Muitas propriedades da Cannabis sativa ainda são mistério para a comunidade científica, que se divide em opiniões controversas “Maconha enlouquece”, afirmaram pais e avós de diferentes gerações. “Uma erva natural não pode te prejudicar”, diz a música “Legalize Já”, da banda Planet Hemp. No debate sobre a maconha, frases como essas, carregadas de ideologias e com pouco fundamento científico, são veiculadas e assimiladas com facilidade pelo senso comum. Não é para menos. Tanto de um lado como do outro, falar sobre drogas ainda é um tabu que dificulta o acesso a informações confiáveis. Em meio às controvérsias, a maconha é a droga mais escolhida como teste para que muitos países comecem a mudar sua política de drogas. Em julho, a Câmara dos Deputados do Uruguai aprovou um projeto de lei que legaliza e regulamenta o comércio e o uso dessa droga. Se aprovado pelo Senado, o país sul-americano será o primeiro do mundo onde o Estado controla toda a cadeia produtiva da Cannabis para uso recreativo. Como essa, medidas de flexibilização da política proibicionista já acontecem de diferentes formas na Holanda, Espanha e alguns estados norte-americanos.

Enquanto, desde 1994, o movimento Marcha da Maconha leva milhares de pessoas às ruas em diversos países do mundo pedindo a sua legalização, a Cannabis sativa (nome científico da planta) continua sendo objeto de inúmeras pesquisas na área da saúde. A partir da década de 90, pesquisadores começaram a intensificar a produção científica com o objetivo de elucidar e desmitificar as propriedades desta substância milenar. Entre 1985 e 1989, o número de estudos publicados sobre o tema foi de 515. Esta quantidade mais que quintuplicou entre os anos de 2000 e 2004, de acordo com o Almanaque das Drogas: um guia informal para o debate racional, de Tarso Araujo. Em 1972, o levantamento “Maconha: um sinal de equívoco” concluiu que muitas informações veiculadas até então sobre os perigos da erva não passavam de mito. A Cannabis é considerada uma droga “leve” por causar menos danos ao usuário quando comparada à cocaína ou à heroína. Ao contrário dessas duas, não há casos conhecidos de overdose de maconha.

Ela também é a mais popular e aceita socialmente dentre as drogas ilícitas mais consumidas no mundo. Segundo João Ricardo Menezes, neurocientista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma escala racional e objetiva, que leva em conta os danos de cada droga abusada sob vários aspectos da vida humana, já existe e permite uma análise comparativa entre as diferentes substâncias. “Nesta escala, a maconha foi classificada como uma droga bem menos danosa que o álcool, tabaco e mais nove drogas”, destacou João Menezes. Muitos especialistas, entretanto, contestam as classificações que atribuem “pesos” diferenciados às drogas. Para Ronaldo Laranjeira, professor titular de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o que caracteriza a droga como leve ou pesada é a concentração, e não a substância em si. “Na própria Holanda, o skunk, que é a maconha com teor de THC superior a 15%, é considerada uma droga pesada e é proibida nos coffee shops”, considerou Laranjeira, fazendo menção ao tetraidrocanabinol (THC), o mais importante princípio ativo da erva.

Dependência – De acordo com o 2º Levantamento de Álcool e Drogas (Lenad) realizado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas (Inpad), 37% dos usuários de maconha são dependentes. Segundo o Almanaque das Drogas, 10% das pessoas que experimentam a droga se tornam dependentes, mas a maioria dos usuários crônicos acaba interrompendo ou diminuindo o uso antes dos 30 anos. João Menezes explicou que os sintomas de abstinência da maconha, um dos aspectos da dependência, são basicamente psíquicos, como irritação, agitação, ansiedade, anedonia (perda da capacidade de sentir prazer) e insônia, equiparando-se em parte ao tabaco. “Comparada às outras drogas, em relação à dependência potencial, a maconha é bem menos problemática. Uma minoria tem quadros mais graves e merece tratamento. Contudo, para a maior parte dos usuários, os sintomas de dependência não se apresentam como um problema e equivale ao quadro de usuários de café”, reiterou.

Memória e aprendizado – Em um estudo neozelandês de 2012, adultos que se tornaram dependentes de maconha antes dos 18 anos apresentaram piores resultados em testes de memória e inteligência do que não usuários. Da mesma forma, um levantamento realizado na Unifesp em 2010 com 173 usuários crônicos mostraram déficits no armazenamento de informações e na evocação da memória, que persistiram após um tempo médio de 14 dias de abstinência.

Doenças psiquiátricas – “A principal mudança comportamental nos adolescentes que começam a usar maconha é a psicose. Estudos mostram que 10% ficam com algum sintoma do tipo, além de apatia e desinteresse”, afirmou Ronaldo Laranjeira. Segundo o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), há provas científicas de que, se o usuário tem uma doença psíquica ainda sob controle, a maconha pode piorar o quadro, anulando o efeito de um medicamento ou sendo o estopim para a manifestação da doença. O resultado de uma pesquisa feita na Clínica Universitária Psiquiátrica de Zurique, baseada em dados coletados por 30 anos, mostrou que o consumo da Cannabis pode favorecer o aparecimento dos sintomas da esquizofrenia em pacientes com pré-disposição genética para o problema. “Neste caso, o risco de dobra nos usuários precoces, vai de 1% para 2% de incidência entre as pessoas que a utilizam”, alega João Menezes.

Uso Medicinal – Canadá, Austrália, Espanha, Israel, Reino Unido e 19 estados norte-americanos são alguns locais onde é legalizado o uso da maconha para fins medicinais. Depois de inúmeras pesquisas científicas, os efeitos terapêuticos da erva foram comprovados para alguns quadros patológicos. É o caso de pacientes com Aids, câncer, esclerose múltipla e mal de Alzheimer. A Cannabis sativa não é capaz de curar nenhuma dessas graves doenças, mas seus princípios aliviariam alguns incômodos decisivos para a qualidade de vida do enfermo. No caso da Aids, o efeito mais importante é o aumento do apetite, já que muitos pacientes costumam sofrer com a desnutrição. O THC também ajuda a superar crises de náusea e vômitos provocadas pela quimioterapia, tratamento de controle do câncer. Para tanto, em 1985, os Estados Unidos começaram a comercializar um medicamento em cápsulas à base de THC sintético: o Marinol. O primeiro remédio fabricado a partir do extrato da própria planta, aprovado e disponível desde 2005, é o canadense Sativex.

Encontrado na forma de spray bucal, é indicado para o tratamento de esclerose múltipla, reduzindo os espasmos musculares causados pela doença. O psiquiatra Ronaldo Laranjeira questiona a relação custo-benefício no uso medicinal da droga. “Pode ser que algum componente, dos mais de 400 tóxicos presentes na fumaça, tenha um efeito terapêutico. Mas ainda não existem evidências”, rebateu. “Como todos os medicamentos, a maconha tem efeitos tóxicos.

Não existe nenhum remédio que a bula diga ‘não provoca nenhum tipo de problema'”, considerou o psicofarmacologista Elisaldo Carlini, um dos maiores defensores da legalização da droga para fins medicinais no Brasil. “Quando estudamos a história da maconha, é fácil ver que na proibição de seu uso médico não há nada de científico, e sim de ideológico”, declarou à revista Pesquisa Fapesp. Apesar de todo o avanço, muitas propriedades da Cannabis sativa ainda são um mistério para a comunidade científica.

Por Paloma Barreto Jornal da Ciência,
Via Uniad

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