Até 5 empresas serão autorizadas a iniciar cultivo; meta é colocar erva à venda em farmácias até março, quando Mujica deixa cargo. Conheça também Daisy Benítez, uma senhora que fumou o seu 1º baseado aos 67 anos e hoje cultiva maconha para uso medicinal aliviando as dores na coluna e bacia.

O Uruguai começará em dezembro o plantio de maconha que será vendida em farmácias, a parte mais ousada da lei que regulamenta a produção e o comércio da erva no país. A informação foi revelada ao “Estadão” pela primeira dama e senadora Lucía Topolansky e confirmada pela Junta Nacional de Drogas.

O resultado oficial da licitação que determina as empresas selecionadas sairá no dia 5. A Junta antecipou que foram escolhidas entre três e cinco empresas. “O plantio começará em dezembro. Não se sabe exatamente quanto tempo leva para produzir, mas alguns meses”, disse a senadora, principal congressista da Frente Ampla, partido de Mujica. “Será plantada em uma área cercada, protegida por força militar”, completou.

Segundo o Estado apurou no Instituto de Regulação e Controle da Canabis (IRCCA), a meta do governo é efetivar a primeira venda de maconha sob controle estatal até março, quando Mujica passa o poder ao sucessor, Tabaré Vázquez eleito no domingo.

Da lei regulamentada em abril por Mujica, a parte menos polêmica está em vigor. Usuários registrados já podem ter seis pés em casa (ou produzir 180 gramas por ano). A produção pelos clubes de cultivo, que podem ter até 45 sócios, só foi liberada há cerca de uma semana e eles ainda não passaram pela vistoria que deve ser feita pelo IRCCA. Por enquanto, se sustentam vendendo insumos como terra, luminárias e prestando assistência técnica.

“A meta do governo é ambiciosa. As plantas que passarão a produzir em abril serão plantadas em dezembro ou em fevereiro. Isso porque agora a insolação é muito forte”, avalia Marco Algorta, sócio da loja Planeta Ganja, que ainda constrói seu clube e, além de vender apetrechos relacionados ao consumo, presta assistência a produtores individuais.

PRIMEIRO BASEADO AOS 67 ANOS

Um deles é Daisy Benítez Fagúndez, que até os 67 anos pertencia à turma de Mujica ­ não havia fumado maconha. Registrada no órgão que disciplina o consumo, aos 69 anos, ela cultiva três pés, com os quais faz o cigarro de maconha com o qual alivia à noite as dores na coluna e na bacia. Ela paga 1,5 mil pesos mensais para que um especialista no plantio mantenha suas plantas criadas sobre a pia do banheiro, em uma estufa pequena. “Nunca tinha ouvido falar da maconha até os 67 anos. Tomava morfina para aliviar a dor e não adiantava”, diz a dona de casa, que teve três infartos. “Quando soube da lei, logo fiquei sócia.”

Viúva há nove anos, Daisy vive em um apartamento de quarto e sala, em Montevidéu, com a cadela Biruta. Caminha com tanta dificuldade, em razão de um desgaste no fêmur, que vai de táxi à avenida mais próxima, a uma quadra.

Nas farmácias, Daisy poderia comprar 10 gramas da droga por semana. “A maconha mudou minha vida. Quando eu disse que tentaria isso, muita gente falou que eu estava louca, que faria mal, que eu começaria a rir sem parar. Nada disso. A dor levou o meu sorriso, me deixou opaca. Com quatro aspiradas antes de dormir eu fico normal, só que sem dor.”

Duas razões explicam a tentativa de implementar até março a venda (em agosto, ela estava programada para janeiro). A primeira é simbólica. Nos seus cinco anos de governo, Mujica alavancou leis liberais em comportamento. Regularizou aborto e matrimônio gay, a exemplo de outros países. A norma uruguaia sobre maconha, entretanto, é pioneira no mundo. Ela coloca o Estado como produtor e vendedor da droga, com a tática de competir com o narcotráfico e derrotá-­lo não com armas, mas vendendo mais barato. A meta é colocar a maconha nas farmácias por US$ 1 o grama. “Isto atrasa a parte mais importante da lei. O Estado quer pagar US$ 0,50 por grama às empresas interessadas no plantio em larga escala. Se o investimento é de US$ 1 milhão por hectare, a vantagem é pouca. Algumas até estão interessadas em ter know­how. Quando a experiência for para outros países, elas serão referência”, afirma Algorta.

O segundo motivo é que será mais difícil haver retrocesso em uma lei posta em prática. Cerca de 60% dos uruguaios são contra a iniciativa e gostariam de revogá­-la. O sucessor de Mujica, o médico Tabaré Vázquez, da Frente Ampla, disse que vai aplicá-­la, mas nunca foi um de seus defensores mais enfáticos.