Você está lendo

A dimensão do problema

Números servem para dimensionar. É a partir de números confiáveis que podemos tomar decisões sensatas. Na formulação de políticas públicas está mais do que clara a necessidade de dados que dimensionem corretamente os problemas para que se possam desenhar soluções adequadas. A divulgação de uma aguardada pesquisa da Fiocruz, que estima o número de usuários de crack no país, nos relembra essa importante lição.

O trabalho levantou polêmica por apresentar números inferiores aos que atualmente orientam as políticas públicas com relação ao crack e às drogas no Brasil. Políticas que insistem em manter um caráter proibicionista e repressivo, na contramão das tendências mundiais e sem levar em conta possibilidades mais eficazes e humanas de tratar a questão.

Considerada a maior pesquisa sobre crack já realizada em todo o mundo, o trabalho da Fiocruz estima em 370 mil os usuários regulares de crack e similares nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal. São conhecidas as dificuldades de quantificar populações de difícil acesso como é o caso do usuário de drogas. Mesmo porque é complicado alguém se declarar usuário em um país onde o porte de drogas para consumo pessoal é crime. Como chegar, então, a um número que possa fazer sentido?

Para responder a essa pergunta, os pesquisadores da Fiocruz buscaram o maior rigor possível. Foram entrevistadas em suas casas 25 mil pessoas, e essas entrevistas foram analisadas em conjunto com especialistas em estudos populacionais da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Os coordenadores da pesquisa fizeram questão de levar em conta “todo e qualquer usuário, esteja onde ele/ela estiver (preso, na rua, numa comunidade terapêutica, num abrigo, e, obviamente, em casa, etc.)”.

Leia também:  França comercializa teste para maconha em tabacarias

Os 370 mil usuários de crack nas capitais brasileiras não constituem um contingente capaz de caracterizar o uso dessa droga como epidemia. Mas são, com certeza, um problema de saúde pública sério que deve ser tratado como tal. E não como caso de polícia ou de exclusão ainda maior da sociedade dos dependentes da droga. O perfil do usuário — traçado em pesquisa paralela à da estimativa do número de usuários e, dessa vez com entrevistas na rua, nas cenas de uso — oferece dados importantes para uma política de assistência ao usuário e educação da população.

A pesquisa foi encomendada pela Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad), o que demonstra em princípio a vontade de ultrapassar preconceitos e ideologias e formular políticas públicas baseadas em dados reais. O que importa é enfatizar que o estudo da Fiocruz abre novas perspectivas para políticas públicas que levem em consideração diferentes populações e diferenças quantitativas regionais — a pesquisa revela, por exemplo, que em números absolutos a maioria dos usuários de crack está no Nordeste.

Leia também:  Precisamos definir como tratar usuários de drogas, diz policial que atua na Cracolândia (SP)

Sobretudo, a pesquisa aponta para a importância das estratégias de redução de danos, eficientes na prevenção de doenças transmissíveis — como Aids, hepatite e tuberculose — e das overdoses.

E, finalmente, a pesquisa revela a importância de tornar o atendimento a dependentes mais humanizado. Não há mais espaço no Brasil para o consumo político das drogas. É hora de basearmos nossas políticas públicas sobre drogas nas evidências científicas e boas práticas nacionais e internacionais.

Por Ilona Szabó*
Via, O Globo

*Ilona Szabó é coordenadora da Comissão Global de Política sobre Drogas e Democracia

 

Pontinha

SmokeBud é a sua referência sobre maconha no Brasil e no mundo. Aperte e fique por dentro do que acontece no Mundo da Maconha. http://www.smkbd.com
medico maconha

Comente

Escreva seu comentário