Em debate promovido pelos jornais O Dia e Meia Hora e realizado dentro do Complexo da Maré, especialistas e profissionais de diversas áreas – criminais, médicas, legislativas etc. – divergem sobre benefícios e malefícios da erva. Uns são a favor, outros são contra, mas o objetivo se concretizou: discutir e debater sobre a maconha. A reportagem é de Leandro Resende, do jornal O Dia.

Ex-comandante da PM diz que proposta de legalização, do delegado Orlando Zaccone, é ‘equívoco’

RIO – Encarar o problema das drogas sob um novo viés. Essa foi a ideia que permeou o 11º debate da série ‘Rio, Cidade Sem Fronteiras’, quinta-feira, na Maré. O encontro, promovido pelos jornais O DIA e Meia Hora , discutiu os possíveis efeitos da descriminalização do uso de drogas nas favelas, locais que historicamente sofrem com as ações do tráfico e da polícia. O destaque foi o embate entre dois velhos amigos que se conhecem bem: o delegado Orlando Zaccone, titular da 30ªDP (Marechal Hermes), favorável à legalização de todas as drogas, e o coronel Mário Sérgio Duarte, ex-comandante da PM, que considera a ideia um “equívoco”.

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Eduardo Alves, Sérgio Couto, Jomar Braga, o mediador André Balocco, Orlando Zaccone, coronel Mário Sérgio e Tião da Maré: troca de ideias marcou o debate

À mesa também estiveram especialistas em saúde pública e lideranças da Maré. Eles divergiram entre si e com a plateia, mas saíram da sede do Observatório de Favelas, onde o debate aconteceu, com a certeza de que é necessária a troca de ideias para se avançar num tema tão caro ao cotidiano do Rio. O encontro foi mediado pelo jornalista André Balocco.

“As drogas fazem mal, mas fazem mais mal ainda se estiverem proibidas”, defendeu Zaccone, membro da LEAP Brasil, associação criada nos EUA que reúne policiais, promotores e agentes da lei favoráveis ao fim da política de guerra às drogas iniciada nos anos 80. “A proibição não afasta ninguém da droga. Os efeitos são os mesmos, com as drogas proibidas ou não”, continuou o delegado. Para ele, as condições sociais do usuário influenciam nos efeitos da repressão.“O que faz do crack um flagelo é a classe social de quem usa.”

Zaccone apontou ainda a hipocrisia entre o fato de a Copa do Mundo ser patrocinada por uma cervejaria — droga lícita — e o país gastar milhões no combate às ilícitas. “O mercado da droga é a quarta maior economia do mundo. Este dinheiro não está nos guetos, nas favelas.”

Logo depois de sua fala, foi a vez da explanação d o coronel Mário Sérgio Duarte, ex-comandante do Batalhão da Maré (22º BPM), em que atuou entre 2004 e 2006. Em seu retorno à favela, o atual secretário de Políticas de Segurança de Duque de Caxias elogiou a ocupação pelas Forças Armadas e frisou o fim da influência do desfile de fuzis. À vontade ao lado de seu principal oponente, de quem é amigo, lembrou que só estava de volta à favela por causa da ocupação.

“Se não fosse pacificada, só entraria nessa rua depois de trocar tiros.” Ele não acredita que descriminalizar seja o melhor caminho. “A proibição, o freio às drogas evita o impulso no consumo. As pessoas deixam de usar drogas porque têm medo da lei.” O coronel defende o crescimento de ações nas áreas de saúde e informação, com campanhas educativas. “Esta discussão é inevitável, porque há muitas dúvidas.”

Diretor do Observatório de Favelas, o sociólogo Eduardo Alves pediu que a questão saia do âmbito criminal para o de saúde. Defendendo a participação da sociedade no debate, ele elogiou a iniciativa do jornal e apontou a desigualdade social como a raiz dos conflito: “Precisamos de políticas públicas esclarecedoras. São necessárias ações que envolvam as pessoas na compreensão do problema”.

Diferença social na repressão

Nascida e criada na Maré, Marielle Franco, 34 anos, pediu a palavra ao término do debate e questionou as diferenças de abordagem policial aos usuários, dependendo de onde eles estejam.
“Fumar maconha na Praça São Salvador, no Flamengo, é diferente de fumar na Praça do 18, aqui na Maré”, disse, arrancando aplausos da plateia de cerca de 50 pessoas. A participação após as falas foi grande.

Marielle mencionou a pesquisa do Instituto Gerp, divulgada pelo DIA na edição de 19 de maio, mostrando que 69% dos fluminenses rejeitam a legalização das drogas: “Esta pesquisa traduz o comportamento dos moradores do Rio, mas a opinião precisa ser emitida após a pessoa participar de um debate como este. E aqui na favela.”

Ela percebeu um salto nas discussões realizadas na Maré, elogiou a iniciativa do jornal e encerrou a fala pedindo que as pessoas “deixem o moralismo” ao falar sobre drogas. “A sociedade precisa debater e ser ouvida”, concluiu.

Pedidos de ajuda crescem

Mais dependentes químicos da Maré estão procurando ajuda para deixar as drogas desde que o Exército ocupou a comunidade. A informação é de Sebastião Araújo, do Instituto Vida Real, que cuida de jovens em situação de risco no complexo e ajuda no encaminhamento para centros de reabilitação. “Ficou mais difícil encontrar as substâncias aqui na favela”, declarou Tião.

Seu depoimento foi um dos mais contundentes. Morador da Maré, contou a história de um usuário encaminhado 11 vezes para um centro de reabilitação até se libertar do vício, e revelou-se um dependente químico em recuperação. “Estou sem usar nada há sete anos. Hoje, o que me motiva é cuidar do meu semelhante”, apontou, citando a importância da família no processo de recuperação. “Em casa, as pessoas precisam estar preparadas. É muito difícil, mas acolher é preciso”.

Médico critica tratamento público

Primeiro a falar, o médico Jomar Braga deu uma aula sobre os efeitos do álcool e das drogas no organismo. Mas a segunda parte de seu discurso foi a que mais chamou a atenção. A favor da regulamentação do uso medicinal da maconha, disse que o Instituto Philip Pinel, onde trabalha há 30 anos, está sucateado e sem condições de atender plenamente usuários de drogas lícitas e ilícitas.

“Em 12 anos, as vagas para tratamento caíram de 50 para 18”, lamentou ele. Segundo o médico, o arsenal terapêutico oferecido pela prefeitura para tratar as consequências do uso está totalmente ultrapassado. “A medicação que nos é ofertada é do século passado e isso nos obriga, muitas vezes, a pôr para dormir os pacientes usuários de crack e heroína , pois não temos drogas atuais para tratar as dores da abstinência.”

Conselheiro em dependência química, Sérgio Couto defendeu que o consumo de drogas lícitas, como cigarro e álcool, estimulam o uso das drogas ilícitas.

“O álcool é um desinibidor que ajuda as pessoas a não ter receio de experimentar outras drogas. Já o tabaco, para mim, abre as portas para o uso da maconha e cocaína”, disse. Atento ao debate e à diversidade de opiniões, Sérgio saiu satisfeito do encontro, mas manteve sua posição.

“Sou contra a descriminalização das drogas, mas a favor de estudos para deixar a população informada.” Ele relatou a tristeza que sente ao ver jovens em tratamento, na clínica onde trabalha, sem motivação por conta do uso de maconha. Segundo Sérgio, o princípio ativo da maconha fica acumulado por uma semana no cérebro. “Imagina o efeito disso a longo prazo?”