Os comentários recentes do procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, por uma reforma que reduza a pena para delitos leves ligados a drogas, gerou uma enxurrada de reações desencontradas. Seus comentários também reforçaram os argumentos sobre a legalização da maconha.

As colocações de Holder, aliadas à mudança de opinião do correspondente da área médica da CNN, Sanjay Gupta, que recentemente reviu suas objeções ao uso medicinal da maconha, reacenderam o debate nacional. Em alguns lugares, a posição a favor da legalização parece estar aumentando, sobretudo para uso medicinal.

Um grupo de especialistas dá credibilidade à batalha pela legalização da droga para fins medicinais. Um deles é o Dr. Sunil Aggarwal, especialista em fisiatria, cujo apoio à cannabis foi reforçado por seu estudo com 176 pacientes, que sofriam de dores crônicas e foram tratados com a droga.

“Em uma análise retroativa com 139 pacientes, diversas síndromes que provocam dores crônicas foram controladas com o uso da cannabis”, revela Aggarwal. “Em vários casos, houve redução de medicamentos para administrar a dor crônica, ou redução da dosagem desses medicamentos. Nenhum deles apresentou efeitos colaterais ao usar a droga”.

Aggarwal, que se tornou uma voz prestigiada na luta pela legalização da maconha para o tratamento da dor, afirma que outros países estão bem à frente dos Estados Unidos nessa questão.

“Na Europa Ocidental, América do Sul e até mesmo na Índia, o uso é generalizado”, argumenta Aggarwal. “O consumo foi legal durante muito tempo. Estamos só começando a reconhecer seus usos, que são bastante conhecidos nesses lugares. Em resumo, precisamos de uma política pública de saúde que contemple tanto o uso medicinal como o uso recreativo e social da cannabis”.

Um dos problemas é o estigma histórico da droga, difícil de ser superado por meio de leis federais e estaduais. Mesmo em alguns estados que legalizaram a maconha, os empresários que dirigem negócios ligados à marijuana enfrentam obstáculos, afirma Betty Aldworth, vice-diretora da Associação Nacional da Indústria de Maconha, uma organização que representa quase 300 empresas ligadas à droga na esfera federal.

“Podemos dizer que a mudança de opinião de Gupta e as declarações de Holder refletem uma mudança mais ampla na percepção do público sobre a maconha”, argumenta Aldworth. “Pesquisas de opinião demonstram que a grande maioria dos americanos acredita que os pacientes devem ter acesso à maconha medicinal, e que um número menor aprova que os adultos tenham o direito de consumi-la para uso pessoal. Se levarmos isso em consideração, não é exagero afirmar que a maconha deveria ser fornecida por empresas autorizadas e responsáveis”.

O problema está nos impostos, afirma Aldworth. “Na seção 280E da lei de impostos de 1980, não há redução tributária para pequenas empresas envolvidas no tráfico de produtos ilegais. Enquanto outras empresas pagam entre 15% e 30%, os fornecedores de maconha são punidos com impostos federais que chegam a 80%”.

Isso significa que mesmo que o estado legalize a maconha, as empresas ainda estariam sujeitas a diretrizes tributárias rígidas.

“É importante que o público entenda que, se passarmos de uma cultura que criminaliza a maconha e a coloca nas mãos de cartéis e criminosos para uma cultura que fornece o medicamento aos pacientes em um ambiente seguro, esses empresários estarão contribuindo de forma significativa para as economias estaduais”, explica Aldworth.

Ainda assim, outros especialistas baseiam suas objeções à legalização em evidências científicas.

“Estudos mostram que 9% das pessoas expostas à maconha se viciam”, cita Nora Valkow, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas do Instituto Nacional de Saúde. “Se você tiver menos de 17 ou 18 anos, esse número sobe para 16%”.

Mesmo para a maioria dos adolescentes que não se torna dependente, Valkow afirma que há riscos adicionais à saúde.

“Minha principal preocupação são os efeitos prejudiciais da maconha sobre o desenvolvimento cerebral”, explica. “O consumo na adolescência pode afetar o desempenho cognitivo, o humor e a motivação. A maconha também pode ter efeitos adversos em adultos. Se você consumir uma variedade com grande quantidade de THC, pode ter um surto psicótico”.

Quanto à legalização para o tratamento da dor, Valkow acredita que a ideia é precipitada.

“Temos que aprender com a história”, afirma. “Há muita empolgação em torno dos supostos benefícios da maconha, que seria uma panaceia para uma grande variedade de doenças. Mas ainda faltam pesquisas. A legalização da maconha para o alívio da dor exigiria testes clínicos aleatórios para avaliar quais concentrações de seus componentes são necessários para o controle ideal da dor. Quais seriam as doses? Ninguém ainda pesquisou isso”.

Fonte: Discovery Brasil