista na universidade, ao mesmo tempo em que comecei a participar do movimento estudantil. Em 2011, inclusive, quando eu era diretora do Centro Acadêmico de Letras, uma forte mobilização dos estudantes da USP começou depois da polícia tentar prender estudantes que estavam consumindo maconha no campus.

O que mais me chamou a atenção no debate acerca da legalização das drogas foi, justamente, a denúncia da guerra às drogas. Comecei a estudar o tema só quando entendi que inúmeros problemas sociais, como o aumento da militarização das periferias, a criminalização da pobreza e o genocídio da juventude negra, são resultados da política proibicionista do Estado brasileiro.

Por fim, eu não poderia deixar de dizer que foi a militância conjunta com o professor Henrique Carneiro, do Departamento de História da USP, experiente ativista do movimento antiproibicionista, que me instigou ainda mais a conhecer o tema e entrar na luta pela legalização.

CulturaVerde: Acredita que existe relação entre proibição das drogas e o atual modelo de segurança pública militarizado e repressivo em nosso país?

Acredito sim, com certeza. Como eu disse anteriormente, o combate às drogas é compreendido essencialmente pela perseguição aos usuários e pela batalha contra o narcotráfico. Essa política é um mecanismo de controle social e racial da população pobre, legitimando as “batidas” em casas e as abordagens contra indivíduos que a polícia realiza, atacando a privacidade da população, principalmente a negra.

O combate às drogas é, na verdade, uma guerra aos pobres, uma ferramenta dos governos para criminalizar a pobreza e a população negra. A legislação brasileira, alterada no governo do PT, ao deixar a diferenciação entre tráfico e consumo ao arbítrio da justiça e do aparelho repressivo, aprofunda essa realidade.

O pretexto para as abordagens mais brutais e para o acosso permanente dos jovens da periferia das grandes cidades é a perseguição às drogas. De Amarildo à Cláudia ou Douglas, os mortos diários nas favelas são sempre sob a justificativa da guerra às drogas.

Nas interpretações mais comuns das autoridades, jovens de classe média com cem gramas de maconha são consumidores, enquanto jovens pobres e negros com a mesma quantidade de drogas são traficantes, portanto, criminosos.

Cerca de metade da população carcerária brasileira é prisioneira da guerra às drogas, em sua maioria de jovens negros e pobres, pequenos traficantes, funcionários do crime organizado em busca de melhores condições de vida.

CulturaVerde: Tendo como exemplos as atuais iniciativas de legalização da maconha por EUA e Uruguai, qual o modelo de legalização você acredita ser o mais adequado à realidade brasileira?

Eu não concordo com os modelos de legalização das drogas dos EUA e do Uruguai. Como o consumo de drogas é uma prática de massas na sociedade contemporânea, muitos setores econômicos estão procurando formas de lucrar com as drogas ilícitas. O tráfico de drogas é um dos mercados mais rentáveis da atualidade, abastecendo aproximadamente 200 milhões de pessoas em todo mundo e movimentando quase 500 bilhões de dólares por ano.

Por isso, o modelo da legalização das drogas é um tema em debate. O modelo uruguaio, além de continuar a proibir outras substâncias psicoativas, estabelecer um cadastro dos consumidores legais de maconha e impulsionar a internação involuntária para tratamento de dependentes, cria um sistema de produção aberto à iniciativa privada.

No Brasil, hoje, existem três projetos de legalização da maconha em debate no Congresso Nacional, dos deputados federais Jean Willys do PSOL e Eurico Jr do PV, além de uma iniciativa popular. No entanto, todos eles cometem o mesmo erro e abrem a possibilidade da produção e comercialização privada da planta, criando, portanto, um novo mercado capitalista.

Nossa proposta é bem diferente. Antes de tudo, deve-se considerar o respeito aos consumidores, recusar a discriminação opressiva e repressiva contra seus direitos humanos fundamentais. Defendemos, além de descriminalizar o uso e o comércio das drogas ilícitas, legalizar todas as drogas, a começar pela maconha, colocando a grande produção e a comercialização sob o controle estatal.

É fundamental também estender este regime de produção e distribuição às demais drogas hoje legalizadas, como os fármacos, o tabaco e o álcool, impedindo os instrumentos de incitação ao consumo, principalmente os publicitários. Assim, os lucros derivados da venda das substâncias psicoativas estariam voltados aos interesses da população, como investimentos em Saúde Pública, programas de tratamento de dependentes e campanhas contra o consumo compulsivo.

10469677_462324600570893_794826799563827860_n

CulturaVerde: Como você avalia a atual política de internação compulsória através de parcerias público/privadas com instituições religiosas para o tratamento ao uso abusivo de crack?

Eu penso que a internação compulsória é a pior política de combate ao uso abusivo de crack. A escandalosa operação na Cracolândia nada tem a ver com saúde. Pelo contrário, é uma forma de retirar os dependentes químicos da zona central da capital paulista, cuja presença desvaloriza a região.

A internação compulsória é parte das políticas higienistas e racistas de limpeza da cidade. A atual gentrificação do centro também tem por trás interesses bilionários da especulação imobiliária: o projeto Nova Luz, que prevê a concessão de 529 mil metros quadrados para uma empresa privada, durante os próximos 15 anos.

Estima-se que cerca de 1,2 milhões de brasileiros usem crack. Em geral, o uso se inicia por volta dos 13 anos de idade, entre jovens pobres das periferias, em sua maioria negros e com baixa escolaridade. Os dados são do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). A população de rua é a mais afetada.

Os dependentes de crack ficam, assim, vulneráveis a todo tipo de violência e situação de risco. O crack coloca os dependentes em situação psicossocial degradante. Mas a dependência química é uma enfermidade do campo das doenças mentais e é assim que deve ser tratada.

É desnecessário dizer que a saúde pública no Brasil é um caos. Quando se trata de saúde mental, a situação é ainda mais precária. Não existem vagas nem profissionais devidamente qualificados para atender os dependentes no sistema público. Em São Paulo, a solução dada pela prefeitura foram os convênios com as chamadas comunidades terapêuticas, quase sempre religiosas, que também não tem equipes de saúde capacitadas para receber os dependentes.

Os profissionais da saúde apontam que a solução seria uma política de intervenção, com real investimento e planejamento, que possibilitasse uma recuperação em longo prazo, para além de ações imediatas. Seria necessário oferecer uma alternativa de vida àquela população, reincorporando os usuários ao mercado de trabalho e garantindo seus direitos sociais básicos.

Caso algum candidato ao legislativo e executivo não tenham sido contactado pelo Cultura Verde e queiram participar da iniciativa basta entrar em contato conosco através da página no facebook ou pelo e-mail [email protected]