Roteirista e diretora do filme, Haná Vaisman faz artigo inédito sobre o tema para Revista O GLOBO

[quote_right]“A maconha foi apelidada de Mike Tyson: um soco deixava o cara na lona. E todo mundo queria saber de onde vinha aquele fumo tão potente.„[/quote_right]

No dia 18 de setembro de 1987, no Guarujá, um gari estava catando lixo quando se deparou com uma grande lata fechada indo e vindo na espuma das ondas. Ele descolou um abridor com um ambulante que passava e pufff… Um cheiro de maconha o envolveu, como um gênio sendo libertado. Nem o mais inventivo maconheiro poderia imaginar isso: um carregamento de 22 toneladas de cannabis da melhor qualidade, embalada a vácuo e acessível a qualquer um que se dispusesse a dar um pulinho no mar.

A maconha foi apelidada de Mike Tyson: um soco deixava o cara na lona. E todo mundo queria saber de onde vinha aquele fumo tão potente. Os jornais falavam no navio Solana Star e num cozinheiro com nome sonoro — Stephen Skelton. As notícias contabilizavam o número de latas recolhidas pela PF, mas não iam a fundo. Até que o cozinheiro foi preso, o barco foi apreendido e a história foi ficando quieta. No vazio das investigações, as especulações proliferaram: os tripulantes do barco voltariam para buscar seu tesouro, que haveria de estar enterrado em alguma ilhota da Guanabara. Outra: havia uma balsa à deriva, com todas as latas, que em dias de mudança de vento se soltavam e acabavam dando em alguma praia. As latas não paravam de chegar: em 1988, foi verão, outono, inverno e primavera “da lata”.

Um alinhamento de planetas permitiu a triangulação de um traficante, que queria aliviar sua pena e deu a dica, com um capitão de navio, que preferiu não arriscar a pele, com as correntes marítimas da nossa costa, colocando na mesma rota 15 mil latas cheias de maconha tailandesa e o litoral do Brasil. Havia mais uma conjunção positiva: o verão se aproximava. Ah, o verão… Quando as férias duravam três meses, a gente daqui de São Paulo gostava de se isolar numa praia do Nordeste. Já os abençoados cariocas só precisavam atravessar algumas ruas pra sentar nas areias do Posto 9 e acender um “da lata’’.

Sempre sonhei em transformar essa história num filme. Mas o primeiro produtor que abordei, há oito anos, riu bem alto e falou: quem vai querer patrocinar um filme sobre maconha? Tentei explicar que não era um filme sobre maconha. Era sobre a transição democrática, sobre uma geração que foi criança e adolescente durante o governo militar. O Brasil estava entrando na rota dos grandes shows de rock e, casualmente, na do tráfico internacional de drogas. Como não contar essa história, que deu certo (os americanos conseguiram evitar que a droga chegasse aos EUA), mas deu errado (a polícia brasileira não conseguiu apreender o barco no mar), mas deu certo (verão da lata)?

Há uns quatro anos, houve outra conjunção astral. Os planetas se alinharam, um albatroz pousou, um bebê sorriu e um post no Facebook chamou minha atenção. Dois telefonemas depois, eu estava ao lado dos produtores desse filme. Foram muitas investigações e tantas histórias encontradas que nem tudo coube nos 60 minutos do documentário. Acho até que estamos inaugurando um novo gênero cinematográfico, o de filmes sobre o Verão da Lata.