Fechando a sequência de entrevistas com candidatos antiproibicionistas nessas eleições o coletivo Cultura Verde passa a bola para Renatinho, que é candidato a deputado estadual no RJ pelo PSOL sob o número 50001

Cultura Verde – Renatinho, fala um pouco sobre quem é você.

Renatinho – Primeiramente, gostaria de agradecer o convite e a iniciativa desse debate sobre drogas. Vemos muitos políticos, usuários de drogas ilícitas, inclusive, que se omitem hipocritamente de debater esse tema, porque só os interessa o voto. Isso não contribuiu em nada pra esclarecer a população dessa pauta tão importante. Veja bem, sou de Campos interior do estado. Na minha infância, fui cortador de cana naqueles imensos canaviais de latifundiários da região. Apesar da paralisia, fui obrigado a trabalhar cedo pra poder contribuir em casa. Vim para Niterói, onde estudei no Liceu Nilo Peçanha! Trabalhei mais de 30 anos vendendo paninhos na Rua Gavião Peixoto, onde ainda conservo minha banquinha para escutar a população. Em 1999, o governo Roberto Silveira, com essa política higienista exigida pela especulação imobiliária, quis retirar o meu sustento e de outros ambulantes, nos expulsando de nossos trabalhos. Ficamos desesperados e fizemos uma manifestação política que logo ganhou apoio da população! A partir dali, me questionaram que uma candidatura minha pra vereador da cidade poderia ser uma ferramenta a mais na Câmara e representar nossa categoria. Foi o que fiz!

Cultura Verde – Porque você é a favor da legalização das drogas?

Renatinho – A utilização de drogas ilegais e porque não dizer também as legais são em sua maioria consumidas com fins recreativos. Significa dizer que nem todo mundo que consome álcool se torna alcoólatra, da mesma forma, acontece com usuários de maconha, cocaína e outras drogas consideradas ilícitas, nem todo usuário se torna um dependente químico. A pobreza e o desespero estão na raiz da maioria do uso problemático da droga, e somente atacando a estas causas é que poderemos esperar diminuição significativamente de usuários problemáticos. Ademais, a legalização força o crime organizado a sair do comércio de drogas, acaba com sua renda e permite o Estado controlar o mercado, afastando-se assim problemas como a corrupção de agentes públicos e outros crimes que acompanham o mercado da venda ilegal de entorpecentes. Outra questão é que não existe nenhuma evidência para mostrar que a proibição esteja resolvendo o problema.

Cultura Verde – Como e quando ocorreu sua aproximação das pautas e reivindicações antiproibicionistas?

Renatinho – Na verdade, assim como toda a classe trabalhadora, no início, eu tive um pouco de preconceito com a pauta antiproibicionista. Porém, sempre procurei entender, escutar e aprender com a militância do PSOL, principalmente, a juventude que tem muito pra dizer. Tudo isso somado a minha luta antimanicomial, onde se faz muito esse debate equivocadamente achando que a internação de dependentes químicos é a solução. Acho muito importante fazer essa discussão, demonstrar que não é com a criminalização e punição que a discussão deve ser tratada, mas como questão de saúde pública.

Cultura Verde – Acredita que existe relação entre proibição das drogas e o atual modelo de segurança pública militarizado e repressivo em nosso país?

Renatinho – Inicialmente é importante frisar que o comércio ilegal de drogas é um grande negócio. Estima-se, que representa cerca de 8% de todo o comércio mundial (em torno de 600 bilhões de dólares ano). Inclusive o sistema financeiro convencional é um grande parceiro, mais recentemente vimos a responsabilização do Banco HSBC por lavagem de dinheiro do tráfico internacional, sendo que essa responsabilização limitou-se ao pagamento de uma multa, que segundo organizações não governamentais estaria abaixo de um décimo do lucro obtido nas transações de lavagem de dinheiro. De fato, o dinheiro que foi lavado estava sujo de sangue, pois a proibição criminaliza desnecessariamente milhões de pessoas que, não fosse isso, seriam pessoas normalmente obedientes às leis. A proibição tira das mãos dos que constroem as políticas públicas a responsabilidade da distribuição de drogas que circulam no mercado paralelo e transfere este poder na maioria das vezes para traficantes violentos. Como medida populista, a resposta do Estado para classe média descontente é seu braço aramado. O incrível é que as pessoas não percebam que o problema é, sobretudo de Educação, Saúde Pública, Geração de emprego e renda e investimento e infra-estrutura. Como os Governos se mostram incapazes de resolver essas questões, respondem com poder de fogo e operações teatrais orquestradas para aplacar a sede de justiça disseminada pela mídia o que só gera mais caos e insegurança. Não pode deixar de ser dito que a militarização e o atual modelo de segurança pública só é possível com a conivência da sociedade, mídia e judiciário que promovem políticas discriminatórias. As pessoas da raça negra correm dez vezes mais risco de serem presas por uso de drogas que as pessoas brancas. As prisões por uso de droga são notoriamente discriminatórias do ponto de vista social, alvejando facilmente um grupo étnico particular. A proibição promoveu este estereótipo das pessoas negras e pobres que super lotam as cadeias do Brasil, a ponto de nos tornamos a terceira população carcerária do mundo.

Cultura Verde – Tendo como exemplos as atuais iniciativas de legalização da maconha por EUA e Uruguai , qual o modelo de legalização você acredita ser o mais adequado à realidade brasileira?

Renatinho – Existe ainda muita desinformação sobre drogas e uso de drogas é engendrado pelos ignorantes e preconceituosos da política e por alguns meios de comunicação que vendem mitos e mentiras para benefício próprio. Além é claro do fundamentalismo religioso crescente no País. Isto cria muito dos riscos e dos perigos associados com o uso de drogas. A legalização ajudaria a disseminar informação aberta, honesta e verdadeira aos usuários e aos não-usuários. Qualquer que seja o meio adotado, deve-se necessariamente ter gerenciamento do Estado na produção, e cadeia de comércio. Além de contemplar questões de conscientização e tratamento. Inclusive nos países que já adotaram a prática da descriminalização já vêem observando que a legalização que permitiu regular o mercado e determinar um preço muito mais baixo acabando com a necessidade dos usuários de roubar para conseguir dinheiro. Nosso sistema judiciário seria aliviado e o número de pessoas em prisões seria reduzido drasticamente, economizando-se dinheiro, que poderia facilmente ser utilizados a maior informação e riscos das drogas, bem como tratamento. Além é claro, da desarticulação do crime organizado.

Cultura Verde – Como você avalia a atual política de internação compulsória através de parcerias público/privadas com instituições religiosas para o tratamento ao uso abusivo de crack?

Renatinho – Avalio como equivocada! Primeiro que o Estado é laico, por isso, nós devemos fiscalizar com cautela para onde estão indo as verbas direcionadas às políticas públicas para os usuários de crack. Além de que alguns desses espaços religiosos usam métodos precipitados de acompanhamento, como abstinência e punição. Quanto ao acolhimento compulsório não acredito que seja a solução, é algo apenas paliativo, não resolve o problema. Devemos criar o médico na rua, para primeiro buscar cuidar de elementos básicos da saúde desse usuário, educa-los para o uso de contraceptivos, cuidados básicos com a saúde, oferecer vitaminas, dentre outros. A partir dessa relação de confiança estabelecida, daí sim, convidá-lo a visitar um CAPSAD para, em seguida, reintegrá-lo a sociedade. Hoje, virou lugar comum uma política higienista e autoritária, de que tudo que “destoa” de um projeto elitista de cidade, tem que ser eliminado, desde ambulantes, até usuários de crack. O que queremos é mais políticas públicas pra saúde e menos polícias.