Com uma guerra declarada no Brasil, o combate às drogas mata mais “traficantes” que a Indonésia. O mesmo empenho que o governo teve ao tentar impedir a execução de dois brasileiros, poderia ser realizado em seu próprio país.

Assistimos ao empenho do governo brasileiro para impedir a execução das penas de morte de dois brasileiros na Indonésia. Esse mesmo empenho poderia ser realizado em seu próprio país. Ainda que com muitos apoios, sentimos que tais penas não foram bem aceitas aqui. Poderíamos aproveitar esse debate para abrir várias reflexões sobre o crime de tráfico. A pena de morte no Brasil só é permitida em caso de guerra declarada. Mas a guerra no Brasil também é declarada, seguindo a política internacional, chamada de guerra às drogas. Essa farsa, na realidade, é a guerra aos negros e pobres. Trata-se de um mercado de toneladas, transportadas em caminhões de carga, navios, aviões e helicópteros, gerando acumulações milionárias e bilionárias depositadas em bancos internacionais. Nenhum “traficante” preso no Rio de Janeiro possui qualquer um desses transportes nem contas milionárias em bancos internacionais. São negros, jovens e pobres que estão presos, nessa verdadeira guerra aos pobres.

Um mercado que vive da compra e venda de armas, colocando jovens, negros e pobres, fardados ou não, trocando tiros nos morros sem saneamento básico, onde brincam crianças, em valas sujas, entre porcos e ratos. Nesses guetos de onde saem as melhores músicas e onde estão situados os melhores picos da cidade, a troca de tiros ocorre ao ar livre, em qualquer horário, em plena luz do dia, perto de escolas com crianças em sala de aula e nos períodos de saída e chegada do trabalho. Vivemos num dos lugares do mundo onde mais morrem negros e jovens por tiro de arma de fogo. Tudo isso patrocinado pelo falso discurso de combate ao tráfico de drogas. Na cidade onde houve a maior população escrava do mundo, a melhor política de enfrentamento a esse genocídio praticado contra o povo negro é a legalização da produção, plantação, distribuição, compra e venda de todas as substâncias ilícitas. Esse mercado bilionário se retroalimenta exatamente da ilegalidade.

A redução da maioridade penal é tratada com hipocrisia. Quem não sabe que serão “presos” os adolescentes filhos de negros e pobres? A propaganda coloca adolescentes estuprando e matando para justificar essa redução, quando esses casos são a minoria. A maior parte dos adolescentes “presos” está lá por tráfico de drogas com pouca quantidade, sem dinheiro, desarmados, calçando chinelos.

Essa proposta para prender os filhos dos negros e pobres vem no mesmo contexto do pensamento da pena de morte, dentro dessa farsante guerra às drogas. Vamos debater essas absurdas execuções de morte de dois brasileiros por tráfico na Indonésia para resistir ao avanço dessas barbaridades punitivas aqui no Brasil.

A Marcha da Maconha é um momento libertário para denunciar o falso discurso de combate ao tráfico de drogas. Vamos tomar o Jardim de Alah, em Ipanema, às 4:20 da tarde, no dia 9 de maio de 2015, todas e todos à MARCHA DA MACONHA!

Ilustração de capa Latuff