Clubes operam sob leis antigas, que criminalizam apenas os traficantes – quem cultiva e fuma maconha de forma privada ou em um grupo sem fins lucrativos – está autorizado. As informações são do The New York Times via Economia IG.

Numa noite recente, dois estudantes universitários alemães em férias, armados com endereços que haviam pesquisado na internet, tentavam entrar num dos novos clubes de maconha de Barcelona.

spainEles não eram membros. Mas não importava. Eles rapidamente encontraram um clube perto da avenida central da cidade, La Rambla, que estava disposto a ignorar as regras, ajudando-os a escolher entre uma dúzia de tipos de maconha à venda em potes de plástico antes de lhes oferecer um sofá onde pudessem acender os baseados.

Quarenta e cinco minutos depois, os dois estavam de volta à rua. “Foi muito legal”, disse um dos estudantes, que haviam pesquisado clubes de maconha antes de escolher Barcelona como destino de férias. “Vamos voltar lá amanhã”.

O número de clubes de maconha abrindo em Barcelona recentemente fez alguns especialistas afirmarem que esta cidade logo desafiará Amsterdã como principal destino dos que desejam curtir uma brisa em paz.

Embora Amsterdã tenha lutado com o turismo de drogas nos últimos anos, reduzindo o número de estabelecimentos onde é legal comprar e fumar maconha e haxixe, cerca de 300 novos clubes de maconha abriram em Barcelona e na região catalã, o resultado, ao menos em parte, de espanhóis empreendedores buscando novas maneiras de ganhar a vida, dizem especialistas.

E não é que as autoridades de Barcelona deram sua bênção a este novo fenômeno. Os clubes estão operando sob antigas leis espanholas, que permitem que qualquer um cultive e fume maconha de forma privada, ou se reúna com outros para formar um clube de maconha – desde que seja uma organização sem fins lucrativos e voltada somente para os membros.

Mas nos últimos três anos novos clubes foram abertos, especialmente em áreas turísticas como La Rambla, em muitos casos contornando o espírito (se não a letra) da lei. Embora alguns recusem transeuntes como os estudantes alemães, muitos deles oferecem filiação (cerca de 20 euros) pela internet ou telefone.

Os clubes variam enormemente, de porões equipados com mesas de pebolim e enormes aparelhos de televisão, a ambientes mais elegantes com lustres de design e bares com sucos de frutas. Alguns oferecem maconha aos que a usam com fins medicinais e veem um bom mercado nesta região. Outros atendem apenas usuários recreativos. Da rua, poucos clubes podem ser notados.

O Rambla Dragon Club, por exemplo, que foi inaugurado no ano passado, fica no piso térreo de um prédio de apartamentos. Apenas uma pequena placa sobre a campainha (além da constante presença de jovens se aproximando para lê-la) indica sua existência. A sensação é a de um Starbucks sem janelas, com pé direito alto e um poderoso sistema de ventilação para manter o ar fresco. Alguns dos fumantes sentam-se com seus laptops abertos. Outros ficam em sofás, assistindo a filmes numa tela gigante.

Alguns defensores da maconha dizem que os clubes são um ponto de luz na economia. Embora sem fins lucrativos, os partidários dizem que os clubes estão gerando milhares de empregos e receita fiscal ao governo. Além de uma ampla gama de produtos com maconha e haxixe, muitos dos clubes também vendem alimentos e bebidas e oferecem benefícios adicionais aos seus membros, como noites com música ao vivo e aulas de fitness.

Segundo Albert Tió, presidente da Fedcac, associação de clubes de maconha na região catalã que inclui Barcelona, os clubes atualmente têm 165 mil membros, frente a praticamente nenhum cinco anos atrás. Sua associação foi formada em 2011, com apenas alguns clubes abertos, contou ele.

Um motivo para o crescimento, disse ele, foi que os jovens viram os clubes como uma forma de ganhar a vida. Outro fator são as novas leis antifumo de Barcelona, que entraram em efeito para bares e restaurantes em janeiro de 2011 e mandaram os usuários de maconha, que muitas vezes são também fumantes de cigarros comuns, em busca de novos locais para se reunir.

“A realidade é essa”, afirmou ele. “Os consumidores acham isso melhor do que comprar a droga nas ruas”.

Governos regionais dizem que muitos dos clubes atendem principalmente espanhóis, incluindo um onde todos os membros são mulheres na casa dos 80 anos. Mas autoridades de Barcelona estão tão preocupadas com o rápido crescimento desses estabelecimentos, e com a crescente reputação desta cidade como lugar para se conseguir a droga legalmente, que decidiram, em junho, colocar uma moratória de um ano sobre novas licenças – enquanto consideram questões como a proximidade a escolas.

“Sim, é um problema”, declarou Joan Delort, chefe de prevenção, segurança e mobilidade para Barcelona. “Em poucos anos, tivemos um enorme registro de usuários de maconha. É muito difícil determinar o que está realmente acontecendo. Mas em 18 meses, vemos clubes que estão num local muito pequeno, e que registraram 4.000 membros. É simplesmente impossível que eles possam ter tantos assim”.

Alguns dos maiores nomes no mundo da maconha estão aqui. O Strain Hunters, grupo holandês que produz documentários sobre a busca por variedades nativas de cannabis ao redor do mundo, abriu um clube aqui em março, numa charmosa rua lateral perto de La Rambla.

CLube Canábico BarcelonaCom janelas unidirecionais que dão ao espaço uma sensação aberta e arejada, mas evitam que os passantes vejam o interior, o lugar parece um bar sofisticado. Para aqueles que querem começar cedo, café e croissants frescos estão disponíveis para o café da manhã, e membros podem optar por produtos mais raros, como resina de maconha pura no formato de uma borboleta.

Sites que analisam esses estabelecimentos, como WeBeHigh.org e MarijuanaGames.org, estão dando altas notas aos clubes de Barcelona, tanto pela qualidade quanto pela variedade de produtos que vendem – além de oferecerem uma atmosfera muito mais agradável do que os cafés de Amsterdã, que segundo eles costumam oferecer maconha velha.

Numa manhã recente, Olivier Vervaet, de 21 anos, estava no Strain Hunters Club analisando o cardápio de maconha enquanto saboreava um café. “Me tornei membro porque este é um ótimo lugar para relaxar”, explicou ele. “Posso me sentar, e alguém traz uma bebida e um baseado, e não preciso me preocupar com a polícia”.

Algumas vezes por mês a polícia age, realizando alguma ação contra clubes pegos distribuindo panfletos nas ruas, por exemplo. Mas Edward Sallent, inspetor geral de policiamento comunitário para a polícia regional catalã, disse ser difícil ir contra os clubes.

“É uma situação complexa, pois muitos dos atos e comportamentos não são proibidos”, afirmou ele. “É ilegal vender e traficar, mas consumir, não”.

Muitos defensores argumentam que os clubes estão reduzindo as vendas nas ruas. Mas Sallent duvida disso. Ele diz que os clubes são novos demais para se saber exatamente que efeito poderão ter.

“Poderá haver todo tipo de custos”, disse ele. “Talvez eles afetem o valor das propriedades, quem sabe?”.