Corporatização da maconha, mais motoristas chapados, riscos potenciais associados a alimentos com cannabis, fim do comércio ilegal e a ciência pós legalização, sãos questões que todos devem fazer sobre a regulação da erva, mesmo que seja a favor.

Com tantos argumentos contrários e favoráveis à tendência regulatória da maconha, nos EUA, o Brasil Post apresenta cinco respostas para perguntas que você deve fazer sobre a regulação da maconha.

O futuro da maconha legalizada nos EUA está se tornando menos nebuloso a cada dia que passa: os americanos continuam apoiando a legalização em números recordes, aparentemente não mais influenciados pelos mesmos argumentos enganosos que os inimigos das drogas usam há décadas em apoio a uma política de proibição fracassada. Com a erva legal agora vendida em lojas no Colorado e em breve no estado de Washington, outros pensam em aproveitar a onda de popularidade para reduzir os custos da repressão e obter receitas fiscais substanciais.

Mas só porque a turma antimaconha não apresenta um bom argumento contra a legalização da cannabis não significa que não haja questões válidas de se discutir. E, mais importante, só porque essas questões existem não quer dizer que sejam bons argumentos contra a legalização do fumo.

Abaixo, damos algumas respostas para essas perguntas. Esperamos que elas ajudem a promover um debate sobre a legalização que se estende além de “a maconha deve ser permitida, porque o barato não é grande coisa” e “a maconha deve ser ilegal porque ouvi falar que é perigosa e me recuso a acreditar em outra coisa”.

1. Com a expansão da maconha legalizada, a corporatização transformará a indústria da cannabis na “Tabaco 2.0”?
A maconha legalizada deverá em breve superar o crescimento da indústria de smartphones e alcançar dois bilhões de dólares em vendas em 2014, e ninguém deve se surpreender que as grandes corporações já estejam se preparando para capitalizar a corrida verde. Mas o que a evolução da “Grande Maconha” significará para a erva em si?

“Corporatização” é uma palavra assustadora, especialmente em círculos de amigos do fumo, em que a ideia de grandes negócios tende a invocar o medo da cobiça pelos lucros e da irresponsabilidade social. Esses efeitos colaterais comuns do capitalismo não combinam com a cultura que muitos associam à maconha, e talvez por isso até alguns círculos pró-legalização manifestaram ceticismo sobre a corporatização.

“A maioria das pessoas no movimento pró-maconha quer uma indústria progressista que apoie as pessoas nas comunidades e crie muitos empregos bem remunerados”, disse em uma entrevista à “Truthout” no ano passado o jornalista especializado em maconha David Bienenstock. “Mas há preocupação de que não é assim que a América corporativa tende a ver a livre empresa.”

Enquanto pessoas como Bienenstock parecem preocupadas que as corporações possam reivindicar parte do progresso feito pelos ativistas do fumo no sentido da legalização, muitos primeiros investidores na indústria da cannabis afirmam que as grandes empresas serão chaves para conduzir a erva a uma nova era de plena aceitação nacional. Mas alguns críticos também apontaram as famosas transgressões cometidas por pioneiros da erva como evidência de que a indústria já está sendo corrompida pelo dinheiro.

As preocupações que cercam a corporatização vêm dos dois lados, afinal. Enquanto os defensores da maconha temem principalmente como as forças do capitalismo vão moldar a Grande Maconha, os adversários como Smart Approaches to Marijuana (Abordagens Inteligentes à Maconha) alegam que a indústria vai incorporar as piores práticas da Grande Tabaco ao se tornar maior e mais lucrativa.

Mas os ativistas pró-maconha alegam que é ridículo sugerir que as empresas da erva vão empregar estratégias de publicidade para jovens hoje proibidas, como a do “Joe Camel”, ou usar substâncias químicas perigosas para adulterar seus produtos, em parte porque essas práticas já provocaram uma reação federal.

“Comparar a comunidade empresarial da maconha com a ‘Grande Tabaco’ é como comparar os agricultores de legumes orgânicos ao McDonald’s e à Coca Cola”, disse Mason Tvert, do Marijuana Policy Project (Projeto de Políticas para a Maconha).

“Quando as pessoas pensam na Grande Tabaco, pensam em uma indústria que adiciona produtos químicos a seus produtos e usava histórias em quadrinhos em grandes campanhas de publicidade. A indústria da cannabis está sendo estabelecida com regulamentos rígidos que proíbem acrescentar substâncias ao produto e restringem significativamente a publicidade. Os proibicionistas da maconha recorreram a evocar a Grande Tabaco porque basicamente não têm outros argumentos interessantes.”

Tvert afirmou que, assim como em muitas indústrias de consumo como a de bebidas alcoólicas, as pessoas que compram o produto terão o papel mais essencial em moldar a Grande Maconha. Serão elas quem escolherá que empresas apoiar e que práticas empresariais incentivar. É claro que os consumidores serão responsabilizados por saber o que estão comprando e o que estão apoiando.

2. Depois da legalização, haverá mais motoristas “chapados” na estrada? Temos ferramentas adequadas para impedir que isso aconteça?
Com as leis antimaconha sendo atenuadas em diversos estados americanos, há temores legítimos de que motoristas chapados provoquem o aumento dos acidentes de trânsito. Fumar a erva pode tornar mais difícil concentrar-se e manter a atenção no trânsito, e pode reduzir a coordenação, segundo a Administração Nacional de Segurança no Transporte Rodoviário.

Mas os instrumentos que os policiais usam para detectar se as pessoas estão dirigindo sob a influência do fumo às vezes são inadequados. Enquanto alguns motoristas que fumaram conseguem passar nas avaliações de sobriedade em campo, exames de sangue e urina, por outro lado, produziram resultados positivos semanas e até meses depois de uma pessoa ter fumado maconha. Alguns órgãos policiais mais perspicazes começam a usar testes de saliva e analisadores de hálito, que são melhores para detectar há quanto tempo alguém consumiu a droga. Mas todas essas ferramentas têm o mesmo problema, segundo especialistas: só identificam a presença da droga, não se ela realmente prejudicou a capacidade do motorista de conduzir um veículo.

Mesmo em Colorado e em Washington, cujas leis de trânsito são das mais liberais dos Estados Unidos (nos dois estados é possível dirigir legalmente com até 5 nanogramas de THC na corrente sanguínea), há questões sérias. De um lado, o limite de 5 nanogramas criminaliza injustamente muitos usuários de cannabis medicinal cumpridores da lei, que geralmente têm níveis mais altos de THC no sangue que o normal. Esses usuários têm maior tolerância à maconha e podem ser presos só por dirigir até o supermercado, mesmo que não estejam incapacitados. Por outro lado, o limite de 5 nanogramas ainda permite que algumas pessoas dirijam com o desempenho comprometido. Isso porque cada pessoa metaboliza a erva de modo diferente, e um fumante inexperiente pode ficar chapado demais para dirigir com apenas 3 ou 4 nanogramas de THC no sangue.
Até que se encontre uma maneira mais confiável de detectar os motoristas incapacitados, os estados que legalizarem o fumo provavelmente enfrentarão o mesmo dilema.

3. E os riscos potenciais associados a alimentos com cannabis, altamente potentes?
Conforme cresce a aceitação da maconha, produtos alternativos com a erva, incluindo os comestíveis, que têm alta concentração de THC, continuarão ganhando popularidade. Os adversários da maconha legal manifestaram preocupações de que isso cause mais incidentes de ingestão acidental ou excessiva, especialmente entre crianças. Estudos sugeriram que houve um aumento nas consultas a hospitais relacionadas à maconha, mas os defensores e os adversários da maconha legal divergem sobre a seriedade dessa tendência.

Quando se trata de crianças, os defensores da cannabis dizem que, assim como com outras substâncias, os pais devem ser responsáveis por mantê-la longe dos filhos, explicando quais biscoitos são para eles e quais são para os pais. Não que as lojas estejam dificultando isso — o Colorado liderou na rotulação, embalagem e padrões de segurança para alimentos que contêm maconha, para eliminar possíveis confusões e garantir a qualidade. Isso significa que não haverá marketing para tornar os produtos atraentes para as crianças.

Os defensores da maconha também notam que a gravidade e a frequência das visitas a hospitais relacionadas à erva ainda são poucas em comparação com as provocadas por outras substâncias, incluindo as amplamente aceitas como o álcool. Uma pesquisa de The New York Times em um hospital do Colorado descobriu que no mesmo período de tempo ele havia tratado 14 crianças que tinham consumido maconha, “48 crianças que tinham ingerido acetaminofeno (paracetamol) e 32 que haviam tomado acidentalmente anti-histamínicos”. Além disso, enquanto as overdoses de muitas outras substâncias legais e ilegais podem causar a morte, um indivíduo teria de consumir 20 mil a 40 mil vezes a quantidade de THC de um cigarro de cannabis para correr o risco de morrer.

É claro que crianças pequenas que comem acidentalmente biscoitos de maconha não são as únicas que vão ficar chapadas demais. Com a cannabis hoje legalizada no Colorado, teria sentido ver um número maior de pessoas procurarem hospitais por terem consumido a erva em excesso, já que antes elas teriam medo de admitir o uso da droga ilegal. Vale a pena mencionar que não há muita coisa que um hospital possa fazer por esses pacientes, além de supervisioná-los e conversar com eles durante a experiência desconfortável. Os defensores da maconha salientaram que os adultos devem avaliar cuidadosamente sua própria tolerância antes de comer um produto com alto nível de THC, alguns dos quais podem conter até dez vezes a quantidade ingerida por um usuário casual.

4. As leis da maconha legalizada realmente serão capazes de eliminar o comércio ilegal da droga?
Quando o Colorado legalizou o comércio de maconha, no início deste ano, os defensores da lei estavam confiantes de que as vendas gradualmente eliminariam a maconha ilegal, conforme a concorrência fizesse baixar os preços nas lojas de todo o estado. Mas o que muitos notaram primeiramente foi o alto preço da erva legalizada, inflado em parte pela alta demanda, a oferta limitada e uma série de impostos — incluindo um imposto de 15% sobre a venda no atacado e 10% no varejo — sobre as transações de maconha, além dos outros impostos estaduais e municipais já aplicáveis. Nos primeiros dois meses de vendas legais, reportagens citaram maconha vendida por até 400 dólares uma quantidade de 28,7 gramas nas lojas, o dobro do valor praticado nos dispensários de maconha para uso medicinal e até 250 dólares a mais que o preço no mercado paralelo. Tudo isso levou a números de receitas impressionantes, mas também chocou alguns usuários da erva.

As vendas livres de impostos são apenas uma das vantagens econômicas competitivas que beneficiam os atuais vendedores de maconha ilegal. Em troca de assumir o risco de sérias acusações criminais por cultivar, traficar e não operar como uma empresa legítima, os vendedores no mercado negro têm uma margem de lucro muito maior sem aluguel, supervisão oficial, licença ou taxas de inscrição, custos para se adequar às leis existentes, embalagem e etiquetagem e, talvez o mais importante, um produto que é atualmente mais barato.

Reforçando o ceticismo sobre a capacidade de a maconha legal conquistar o mercado negro há o fato de que muitas pessoas têm uma desconfiança natural e compreensível de deixar um rastro de papel em sua busca por maconha. No passado, o governo federal puniu os pacientes da maconha medicinal ao revogar seus benefícios federais, e muitos simplesmente não ficam tranquilos ao burlar abertamente a lei federal. Comprar de fornecedores confiáveis, embora ilícitos, talvez continue sendo a opção preferida de algumas pessoas, pelo menos por enquanto.

Mas os ativistas pró-fumo continuam confiantes em que o jogo está a favor da maconha legal, apesar do fato de ainda não competir totalmente em preço com o produto no mercado paralelo. Tvert disse ao HuffPost que a crescente aceitação e a conveniência de ter uma fonte totalmente legal e confiável de maconha atrairão novos clientes, fazendo baixar o preço e convertendo os que hoje obtêm seu fumo por outras fontes.

“O comportamento do consumidor é dirigido por conveniência, qualidade, variedade e preço”, disse Tvert. “Os preços já estão caindo, e certamente será mais fácil acessar uma ampla variedade de maconha de melhor qualidade em uma loja legal do que no mercado subterrâneo. Não vai demorar muito para que o mercado ilegal de maconha sofra a mesma experiência que o mercado paralelo de bebidas alcoólicas.”

5. A legislação pró-maconha vai superar a ciência?
Por mais que os defensores da legalização da erva não gostem de admitir, diversos estudos sugerem que a cannabis pode ter efeitos negativos sobre os usuários.

Em primeiro lugar, há riscos óbvios decorrentes de fumar a erva. A fumaça da cannabis contém milhares de substâncias químicas, incluindo mais de 50 cancerígenas conhecidas, e há estudos que ligaram a maconha a certos tipos de câncer. No entanto, outros estudos mostraram que a maconha realmente combate certos cânceres, e outros ainda não revelam qualquer ligação. Como você pode imaginar, isso dificulta abordar a legalização da maconha do ponto de vista de uma política de saúde.

Em segundo lugar, o uso frequente da cannabis pode prejudicar a formação da memória e aumentar o risco de esquizofrenia e outros transtornos psicóticos entre usuários que têm propensão a essas condições. E, ao contrário da crença popular, a maconha causa dependência para uma parcela considerável dos usuários — até 10%, segundo especialistas. (O tabaco, porém, tem um índice de dependência cerca de três vezes maior.)

Os fumantes mais jovens cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento mostraram-se especialmente suscetíveis a um consumo intenso. Estudos mostraram que fumar maconha pode causar uma queda em longo prazo do Quociente de Inteligência e depressão duradoura entre adolescentes. Enquanto a maconha legal, como o álcool, provavelmente será proibida para menores de 21 anos, é plausível que a legalização da droga a torne mais disponível para jovens que hoje se abstêm devido ao medo de problemas com a lei.

A proibição federal à maconha evitou muitas pesquisas sobre os efeitos da droga, por isso poderão surgir mais evidências de efeitos nocivos ainda desconhecidos. É claro que mais pesquisas também poderão mostrar novos benefícios da cannabis no tratamento de outras doenças e oferecer maior clareza sobre a ligação entre o uso de maconha e os efeitos em longo prazo citados em outros estudos. De qualquer modo, parece irracional que os guerreiros da droga insistam em condená-la a priori. Não apenas eles manipulam os resultados de certos estudos para sustentar sua agenda, como fazem campanha por uma política continuada de proibição à maconha, impedindo novas pesquisas que poderiam ajudar em uma política de legalização inteligente.

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