Em uma das avenidas mais movimentadas de Vancouver, no Canadá, uma placa de 2 x 2 m chama a atenção –impossível não ver uma folha de maconha desenhada em verde e vermelho e o nome Weed (“erva”, um dos termos para designar a droga em inglês).

Andando pelo centro da cidade, um dos destinos preferidos de estudantes brasileiros no exterior, nota-se que as lojas que vendem a droga fazem parte da paisagem, em meio a bancos e restaurantes.

Os lugares que comercializam a erva, no entanto, são ilegais em todo o país.

O Canadá só permite o uso medicinal da maconha, em casos de doenças como esclerose múltipla ou câncer –após diagnóstico feito por médico, o paciente interessado tem de enviar a documentação para o governo, que avaliará se o cidadão é apto.

Caso a concessão seja aprovada, o paciente recebe em dez semanas documento que autoriza compra, consumo e porte da erva. Além disso, pode escolher se prefere produzir ou ceder sua licença de produtor a outra pessoa.

Segundo o último levantamento feito pela autoridade de saúde do país, no começo de 2013, o Canadá tem cerca de 28 mil pessoas com a autorização legal do governo para consumir a droga –alta de 40% em apenas 12 meses.

A lei fica bem distante da real situação do comércio de maconha. Na prática, o uso é permitido por autoridades e bem aceito pela sociedade.

Em qualquer parque da cidade, é possível ver pessoas sozinhas ou em pequenos grupos usando a droga, com cigarros ou vaporizadores. À noite, policiais circulam pelos bares para conferir se há consumo de álcool nas ruas –proibido no país–, mas fazem vista grossa a baseados.

A DUAS RUAS DA POLÍCIA

Apesar de ser possível encontrar uma das lojas ilegais a duas ruas de uma das delegacias da cidade, o Departamento de Polícia de Vancouver diz que continua a fazer valer o Código Penal e que só se pode obter a droga com a autorização do governo.

“A venda de maconha em uma frente de loja ou outro local de varejo continua a ser ilegal”, diz a polícia em nota.

Dentro de uma das lojas ilegais, são expostos cerca de 40 tipos de maconha em um grande balcão. Para cada um deles, a promessa é de uma sensação diferente após o consumo. Há sugestões de quantidade e modo de usar.

O preço vai de 3 a 14 dólares canadenses o grama (de R$ 6,50 a R$ 30,50). Além disso, são oferecidos cookies e brownies à base de THC, o princípio ativo da droga.

Na grande maioria das lojas, exige-se apenas documento assinado por algum profissional da saúde. Para isso, não é preciso ser cidadão do país –basta que o consumidor mostre algum documento de identidade, como passaporte, que comprove a maioridade de 19 anos.

As lojas chegam a marcar consultas coletivas com médicos. Algumas oferecem “licença” para compra e uso por 30 dias, com a promessa de que o usuário irá procurar regulamentar a situação. Nessas lojas, é possível adquirir e usar a droga com a garantia do vendedor de que nenhum policial irá incomodá-lo.

“Tenho um cartão de uma das lojas. Eu simplesmente preenchi o pedido, escrevi a minha razão, eles imprimiram meu cartão e eu fui embora”, conta Justin Gilmane, 24 anos, que usa a droga para diminuir sua insônia.

Para Gilmane, não há grande diferença entre comprar numa loja e de um traficante. “[Encontrar-se com um traficante] nunca foi um problema. É apenas mais agradável poder comprar em uma loja que parece legal”, diz.

‘QUALIDADE MELHOR’

O Amsterdam Café, no centro de Vancouver, é um dos locais que permitem o consumo de maconha. Apesar de não vendê-la, o lugar –também ilegal perante as leis canadenses– aluga vaporizadores por 5 dólares canadenses a hora (cerca de R$ 12).

Apesar de ser um café, a comida fica em segundo plano. Grupos de todas as idades usam a droga numa grande mesa no andar principal. Nas paredes, souvenires como camisetas e bonés do local –que lota nos fins de semana à noite, com filas para entrar.

Segundo o brasileiro Maurício Silva, 23, que estuda inglês em Vancouver e mora na cidade há cerca de seis meses, o café é um bom local para o uso, pois se pode consumir num lugar aquecido em pleno inverno canadense.

O estudante também tem cartão de uma loja de maconha. “Apresentei um documento em inglês do meu médico no Brasil, dizendo que eu tinha dores no ombro. Eles me deram o cartão na hora. Posso comprar numa loja onde eles tratam o produto realmente como remédio, e a qualidade é muito melhor que a encontrada no Brasil”, diz.

Para Silva, a permissão para comprar a droga em lojas ajudaria a combater o tráfico. “Nem sabia que as lojas eram ilegais. Mas é ótimo ter eliminado contato com traficantes. Vou ao local, entro sem medo, compro e sei que não estou financiando o dono de alguma ‘boca'”, conclui.

A partir de 31 de março, o Canadá vai acabar com o cultivo doméstico por produtores com licença legal –a produção será trocada pela cannabis cultivada em grandes plantios, por empresas. Para o consumo, a lei não muda.

Via Folha de S. Paulo