Rogério Jordão¹ entrevista cineasta que conta o que houve no verão em que 15 mil latas de cannabis chegaram boiando ao litoral carioca e paulista. As informações são do Yahoo!

A história é surreal mas aconteceu em 1987. Um navio pesqueiro carregado com 22 toneladas de maconha embalada em latas saiu da Tailândia a caminho do Brasil, onde a carga seria armazenada para posterior transporte aos EUA, e despejou todo o seu conteúdo no mar do litoral de Ilha Grande (RJ), depois de avistar um navio da marinha brasileira. Começava assim o “Verão da Lata”, também o título de documentário dirigido por Haná Vaisman e Tocha Alves, recém lançado pelo History Channel. Naquele verão inusitado, 15 mil latas de cannabis chegaram boiando numa faixa de litoral que estendeu-se de Ubatuba/Guarujá até as praias urbanas do Rio..

A história é tão boa (e o documentário também) que resolvi fazer uma entrevista por e-mail com Haná, também a roteirista do filme. Ela diz que a produção do documentário levou mais de dois anos e contou com contatos no facebook para localizar informações e entrevistados. Com uma hora de duração, o filme traz depoimentos de diversas pessoas que viveram o período, como a cantora Fernanda Abreu, a cineasta Marina Person, o escritor Eduardo Simantob, entre outros. Haná tem uma boa conversa e escreve muito bem. Vale acompanhar:

Rogério — Oi Haná, acho que a primeira pergunta é óbvia: o que te fez correr atrás de uma história como esta, ocorrida há mais de vinte anos?

Haná — Penso nesse evento há muitos anos, desde meados dos anos 90. Achava a história engraçada e um pouco exemplar de algumas questões que têm a ver com o Brasil. Como o fato do nosso litoral ser tão aberto e tão extenso, facilitando o desembarque dos colonizadores – e de contrabandistas – de todo tipo; de estarmos um pouco distantes e ao largo do restante do mundo, mas sermos invariavelmente tocados por ele. Eu também gostava do fato das latas terem exposto e banalizado um pouco o consumo da maconha, ainda vista com muito preconceito nos anos 80.

Rogério — Um navio pesqueiro carregado de latas de maconha para o mercado americano sai da Tailândia já monitorado pelo DEA (Drug Enforcement Administration) e perto da costa brasileira, em Ilha Grande, acaba jogando tudo ao mar depois que seus tripulantes avistaram um navio de guerra brasileiro. Parece um roteiro pronto de filme.

Haná — Parecia uma história real com jeito de ficção, e isso sempre é atraente. As gerações mais novas duvidam que isso tenha acontecido, e eu não queria que virasse uma lenda urbana, como se tivesse sido criada por maconheiros. Mas o que me intrigava mais era toda a questão policial  do tráfico de drogas, os recursos e estratégias que os traficantes usam, e porque teriam colocado o Brasil numa rota tão inusitada. Essa maconha era pros americanos. Eles estavam consumindo a maconha tailandesa há anos… Eu já tinha uma pesquisa com todos os artigos de jornal que haviam saído na época e não havia uma investigação consistente até as origens do tráfico. Virou uma ideia fixa, investigar e desvendar essa história para mim e para o público. Quando soube que uma produtora em São Paulo estava inscrita num pitching do History Channel com esse tema, entrei em contato com eles – o diretor Tocha Alves e o fotógrafo Ricardo Ortiz – e falei: “eu sei tudo dessa história, vamos fazer isso juntos”.  E deu certo, mesmo com todos os percalços que tivemos.

Verão da Lata: Assista na íntegra a história que popularizou a maconha no Brasil

Rogério – O documentário tem uma pesquisa muito bem feita: documentos de época, material de TV, de imprensa e dezenas de entrevistas, inclusive nos Estados Unidos. Você pode contar um pouco dos bastidores deste trabalho?

Haná — Acredito que encontramos uns 98% do material relacionado ao Verão da Lata. Infelizmente muitas coisas não entraram no documentário, seja pelo custo das imagens de arquivo, seja por dificuldade de obter liberação legal para seu uso. O History Channel é muito rigoroso com essa documentação, e não conseguimos localizar os autores ou detentores de direitos de muitas coisas – como do Jornal Casseta Popular ou do Pasquim, que fizeram muitas piadas com a lata, ou de um videoclip incrível do Fausto Fawcett e da Fernanda Abreu, que é quase uma premonição do verão da lata, entre outras relíquias. Ganhamos um pitching do History Channel em 2010 e recebemos 20 mil dólares  para pesquisa e desenvolvimento, e ficamos entre 8 e 12 meses pesquisando para produzir um roteiro.

Rogério – Como foi o trabalho de campo?

Haná — Tivemos uma pesquisadora em São Paulo, que viajou a Ubatuba, São Sebastião e Ilhabela atrás de histórias e personagens. Contamos também com uma pesquisadora no Rio, que levantou o processo do Stephen Skelton, que foi condenado pelo tráfico e fez uma entrevista preliminar com os delegados da época. Eu li o processo inteiro e fui pessoalmente conversar com o Dr. Wanderley Rebello Filho, o advogado que conseguiu libertar o Skelton em segunda instância – recurso que nem existe mais hoje. Estivemos na Marinha no Rio, para obter uma cópia do diário de bordo do Solana Star ( que eu pulava de alegria quando obtive) e do processo aberto pela Marinha ( pois eles alegaram falhas mecânicas para entrar em águas brasileiras, que não foram comprovadas), visitamos arquivos de todos os jornais e revistas, e ainda contamos com a pesquisadora de imagens Eloá Chouzal, que foi atrás dos arquivos de TV e pessoais para completar o material.  Mas o que mais queríamos era ter o depoimento do próprio Skelton.

Rogério – Dos vários tripulantes que estavam a bordo, apenas o cozinheiro, Stephen Skelton, foi preso nos anos 1980, tendo o resto da tripulação escapado sem maiores problemas para os Estados Unidos. Como foi o contato com esse personagem?

Haná — Conseguimos o email dele e trocamos mensagens surreais, porque ele ainda se comporta como uma espécie de personagem, ou criminoso, falando de forma meio cifrada, nunca respondendo diretamente as perguntas. Mas ele queria uma oferta substancial em dinheiro para dar o seu depoimento e nós não tínhamos condições de pagar.  Quando já tínhamos gravado as entrevistas no Brasil, a Eloá encontrou um artigo em um jornal do Colorado, que mencionava a prisão do Bradley Grover, o chefe da operação. A notícia não citava o verão da lata (pois a polícia americana sequer soube desse ocorrido). Então eu comecei a consultar um site americano de processos, chamado Pacer ( public access to electronic records), e encontrei o processo de quase todos os tripulantes do Solana Star, e principalmente, o do Bradley Grover. Tínhamos um assistente de produção, o Felipe Lessi, que foi fundamental para localizar as pessoas, seu telefone e endereço. Ele se revelou um verdadeiro detetive de internet. Não é tão simples assim encontrar pessoas a partir de um nome, um endereço antigo… mas o Felipe conseguiu!

RogérioVocês encontraram, inclusive, o promotor americano do caso.

Haná — Então conseguimos falar com o promotor que cuidou do caso, e que não tinha nenhuma restrição em dar seu depoimento no filme. Pelo contrário, ele foi super cooperativo e adorou participar. Também tivemos contato telefônico com o capitão do navio, um sujeito muito expressivo e bacana. Ele nos contou tudo o que aconteceu no barco e nos convidou para entrevistá-lo pessoalmente. Na hora falamos: “ótimo, vamos comprar passagens e semana que vem estaremos aií!”. Mas no segundo contato telefônico ele já estava resistente, disse que havia conversado com alguém e que não se sentia confortável em contar a história. E nunca mais nos atendeu. Mesmo quando o Tocha Alves, o outro diretor do filme e o Ricardo Ortiz, que foi fotógrafo e produtor estiveram nos Estados Unidos, ele não quis recebe-los. Essa foi a maior perda para mim, porque ele parecia alguém muito interessante, que não era um traficante de ofício, fez essa operação e saiu fora. No total foram praticamente 2 anos e meio de pesquisas. O grupo do facebook foi criado para encontrar pessoas que quisessem dar depoimentos, tivessem fotos ou lembranças da época. Usamos no filme dois quadros que postaram no grupo, e infelizmente outros materiais maravilhosos, como fotos de pessoas com a lata ou um vídeo da Rita Lee falando das “latinhas” em um show, não puderam ser usados pelas tais questões de liberação de direitos que mencionei.

Rogério – Recentemente, em um artigo, você escreveu que não é um “filme sobre maconha”. É sobre o que, então?

Haná — Gosto de definir que é uma anedota sobre o tráfico de drogas que deu  errado ( os traficantes perderam toda a carga, foram incriminados e presos nos Estados Unidos; a polícia brasileira não conseguiu apreender a carga no mar ) mas deu certo ( do ponto de vista da polícia americana, a droga não chegou aos EUA e os traficantes foram presos; do ponto de vista de uma juventude brasileira, rolou o verão da lata). Mas quando disse isso, na verdade é porque acho que escolhemos falar de um contexto mais amplo, do que significou essa derrama de maconha num Brasil ainda bastante isolado do resto do mundo, passando de um período de ditadura militar e repressão de comportamento para tempos mais abertos… gosto de ver essa história como uma metáfora de um Brasil que estava se internacionalizando, se abrindo pro resto do mundo, recebendo os fenômenos jovens do mundo… a ditadura acaba, e uns dois anos depois a juventude é “premiada” com maconha de graça, na praia, em pleno verão. Um entrevistado fala que o verão da lata é o nosso “summer of love”, e concordo com essa visão.  Outro menciona que foi um presente de Yemanjá. Por que não?

Rogério — É engraçado isso, mas vendo o documentário, tudo parece um pouco ingênuo aos olhos de hoje. Você acha que daria para abordar o cenário das drogas atual – do seu tráfico no Brasil – com a leveza e o humor com o que as pessoas (tirando a polícia, é claro) pareceram tratar o “verão da lata” na sua época?

Haná — É, os tempos são outros, e o filme foi um jeito de falar disso também. Acho que hoje, se as latas aparecessem, tudo seria carregado de mais violência. A repressão, a comercialização, a ação da polícia, até as manifestações a favor.  A velocidade e a intensidade dos eventos eram menores. Não dava pra fazer um grupo de whatsupp falando da lata. Tinha que ter discrição, era tudo no boca-a-boca. Hoje tudo vira um fenômeno de massa, acho que a perda de controle seria maior. Não seriam centenas de paulistas pegando o carro pra procurar maconha em Ubatuba, seriam milhares, talvez milhões. As latas seriam disputadas à bala, quem sabe.

Rogério – Para além da questão das drogas, você acha que o país está ficando mais moralista?

Haná — Não sei se o país está ficando mais moralista. Era moralista nos anos 80 também… Ser encontrado com um baseado era pretexto pra passar a noite na delegacia e ter que pagar um boa propina. Muitos jovens com lata foram presos, mas conseguiam se liberar sob a alegação de que “estavam levando a lata para a PF”. Os pais achavam que maconha era porta de entrada para outras drogas, encontrar maconha em casa era um escândalo… Isso tudo mudou bastante, a hipocrisia em torno da droga é menor, acho… A cocaína ainda não dominava absolutamente o cenário ( isso veio logo depois),  as facções criminosas ainda eram incipientes, a maconha consumida no Brasil ainda era produzida no Nordeste ou vinha do Paraguai. Hoje tem maconha feita em estufas por todo planeta, e sei lá como chega até aqui. Por outro lado, o crack já havia dominado Nova York, e eles estavam desesperados para erradicá-lo. A criação do DEA (Drug Enforcement Administration) vem dessa época e dessa problemática com a cocaína nos EUA. Os traficantes de maconha eram muito menos violentos, se denominavam de “ gentlemen smugglers”. Aqui e agora estamos submersos no problema do crack, que é imensamente mais agressivo do que conseguem ser  os esforços em combatê-lo. Perto disso, o verão da lata é uma matinê de clube.

Rogério– Uma curiosidade: alguns entrevistados do filme falam que nos anos 1980 havia um estigma maior sobre os “maconheiros” do que hoje. Era um resquício ainda da ditadura, tratar maconheiros e hippies (o escritor Paulo Coelho chegou a ser preso, por exemplo, pois desconfiavam da “sociedade alternativa”) como “subversivos”? A invasão das latas teve um pouco a ver com isso, talvez, um sentido de deboche (ou sátira) para com o regime militar que chegara ao fim apenas dois anos antes??

Haná — Sim, acho que era resquício da ditadura tratar maconheiros e hippies como ameaça, como algo sujo, ruim, perigoso. A juventude era meio mal vista. Hoje os jovens são muito endeusados, mas não era tão assim ainda nos anos 80. O que saia do “mainstream”  dava medo. A contracultura não havia sido massificada, incorporada pela mídia, virado fonte de dinheiro, indústria cultural, etc… Estávamos nessa transição ainda. Sobre a invasão das latas ter esse sentido de deboche ou sátira ao regime militar, acho que foi essa a visão que procuramos transmitir no filme… Essa perda total de controle. Não dava pra recolher todas as latas. Não dava mais pra prender e torturar quem pensasse de outro jeito. O quadrinho do Glauco que aparece no filme é exemplar dessa visão, os dois policiais chorando com a invasão das latas e falando “calma, vai abrir concurso da caixa”.

¹Rogério Pacheco Jordão, 46, é jornalista e sócio-diretor da Fato Pesquisa e Jornalismo (FPJ), empresa de consultoria nas áreas de pesquisa e editorial.Mestre em política comparada pela London School of Economics (LSE), escreveu o livro ‘Crime (quase) Perfeito - corrupção e lavagem de dinheiro no Brasil’. Paulistano, mora no Rio de Janeiro há mais de década, onde é pai de duas crianças.
  • Karolina Silva

    Como eu queria ter nascido nessa época ♥ :3