Suzana Herculano-Houzel, carioca e neurocientista, visitou uma loja de venda LEGAL de maconha, em Denver, e acredita que quem tem opinião contra, a favor, ou não tem opinião sobre a legalização da erva tem muito a aprender com a experiência. As informações são da Folha de S.Paulo.

Deixem eu começar com a declaração que toda matéria sobre drogas deveria fazer a respeito da “persuasão”10801669_594591377336656_6474571671144299037_n do autor: eu não uso maconha, nunca usei e não pretendo usar. É fato mais do que comprovado que o uso regular prejudica a memória e a cognição, e prezo muitíssimo o equilíbrio químico do meu cérebro.

Dito isto: estive em Denver, nos EUA, com uma tarde livre para flanar com meu marido e, ambos curiosos, achamos uma loja de venda legal de maconha na rua principal do centro da cidade.

Não havia nada de notável na entrada, vazia como o resto da rua. Nenhuma aglomeração de jovens ávidos por se drogar, nem rodinha de maconheiros por perto nem polícia. A loja, com poucos clientes, ficava no subsolo, guardada por portas duplas e um segurança que exigia documentos de todos. É preciso ser maior de 21 anos; não é preciso ser residente do Colorado nem dos EUA –e assim eu, brasileira, entrei.

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A loja, toda branca como uma Apple Store, era impecavelmente organizada, com mostruários vedados dos vários produtos: botões de maconha de diversas variedades de Cannabis sativa e Cannabis indica em potes de acrílico lacrados (e presos às mesas por cabos de aço) mas cheiráveis por orifícios; estantes transparentes mas fechadas com biscoitos, bolinhos, balas, tabletes de chocolate, todos com a concentração de THC marcada, além da parafernália, colírio e incenso.

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Nada pode ser tocado pelos clientes. Pedidos são feitos em uma prancheta com a lista completa de produtos disponíveis. Um cartaz explica que o pagamento somente pode ser feito em dinheiro –porque a legislação não chegou à esfera federal, então os bancos ainda não querem correr o risco de operar as transações dessas lojas. Mas o problema é resolvido com um caixa automático no interior da loja, ao lado, aliás, de um mapa-múndi onde os clientes podem deixar um alfinete espetado mostrando de onde vieram. O negócio é internacional, mesmo sem sair de Denver.

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E, mais importante de tudo, a venda é legal e não financia o tráfico (como faria se o Estado tivesse apenas descriminalizado o porte e uso de maconha). Pelo contrário: reverte milhões de dólares por mês para o Colorado, em 17% de imposto de vendas mais outros impostos pagos pela loja. Os brasileiros se acham descolados, mas quem saiu na frente foram nossos primos puritanos do faroeste americano.

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$14,50 – Imposto de 17.3% do valor da venda, que vai para o Estado do Colorado. – Foto Arquivo Pessoal

Na pontinha ~ 
Nas buscas por imagens para ilustrar a publicação achamos o perfil, no Facebook, da neurocientista e vale a ressalva no trecho que não saiu, em sua coluna na Folha (talvez pelos limites de caracteres ou censura, quem sabe ¯\_(ツ)_/¯ ).

Meu marido fez questão de comprar alguma coisa para ter o RECIBO de recordação, que está aqui nas fotos em anexo, comprovando a legalidade da coisa, e o MAIS IMPORTANTE de tudo: o imposto de 17.3% do valor da venda, que vai para o Estado do Colorado.

Saímos à rua, incrédulos, com produtos (que serão devidamente descartados antes de sairmos para o aeroporto) e recibo perfeitamente legais em mãos. Não havia rodinha de maconheiros à porta. Não havia polícia. Ninguém veio nos achacar, muito menos prender. Os usuários vão usar a maconha, comprada legalmente, em suas casas, sem perturbar os outros. Meu marido parou e cheirou o ar frio, seco e limpo, perfeitamente livre de maconha, do centro de Denver. “Está sentindo este cheiro? É o cheiro da liberdade”. Ele estava orgulhoso de ser norte-americano. Eu também estaria, no lugar dele.

Assino embaixo, lembrando que a liberdade de cada um termina onde começa a do outro. Quer tomar umas cervejas? Tome – desde que não dirija intoxicado e machuque ninguém no trânsito. Quer fumar maconha? Fume – desde que seja maior de idade, não dê dinheiro a traficantes e financie a violência urbana, nem perturbe ninguém. Se álcool e maconha são nocivos? ÓBVIO que são. Mas escolher o que fazer com o próprio cérebro é problema de cada um.