Com a proximidade das eleições e dando sequência às entrevistas com candidatos antiproibicionistas nessas eleições o coletivo Cultura Verde passa a bola para Rana Agarriberri, que é candidata a deputada estadual em Minas Gerais pelo PSOL sob o número 50.200

Cultura Verde – Rana, faça uma breve descrição de você e sua trajetória política.

Rana – Comecei minha militância aos 21 anos no Diretório Acadêmico do meu curso, Nutrição, na UFMG em 2011. Nosso DA estava desativado há algum tempo, e havia uma amiga da minha sala que falava sempre sobre a necessidade de reativá-lo, pois criar um movimento estudantil forte de Nutrição refletiria diretamente na qualidade dos trabalhadores Nutricionistas. Nossa profissão é muito desvalorizada pelo modelo de saúde atual, por isso decidi me unir a esse projeto. Procuramos mais pessoas que se interessaram pela reativação, e assim fizemos nossa primeira gestão. No meio do ano de 2011 fui convidada a ir para o Congresso da UNE, junto à Oposição de Esquerda. Vendo os debates feitos diretamente com o governismo da majoritária (PCdoB/PT) vi que era ali o meu lugar. Era ali que eu gostaria de estar. Desde o dia em que voltei para Belo Horizonte me joguei totalmente nas lutas por saúde, educação, contra o aumento do salário dos vereadores, contra o aumento da tarifa, na greve dos servidores e em 2012 fui delegada da UFMG no Comando Nacional de Greve Estudantil. No começo de 2012 me filiei ao PSOL e construo a Oposição de Esquerda da UNE, a partir do Coletivo Vamos à Luta!

Cultura Verde – Porque você é a favor da legalização das drogas?

Rana – Legalizar não é estimular o uso de drogas, é regulamentar quem, quando e como usa. Atualmente há um total descontrole pois a proibição não impede ninguém de usar. Olhando pelo lado da saúde, vários estudos no mundo inteiro comprovam que se uma pessoa é usuária de droga a abstinência não dá certo, a não ser para um número muito pequeno de usuários que tenham excelente condição financeira e familiar: o oposto do que ocorre hoje no nosso país. Para que uma pessoa deixe de ser depende químico é necessário que haja a retirada progressiva das drogas, a redução de danos. Por exemplo é muito melhor que um usuário de crack passe para a maconha, que é uma droga mais leve e que ainda estimula a fome, melhorando a condição nutricional. Olhando pelo lado da segurança pública, a guerra às drogas é a desculpa que os Governos estaduais, aliados ao Governo Dilma do PT, têm dado para criminalizar a pobreza e exterminar a juventude negra das periferias, esse é o triste papel cumprido pela Polícia militar, que na prática existe para reprimir as manifestações populares e principalmente a classe trabalhadora quando ela se levanta contra a exploração do Capital. Além de tudo isso, a relação do homem com as drogas, sempre existiu, o homem sempre utilizou substâncias que alteram a consciência. A questão é, a sociedade capitalista aceita que você use drogas para ser um melhor trabalhador (caso do rivotril, por exemplo), mas criminaliza se o seu objetivo é se divertir ou apenas relaxar.

Cultura Verde – Como e quando ocorreu sua aproximação das pautas e reivindicações antiproibicionistas?

Rana – Conheci as pautas antiproibicionistas quando fiz parte de um Programa de Extensão em Saúde Mental, da Psicologia na UFMG em 2012. Fazíamos várias atividades, rodas de conversa e debate sobre a saúde mental, e um dos temas era de álcool e outras drogas. Em Belo Horizonte a luta da Saúde Mental é muito forte. Eu fiz parte da Comissão Organizadora do III Encontro Nacional de Estudantes Antimanicomiais em BH, e isso me ajudou a me aprofundar no tema, não apenas no âmbito da segurança pública, mas no âmbito da Saúde da população.

Cultura Verde – Acredita que existe relação entre proibição das drogas e o atual modelo de segurança pública militarizado e repressivo em nosso país?

Rana – Existe total relação. O estado usa a guerra às drogas como desculpa para reprimir a população e os trabalhadores. Ano passado foi apreendido o helicóptero dos Perrella com 445Kg de cocaína, e nada sofreram, por pertencerem à elite e à política. Enquanto isso milhares de pessoas são mortas por morarem nas favelas, e terem algum tipo de relação com o tráfico, como o Amarildo no Rio. Além do extermínio da juventude negra, que é quem mais sofre, há também o encarceramento em massa, o Brasil é hoje a 4ª maior população carcerária do mundo. Essa é uma maneira de aumentar a exploração também, já que encarcerando um exército de mão de obra reserva é possível aumentar a exploração de camadas da classe trabalhadora.

Cultura Verde – Tendo como exemplos as atuais iniciativas de legalização da maconha por EUA e Uruguai, qual o modelo de legalização você acredita ser o mais adequado à realidade brasileira?

Rana – Acredito que nenhum dos dois sejam adequados de fato. No caso do Uruguai a legalização foi apenas da maconha, o que mantém na mesma situação todas as outras drogas utilizadas, além de servir à exploração do agronegócio (Monsanto) que já está fazendo pesquisas para o desenvolvimento de maconha transgênica. No caso dos EUA é o mesmo, e o modelo é totalmente aberto ao mercado privado, o que também não resolve o problema, pois a elite não sofre com a criminalização das drogas. Mas a grande questão é que dentro do modelo capitalista todas as lutas populares podem e serão deturpadas para gerarem benefícios às elites, que é o caso da legalização apenas da maconha, e não de todas as drogas. Acredito que o problema da guerra às drogas somente se resolverá com a extinção do capital e a criação de um estado dos e para os trabalhadores, acredito que essa seja sobretudo nossa luta.

Cultura Verde – Como você avalia a atual política de internação compulsória através de parcerias público/privadas com instituições religiosas para o tratamento ao uso abusivo de crack?

Rana – Primeiramente, acredito que seja necessário considerar que a maior parte dos dependentes, não são dependentes de crack, e sim de álcool. Somente isso já faz cair por terra a argumentação de que o crack seja a “droga mais perigosa” que os governos corruptos tanto gostam de dizer. Durante muitos anos, milhares de militantes lutaram contra os Hospitais psiquiátricos no Brasil, e a internação compulsória é a “evolução” para continuar encarcerando e gerando lucro a empresários. Essa parceria do Estado com instituições religiosas são a consequência clara do balcão de negócios que é a política de Dilma, do PT hoje. Para agradar a bancada religiosa, que é extremamente reacionária, homofóbica e machista o Governo Dilma tem aumentado os “investimentos” nesse setor, ao invés de financiar o SUS, que tem um tratamento muito mais humanitário. Aqui em BH chama-se CERSAM-AD (Centro de referência em Saúde Mental- Álcool e Drogas), em outros estados é CAPS-AD (Centro de Apoio Psicossocial – Álcool e outras Drogas). São locais para se tratar especificamente quem é dependente químico. Aqui em BH temos apenas 2 CERSAMs. Um número irrisório para tratar a população dependente. As PPPs com instituições religiosas trazem não apenas o problema da imposição da abstinência, mas o desrespeito aos usuários, no que diz respeito à religião, à orientação sexual, além de alimentarem a culpabilização do usuário, com relatos de privação alimentar e social. Quer dizer, um modelo totalmente falido que apenas se sustenta pela política do “Vale-tudo” que o PT tem feito para continuar no poder.