Dando continuidade a série de entrevistas com os candidatos antiproibicionistas, hoje o Cultura Verde entrevista Jaci, que é candidata deputada estadual pelo PSOL com o número 50420.

Jaci Marques tem 20 anos e cursa o sexto semestre de Ciências Sociais na UFC. A ideia de sua candidatura jovem é desconstruir o esteriótipo de política sempre ligado a um homem branco, de meia idade, engravatado. “Mulheres, jovens, lgbtts, negros e negras fazem política todos os dias e temos que ocupar esse espaço também”, afirma Jaci.

Começou sua militância secundarista de forma independente, atuou na ANECS – Articulação Nacional de Estudantes de Ciências Sociais, no Coletivo Liberdade Caça jeito, um coletivo de de movimento estudantil local, e hoje compõe a gestão do DCE UFC “Amanhã vai ser maior”. “Nesses espaços, conjuntamente com meus companheiros e companheiras, construímos uma luta contra a mercantilização da educação, contra essa lógica privatista de educação, por uma educação pública, gratuita, de qualidade e que dê retorno à sociedade.”, completa a candidata.

Jaci, que é candidata deputada estadual pelo PSOL com o número 50420, afirma que foi no movimento estudantil que se aproximei de duas das principais bandeiras de sua candidatura: a luta antiproibicionista e a luta em combate às opressões.

Cultura Verde – Jaci, por que você é a favor da legalização das drogas?

Jaci: Para além da defesa do direito individual de cada um consumir o seu de forma legalizada, a defesa da legalização que nós fazemos se dá principalmente pela visão de que a política de drogas hoje aplicada no Brasil, através de um modelo proibicionista de ‘guerra às drogas’ é um modelo falido e que tem que ser urgentemente superado.

A “guerra às drogas” foi um termo cunhado na década de 70 e que serviu de desculpa para o governo estadunidense invadir diversos países e perseguir minorias. No Brasil, hoje, a cena é parecida, a “guerra às drogas” serve para a criminalização de grupos étnicos e a institucionalização de um racismo disfarçado, que se manifesta com a criminalização da pobreza.

Essa mesma política de guerra às drogas garante ao Estado e a uma elite dominante que, em um momento de acirramento das lutas sociais mecanismos que legitimam o uso da violência por parte do Estado como nas “pacificações” no Rio de Janeiro, ou mesmo a repressão dos movimentos sociais. A repressão aumenta e endurece por conta do proibicionismo. As nossas penitenciárias já estão abarrotadas de gente, super lotadas principalmente por jovens, negros e pobres. E no caso das mulheres 90% das mulheres encarceradas estão lá por associação ao tráfico de drogas.

Isso tudo sem nem tocar na quantidade de violações de Direitos Humanos que são legitimadas por essa política militarista e proibicionista…

Cultura Verde – Como e quando ocorreu sua aproximação das pautas e reivindicações antiproibicionistas?

Jaci: A aproximação com a pauta se deu antes da minha aproximação do movimento, através da vida concreta, através das vivências que a juventude tem que passar todo dia. Nunca compreendi e aceitei a forma como meus amigos e a mulecada do meu bairro era tratada pela PM. E tem sempre aqueles que a polícia tem “preferência”, aqueles que sempre levam o baculejo, aqueles que sofrem grandes constrangimentos, aqueles que levam uns tapas, e, infelizmente, essas pessoas tem classe e tem cor. Mas o tapa, só esquece quem deu, quem leva o tapa fica marcadon não esquece não. E essa agressividade da polícia, essa violência desproporcional como uns eram tratados sempre foi discutido nas minhas rodas.

Quando entrei no movimento estudantil rapidamente me identifiquei com a pauta e ai que eu conheci militantes e movimentos que discutem o antiproibicionismo e a desmilitarização e fui me somando tentando me aproximar desses espaços.

E isso nos leva um pouco às ideias que temos para a campanha, que é uma campanha coletiva, pautada pelos movimentos sociais. A política não é feita só por mandatos parlamentares, longe disso, a política é feita todo dia, fazer política é falar das nossas vidas, é lutar todo dia contra essa ordem vigente. E nesse sentido eu acredito que os movimentos tem que protagonizar suas lutas, com autonomia, e o papel que nós temos que cumprir é o papel de dar suporte e dar visibilidade aos movimentos. luta antiproibicionista tem que ser um ato cotidiano, porque o proibicionismo é uma opressão cotidiana.

Cultura Verde – Acredita que existe relação entre proibição das drogas e o atual modelo de segurança pública militarizado e repressivo em nosso país?

Jaci: Sim. Como já dito o Estado serve a uma classe e em momentos onde as contradições se agravam esta classe necessita de mecanismos de defesa que legitimem a sua violência. A polícia militarizada e a “guerra às drogas ” são um casamento perfeito para garantir esse monopólio da violência por parte destes setores dominantes.

Nós defendemos uma nova política de drogas. As drogas sempre existiram em todas as sociedades, e o uso delas não necessariamente é um problema. Nós defendemos a legalização no sentido de que o consumo nunca deve ser tratado como “caso de polícia”, e acreditamos numa política de redução de danos, onde através de mecanismos públicos consigamos garantir o controle da produção e distribuição das drogas, e uma política de saúde pública que permita uma ressocialização real, diferente dos modelos manicomiais e que violam os direitos humanos que temos hoje.

Cultura Verde – Tendo como exemplos as atuais iniciativas de legalização da maconha por EUA e Uruguai , qual o modelo de legalização você acredita ser o mais adequado à realidade brasileira?

Jaci: Embora ainda esteja longe do ideal o modelo Uruguaio é mais avançado que o estadunidense haja vista que existe maior controle do estado sobre a produção e a distribuição, onde nos EUA a maconha entra no mercado e é regulada por ele próprio, e fica submetida às regras do capital. Mas é importante compreender que a legalização da maconha é um objetivo imediato, mas o fim da guerra às drogas só vai ser concreta com a legalização e regulamentação de todas as drogas, em paralelo a uma política de ressocialização real e de redução de danos para os usuários, e a mudança do modelo de polícia para uma polícia não militarizada.

Cultura Verde – Como você avalia a atual política de internação compulsória através de parcerias público/privadas com instituições religiosas para o tratamento ao uso abusivo de crack?

Jaci: Um absurdo atrás do outro! O primeiro absurdo é a própria internação compulsória. Os usuários de crack são extremamente marginalizados e sofrem um preconceito enorme. São vítimas além do proibicionismo, de uma solução higienista e antidemocráticos para “limpeza social” das cidades. A internação compulsória é uma prática medieval, que nega o direito básico a liberdade e fere os direitos humanos, além de existirem diversas denúncias de torturas físicas e psicológicas, causadas por essas internações.

O segundo absurdo, são as parcerias público-privadas que são o reflexo concreto de como pode ser lucrativo essa política proibicionista. É necessário ampliar e fortalecer o Sistema Único de Saúde como alternativa para o tratamento de dependentes químicos, sendo uma alternativa antimanicomial. E quem mais lucra com essas parcerias público-privadas? Instituições religiosas. E ai um terceiro absurdo, se o Estado é laico nunca deveriam existir parcerias com instituições religiosas, isso fere objetivamente essa laicidade e submete espaços públicos a determinações de determinadas religiões.