Hoje o coletivo Antiproibicionista e Antimanicomial Cultura Verde passa a bola para Babi, candidata a deputada estadual em Sergipe com a legenda 50123.

Babi tem 26 anos, é jornalista formada e mestranda em Comunicação e Sociedade pela Universidade Federal de Sergipe, militante feminista e presidenta do PSOL em Aracaju. Começou sua minha militância no movimento estudantil da UFS e na ENECOS – Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social. Milita no PSOL desde 2011 e nessas eleições é candidata a deputada estadual em Sergipe com a legenda 50123.

Cultura Verde: Porque você é a favor da legalização das drogas?

Babi: Com certeza. A proibição algumas substâncias de propriedade psicoativas a qual denominamos “drogas”- já que temos as legalizadas e as ilegais- produziram muito mais danos à sociedade que os efeitos ou danos das “drogas” em si. Esta proibição que tem origem completamente racista, além de prejudicar um debate franco e qualificado sobre os efeitos e possibilidades recreativas, medicinais e industriais de algumas drogas- notadamente a maconha- produziu uma guerra que mata diariamente policiais, soldados do tráfico, usuárixs e moradores das periferias brasileiras. Defender outra política de drogas para o Brasil, pautada na legalização, na regulamentação de todo o processo produtivo, na dignidade dxs usuárixs problemáticxs e na autonomia dxs sujeitxs, deve estar na ordem do dia. Temos a terceira maior população carcerária do mundo e a “guerra às drogas” responde por 25% desta fatia. O crime de associação ao tráfico é o delito que mais encarcera mulheres em Sergipe e no Brasil. Em Sergipe este número chega a quase 70% dos casos, de acordo com dados do Ministério da Justiça de 2012. Estas mulheres estão em uma situação bastante vulnerável, servindo como “mulas do tráfico” e expostas diariamente à violência física tanto por parte do braço policial quanto das estruturas do comércio ilegal de drogas. Logo, pensar em outra política de drogas também deve ser uma pauta das mulheres negras da periferia.

Cultura Verde: Como e quando ocorreu sua aproximação das pautas e reivindicações anti-proibicionistas?

Babi: Através de alguns grupos de discussão nos encontros da ENECOS e no movimento estudantil da UFS. Após o julgamento do STF em 2011, que garantia a realização das Marchas da Maconha como uma ação de liberdade política e não como “apologia ao uso”, tivemos a primeira Marcha da Maconha de Aracaju. Lembro que na época achei a marcha de Aracaju ruim, com pouca politização e muito oba-oba, com pouca gente debatendo e disputando o tema mais a sério, mas era a primeira marcha na cidade, tinha que ter paciência. Sempre tive muito respeito e acompanhei a militância do companheiro Renato Cinco, meu camarada de partido, e as intervenções da Marcha da Maconha no Rio de Janeiro. Nos últimos 3 anos o tema ganhou muito espaço e os efeitos da “Guerra às Drogas” estão mais expostos do que nunca, as experiências do Colorado, de Washington e do Uruguai também ajudaram a colocar o debate na ordem do dia. Quem não tiver posição acerca do tema não estará fazendo política nestas eleições, não tem para onde fugir: É defender a liberdade, dignidade dxs sujeitxs e o fim da guerra às drogas ou servir de papagaio de pirata para os agentes do encarceramento, do extermínio e da militarização da vida.

Cultura Verde: Acredita que existe relação entre proibição das drogas e o atual modelo de segurança pública militarizado e repressivo em nosso país?

Babi: Sem dúvida. A “guerra às drogas” é o principal pretexto para ocupação militar nas favelas e periferias Brasil afora. A proibição das drogas, em especial a maconha e a cocaína, alimentam mercados monstruosos que financiam as organizações criminosas, retroalimentam o tráfico de armas e sustentam o “arrego da PM”, a má e velha corrupção policial. Em Sergipe, o orçamento para a segurança pública em 2014 está na faixa dos 900 milhões, a segunda maior pasta em termos de financiamento em uma quadra de 4 ou 5 anos, e boa parte deste dinheiro vai financiar a “guerra às drogas”, os departamentos de narcóticos, aparelhagem, logística e inteligência contra as organizações criminosas. Em Aracaju, capital de Sergipe, vivemos um quadro de avanço na militarização da Guarda Municipal que segue na mesma trilha ao “combate ao tráfico”, quando na verdade o combate está centrado no varejista, no soldado do morro, o atacadista não é e nunca será aviltado nesta guerra. A proibição alimenta a militarização da vida, como falei anteriormente.

 

Cultura Verde: Tendo como exemplos as atuais iniciativas de legalização da maconha por EUA e Uruguai , qual o modelo de legalização você acredita ser o mais adequado à realidade brasileira?

Babi: Eu tendo a simpatizar mais pelo modelo uruguaio por ser uma proposta mais completa e com mais força do estado, mas acredito que o Brasil deve construir um modelo próprio, que respeite inclusive suas especificidades climáticas, que fortaleça o auto cultivo, que quebre a banca do tráfico e que, sobretudo, coloque o controle popular e público no eixo do debate. O debate em torno das drogas, em especial a maconha, não deve ser nem crime e nem commoditie. Falo isso porque o Estado da Califórnia, que convive com uma experiência de legalização do uso medicinal desde 1996, tem como maior campo de latifúndio o insumo da maconha e isso nos preocupa bastante. A gente não defende uma legalização que abra espaço pra modificação genética e levante intervenção de mercado pra Monsanto, por exemplo. A legalização que defendemos deve pautar os processos de produção pautados nas cooperativas e associações de produtores, nos clubes cannábicos, na justiça no campo e na reforma agrária, na agroecologia e na diversidade da agricultura camponesa. Os mecanismos de controle social e popular e social também precisam ser criados e ampliados. Temos em Sergipe, a exemplo, um Conselho Estadual de Entorpecentes, cuja única função real é acompanhar a queima dos produtos capturados nas rodovias. Para nós, um conselho como este deve ser composto pelos movimentos sociais, promovendo pesquisa, a execução de campanhas educativas de redução de danos, dentre outras ações.

Cultura Verde: Como você avalia a atual política de internação compulsória através de parcerias público/privadas com instituições religiosas para o tratamento ao uso abusivo de crack?

Babi: Um verdadeiro absurdo. Uso problemático ou abusivo de drogas é uma questão de saúde pública mental, não um caso de “salvação” sob proselitismo religioso. Internação compulsória não é a solução pra absolutamente nada, é uma política que só interessa à especulação imobiliária, à higienização das cidades e às comunidades terapêuticas que se alimentam de grupos fundamentalistas. O programa “Crack, é possível vencer!” abre esta janela de financiamento público a estas comunidades e isso realmente nos preocupa. Em Sergipe temos um bloco político muito minoritário, mas que vem tomando corpo político e econômico sobre a defesa destas comunidades terapêuticas, e precisamos reforçar este debate por aqui também. Enquanto os CAPS-AD sofrem com a invisibilidade e a ausência de financiamento adequado- e olhe que Aracaju é município referência de distribuição de CAPS e do programa de redução de danos- as comunidades terapêuticas vêm dando braçadas cada vez maiores no cenário político brasileiro e sergipano. Para nós saúde mental tem que ser 100% pública e pautada nas diretrizes da reforma psiquiátrica.