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Aluga-se quarto em apartamento grande na região central, sem mobília, apenas com um guarda-roupas embutido. R$ 650, internet, água, luz e condomínio inclusos no valor. Interessados ligar para o número 9371-1290”. Assim coloquei o anúncio nas redes sociais e alguns poucos sites imobiliários para gente com pouco dinheiro que está longe de casa ou simplesmente quer sair de baixo do teto dos pais.

Eu estava de cara porque o cara que dividia esse apartamento comigo se apaixonou por uma hippie-bicho-grilo e me abandonou com uma série de boletos que duplicaram de valor quando ele pôs os pés na rua. Precisava de alguém para cooperar no valor das despesas ou então teria que voltar para o interior e largar a faculdade de Geografia. Convidei várias pessoas da minha sala, mas todos tinham menos grana do que eu e achavam o valor que eu pedia muito alto.

A maioria morava em repúblicas onde viviam até 14 pessoas num espaço não muito maior do que cinquenta metros quadrados. Uns diziam que era frescura minha, mas excesso de pessoas num ambiente doméstico me dava nos nervos. Somente eu e outra pessoa era o suficiente para preencher aquele apartamento, que além dos dois quartos ainda tinha sala de dois ambientes, varanda, cozinha, um banheiro e área de serviço.

– Alô.

– Alô, Marcelo?

– Eu.

– Aqui é Sidney, do Diretório Acadêmico. Vi teu anúncio sobre um quarto no teu apartamento. Mauro disse que já foi em uma festa aí na tua casa e conhece o espaço. Falou que é bem grande.

– E aí, tá afim de morar aqui?

– Tô afim de alugar, mas não vou morar aí.

– Oi?

– Posso passar aí para conversar contigo pessoalmente?

– Pode.

– É tranquilo fumar um aí?

– É.

– Tô chegando.

Sidney chegou. No meio do quarto, com as mãos na cintura e o baseado torto na boca analisava cada centímetro do cômodo. Abriu todas as portas do guarda-roupa, colocou a cabeça do lado de fora da janela, passou o beque para mim e falou que ali seria o lugar perfeito. O espaço era ótimo só precisava ajustar algumas coisas na luz e na ventilação, mas o material que tinha já era suficiente.

Vou alugar.

Mas que porra tu tá pensando em fazer aqui? Você mesmo falou que não está interessado em morar aqui.

Seguinte. Consegui uma sementes de Lemon Haze, maconha boa com gosto de limão e os caralhos. Coisa pouca, mas se florescer certinho vai dar para aproveitar muita coisa.

Ih, sei não, cara.

Relaxa que não é para revenda. E apenas para consumo próprio. Pago seis meses de aluguel adiantado e toda a maconha que essas plantas produzirem a gente divide por três em partes iguais. Eu, você e Mauro.

Paga seis meses de aluguel adiantado?

E ainda pago em espécie.

E essa grana aí, vem de onde?

Relaxa, velho. Não sou traficante. Vendi meu carro e agora tô com essa grana para investir nesse grow. Nunca mais quero comprar maconha na minha vida.

Eu ainda vou ter direto a uma parte do que for colhido?

Vai.

Beleza. Deixa eu pensar. Amanhã te dou uma resposta.

Hora de pesar as vantagens e desvantagens da proposta. Sempre fui um medroso dos maiores. A chance disso dá merda era gigante. Mas estava sem grana nenhuma, as contas só cresciam, o cara adiantaria uma boa grana, além de me fornecer maconha boa de graça. Levando em consideração a péssima qualidade das parangas que eu estava comprando por preços cada vez maiores, valia a pena o risco.

Sidney e Mauro chegaram numa manhã de sábado carregando ventiladores, lanternas e papel laminado. Passaram o dia todo até montar toda a parafernalha. Dali por diante a minha relação com aqueles dois caras passou a ser mais contínua e intensa. Deixamos de ser pessoas que as vezes se esbarravam na faculdade e que dez vez em quando queimávamos um fumo junto. Passamos a ser sócios.

Isso foi no início. Não demorou muito para virarmos três pais solteiros de vegetais que pareciam ter vontade própria. O trabalho era similar ao de criar um filho. De tanto em tanto tempo dar água, mexer na terra, regular a luz, controlar o vento. Enfim, um trabalho dos infernos que tínhamos na esperança de nos livrar do valor exorbitante da maconha preta prensada. Nosso dia iria chegar. Amém.

Foi desgastante. O apartamento nunca mais pode ficar sozinho. Os três não poderiam se ausentar da cidade ao mesmo tempo. Festinhas, gatinhas e brejas com estranhos passaram a ser proibidos. Enganei meus pais durante todos esse tempo para evitar visitas constrangedoras. Só quem poderia se mexer por aqueles corredores éramos nós. Fizemos escalas de plantão para organizar os horários de cultivo. Eu que gostava e estudava geopolítica, estava ali melando minhas mãos na terra. Passei a conversar com a galera de agronomia. A minha paciência já estava acabando, até que começou o período da floração.

Nessa etapa nossos sorrisos se espalharam pela casa junto com o odor forte de maconha. O cheiro impregnava tudo. Nossas roupas, utensílios de cozinha, cabelo, escova de dente. Nada escapava daquele aroma que escapava por portas e janelas. Vizinhos estavam começando a se incomodar. Uma coisa era quando íamos para varanda dar uma bola e o cheiro sumia em dez minutos. Outra era ter vinte e quatro horas de aroma de baseado pelos 13 andares do edifício. Os porteiros e vizinhos já nos condenavam as piores desgraças.

Aquele cheiro bom poderia feder. Madrugada de um sábado para um domingo de chuva, Mauro estaciona um jipe velho perto da calçada. Eu e Sidney descemos pelo elevador de serviço, cada segurando duas mudas. Jogamos tudo dentro do carro e partimos em direção a um sítio da avó de Mauro nos arredores da região metropolitana. Entre pepinos, cenouras e beterrabas, nossas filhas terminaram a floração.

Foram seis meses em que eu, Sidney e Mauro fumamos muita maconha. Diariamente. A melhor da nossa roda. Todos perguntavam onde nós conseguíamos um mato tão gostoso e tão verde. Queriam saber o quanto custava. Não revelávamos, não vendíamos, mas depois desse período voltamos a fumar o que vinha nos quadradinhos marrons. Maconha boa é a melhor coisa do mundo, mas a nossa preguiça de encarar uma nova missão de criar plantas que tem vontade própria foi maior.

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