A governadora Roseana Sarney acredita que o Maranhão está mais rico e que isso justificaria as últimas 60 mortes em um presídio de seu estado. Portanto, segundo a governadora, riqueza e violência seriam duas grandezas diretamente proporcionais numa matemática muito louca que também explicaria a razão entre sua impotência perante o atentado a ônibus que vitimou a Ana Clara, de 06 anos, e a licitação de 80 kg de lagosta. Quanto mais violência, mais lagosta à mesa.

Em 2010, jornais já anunciavam que as decapitações estavam se tornando rotina entre as gangues do México. Elas começaram em 2006 quando um grupo armado despejou 05 cabeças de um saco plástico de lixo sobre os azulejos brancos da pista de dança da discoteca Sol y Sombra, em Uruapan. O crime chocou o país e evocou imagens do terrorismo islâmico. Jorge Chabat, um especialista de justiça criminal da Cidade do México, disse à época que os traficantes estavam copiando os métodos da Al Qaeda.

Os barões do tráfico viram vídeos na internet de decapitações de reféns capturados por extremistas no Iraque e Paquistão e adotaram a tática para si mesmos, seguida pela postagem dos vídeos na internet. Era parte de um plano de usar a imprensa para o controle de território através do terror. Os veículos de comunicação de massa no México precisaram diminuir a visibilidade das decapitações e limitar a publicidade que os cartéis estavam recebendo. O vídeo da decapitação de uma mulher se transformou em um viral no Facebook no final do ano passado, o que de certa forma antecipou as imagens que vimos agora diretamente do nordeste.

O debate sobre a descriminalização das drogas e a regulação da maconha no Brasil tem sido na maior parte das vezes desmerecido, quando é posto sob o prisma do uso recreativo que caricatura a luta de milhares de jovens pela disruptura e o fim da violência gerada por mais de 40 anos de intensa proibição. Governadores no Brasil poderiam começar a se perguntar se o mercado negro não regulado da maconha, que foi criado por esta proibição, é realmente mais seguro do que o mercado extremamente regulado do vizinho Uruguai, por exemplo. As contas da segurança pública de seus estados começariam a se acertar.

A violência da Guerra às Drogas persiste sem uma grande oposição política no Brasil porque esta guerra foi e tem sido vendida até hoje para a sociedade brasileira como uma necessidade de segurança pública, e não uma questão de saúde pública. Pesquisas de opinião nos EUA, o maior mercado das drogas oriundas do México, têm demonstrado que a maioria dos americanos já considera a maconha menos perigosa que o álcool e apoia a legalização por todo o país. Há previsões de que Rhode Island, Alaska e Oregon sejam os próximos três estados a regular o uso recreativo da maconha em junho, agosto e novembro deste ano, respectivamente.

Se o Brasil continua considerando mais efetiva a atual política de encarceramento em massa, a violação de Direitos Humanos, a apologia à violência e a indústria do álcool como pilares de sua cultura, política e economia, que pelo menos reconheça as iniquidades impostas por este sistema. Acabamos de ver imagens gravadas de um celular de dentro de uma cadeia brasileira.

Nada muito diferente do que vimos do México. O proibicionismo no Brasil ganha mais um capítulo e a sociedade mais uma oportunidade para mudar os termos desse debate, mesmo em uma questão que até então parecia absolutamente intocável.

Texto por André Kiepper, 32, é Analista de Gestão em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz
Ilustração Latuff para o Jornal Via de Fatos

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