Por Mandacá

ceia candelária
Calçada da Igreja da Candelária, palco do massacre de 1993

As calçadas da Candelária no dia 23 foi o cenário de algo infelizmente ainda inusitado. Um grupo de aproximadamente 30 pessoas composto basicamente de membros da marcha da maconha distribuíam aos pedintes desprovidos de residência uma “cesta” de natal composta de uma fruta, macarrão instantâneo, biscoito, guaraná e mais alguns itens como enlatados de sardinha ou salsicha. Isso mesmo, este ano teve até opção o que talvez confirme que ninguém entende tanto de fome como eles, os maconheiros. Talvez daí a origem deste, antes de mais nada, ato de SOLIDARIEDADE que já funciona no fim de ano no Rio como uma espécie de dia de fumAção de graças, porque nem com as câmeras da CET Rio em cima, nem a viatura azul estacionada do outro lado da avenida e nem a presença dos Guardas rodando a pé impediu que subisse aquela forte maresia de respeito ao próximo, força, fé e esperança na legalização da maconha no Brasil que talvez seja a maior “bandeira” dessa galera. O entendimento da legalização da maconha como uma causa positiva para TODA a sociedade parece ser a essência da ação que provoca um enfrentamento ideológico gerado na questão do “usuário ajudando usuário”! O que os difere? São temas transdisciplinares envolvidos neste processo de discussão onde controvérsia é sempre ingrediente da receita que levará progressivamente a um avanço no processo de redimensionamento da maconha na questão de drogas como um todo.

Além das cestas que trazem produtos de fácil preparo (a ação objetiva atingir um perfil de morador das ruas que não teria em tese utensílios de cozinha) este ano uma grande quantidade de roupas, sapatos e brinquedos foi recolhida e as presenças ilustres chegando para deixar seus donativos (como a do diretor do documentário “cortina de fumaça”, Rodrigo Mac Niven) reforçam que manter este tipo de ação é uma espécie de compromisso com o próximo, seja ele quem for.

Pensar na saúde tem sido uma identidade quase pessoal dos SmokeBud – Rio, sempre atuantes na linha de frente da ceia dos excluídos. Depois de no primeiro ano inserirem os itens de higiene(escova pasta e sabonete) no “cardápio”, na cesta deste ano tiveram mais uma excelente ideia a ser repetida em todas as edições: camisinhas! É maluco… o SmokeBud estão de olho sempre aberto para as mazelas sociais.

André Barros é um veterano da “ceia” e mais uma vez foi presença firme este ano e exteriorizava a um pequeno grupo sua simpatia pelos princípios da pequena “Igreja do reino de Jah” porque envolve direitos constitucionais de todo cidadão onde mesmo os que não são devotos devem se manter atentos a todo o tipo de preconceito de origem religiosa. Moxquito, (vencedor do concurso do melhor capitão presença), Forester, Ale Devecchi, Horta Urbana, Advogados do Growroom, o vereador Renato Cinco, Antonio do MLM / Planta na Mente, Vj Polvo e mais uma galera fecharam a noite que adentrava com o “amigrow oculto” entre os coletivos, amigos e marcas onde a ponta do dedo amarela do Tomazine(representando o hempadão) me apontou como sorteado e eu tirei o Mofs, membro do GR e finalista da copa da maconha do Rio passada. Fiquei felizaço!

Para finalizar a distribuição das quase 350 cestas dois carros se dirigiram a cracolândia atrás da central do Brasil onde o cenário não preciso nem dizer… todos sabem como é…

A ceia dos excluídos propõe que a sociedade, antes mesmo de OUVIR o que dizem, VEJA o que fazem pois o exemplo é sem dúvida alguma o melhor caminho a seguir em embates na esfera da política e por incrível que pareça, o lance mais doido da “marcha da maconha” é que ela é uma das “marchas da liberdade” que não pede liberdade, pede controle: CONTROLE! REGULAMENTAÇÃO! Porque é a proibição e sua consequente falta de controle sobre o que as pessoas consomem que obriga a sociedade a conviver somente com as mazelas produzidas pelo consumo de drogas enquanto o mundo já nos acena que existe um novo caminho onde a questão não é de força, é de direção!

*Mandacaru – Haze Brasil / Pot in Rio

Confira abaixo algumas imagens da ação realizada no Rio de Janeiro

Fotos por João Victor Portugal / Paulo Ricardo