Saiba porque o Drauzio Varella está longe de ser o Sanjay Gupta da Globo.

Recentemente vemos muitas opiniões contrárias e favoráveis (mais contra) sobre os últimos artigos publicados pelo médico Drauzio Varella, em sua coluna na Folha de S.Paulo, mas antes de falarmos sobre a opinião do Dr. mais Global do país, vale lembrar do renomado médico americano, o neurocirurgião Sanjay Gupta.
Sanjay Gupta é responsável pelos assuntos médicos da CNN e em agosto passado divulgou uma nota de desculpas por ter pulicado, em 2009, um artigo contrário ao uso medicinal da maconha.

Gupta produziu o documentário “Weed” (assista a primeira parte legendada no fim da matéria) mostrando que, em um contexto controlado, seja na forma de óleo, compostos isolados, ou de material in natura, o uso medicinal da Cannabis representa uma nova revolução na medicina. Por isto, hoje em dia, Dr. Gupta pede desculpas por ter se enganado.

Os casos abordado na primeira parte do documentário “Weed” são das síndromes de Dravet e de CDKL5, das quais sofrem, respectivamente, as meninas Charlote, protagonista do documentário americano, realizado pela CNN, e Anny, do documentário nacional Ilegal, de Raphael Erichsen e Tarso Araújo, que trouxe à tona a real necessidade do debate e quanto antes da regulamentação da maconha, no Brasil, trazendo esperança à família de diversos pacientes.

sanjay cnn
Dr. Gupta assumindo seu erro publicamente. Quando veremos um médico brasileiro fazendo o mesmo?

Pois bem, voltando ao Dr. Drauzio e ao recente artigo, em que relaciona superficialmente os benefícios da maconha para fins medicinais, era o esperado que mesmo que ele tivesse todo o impresso da Folha de S.Paulo faltaria espaço para relacionar todos os reais benefícios medicinais da maconha.

Abaixo explanamos o artigo na íntegra, publicado pela Folha (12), além de questionarmos alguns pontos em que o médico poderia ter sido menos obscuro e mais claro a toda sociedade.

Efeitos benéficos da maconhadrauzio e seus efeitos

Por Drauzio Varella

Não são poucos os benefícios potenciais da maconha. Na última coluna falamos sobre os efeitos adversos, apresentados numa revisão recém-publicada no “The New England Journal of Medicine”.

Explicamos que os estudos nessa área padecem de problemas metodológicos. Geralmente envolvem usuários que consomem quantidades maiores, por muitos anos, acondicionadas em baseados com concentrações variáveis de tetrahidrocanabinol (THC), o componente ativo.

Como consequência, ficam sem respostas claras as consequências indesejáveis no caso dos usuários ocasionais, a grande massa de consumidores.

Em compensação, o uso medicinal do THC e dos demais canabinoides dele derivados está fartamente documentado.

Pode isso Dr.? Os canabinoides são derivados do THC? Achamos que não.

A descoberta de que os canabinoides se ligavam aos receptores CB existentes na membrana celular dos neurônios aconteceu em 1988. Dois anos mais tarde, esses receptores foram clonados e mapeadas suas localizações no cérebro. Em 1992, foi identificada a anandamida, substância existente no sistema nervoso central, relacionada com os receptores, mas distinta deles.

A partir de então, diversos trabalhos revelaram que os canabinoides naturais ou sintéticos desempenham papel importante na modulação da dor, controle dos movimentos, formação e arquivamento de memórias e até na resposta imunológica.

Pesquisas com animais de laboratório demonstraram que o cérebro desenvolve tolerância aos canabinoides e que eles podem causar dependência, embora esse potencial seja menor do que o da heroína, nicotina, cocaína, álcool e de benzodiazepínicos, como o diazepan.

Hoje sabemos que o uso de maconha tem ação benéfica nos seguintes casos:

1) Glaucoma: doença causada pelo aumento da pressão intraocular, pode ser combatida com os efeitos transitórios do THC na redução da pressão interna do olho. Existem, no entanto, medicamentos bem mais eficazes.

O que isso significa? Que a maconha não seria uma opção terapêutica, por ser menos eficaz?

2) Náuseas: o tratamento das náuseas provocadas pela quimioterapia do câncer foi uma das primeiras aplicações clínicas do THC. Hoje, a oncologia dispõe de antieméticos mais potentes.

Drauzio se refere ao THC sintético? Ou ao uso da maconha in natura? Não fica claro. “Hoje, a oncologia dispõe de antieméticos mais potentes.” O que o Drauzio pretende dizer? Que o mais potente é mais eficiente, mesmo podendo causar mais efeitos colaterais? Não fica claro.

3) Anorexia e caquexia associada à Aids: a melhora do apetite e o ganho de peso em doentes com Aids avançada foram descritos há mais de 20 anos, antes mesmo de surgirem os antivirais modernos.

4) Dores crônicas: a maconha é usada há séculos com essa finalidade. Os canabinoides exercem o efeito antiálgico ao agir em receptores existentes no cérebro e em outros tecidos. O dronabinol, comercializado em diversos países para uso oral, reduz a sensibilidade à dor, com menos efeitos colaterais do que o THC fumado.

Dores crônicas: sobre o THC sintético (dronabinol): “o dronabinol reduz a sensibilidade à dor, com menos efeitos colaterais do que o THC fumado”. No mínimo estranho usar a expressão “fumar THC”. Em um artigo do Grinspoon, ele relata que em pesquisas clínicas a erva in natura era preferida em relação ao dronabinol (Marinol). Pacientes abandonavam os testes clínicos quando eram do grupo que usava o dronabinol, ou o trocavam pela maconha in natura, mesmo do mercado ilegal, ao longo dos testes, porque os efeitos colaterais do sintético eram menos bem aceitos.

5) Inflamações: o THC e o canabidiol são dotados de efeito anti-inflamatório que os torna candidatos a tratar enfermidades como a artrite reumatoide e as doenças inflamatórias do trato gastrointestinal (retocolite ulcerativa, doença de Crohn, entre outras).

6) Esclerose múltipla: o THC combate as dores neuropáticas, a espasticidade e os distúrbios de sono causados pela doença. O Nabiximol, canabinoide comercializado com essa indicação na Inglaterra, Canadá e outros países com o nome de Sativex, não está disponível para os pacientes brasileiros.

Esclerose Múltipla: o Nabiximols é o nome científico do Sativex, um produto farmacêutico criado apenas para uso com base em prescrição pela GW Pharmaceuticals, já que a patente é deles.

O Nabiximols não é um canabinóide, propriamente, mas uma tintura da maconha com THC e CBD em concentrações controladas disponibilizado em aerosol. Cada pulverização proporciona uma proporção aproximada de 2,5 mg de CBD para 2,7 mg de THC. Portanto se referir o Nabiximols como ”canabinóide”, pode não ser o melhor termo.

7) Epilepsia: estudo recente mostrou que 11% dos pacientes ficaram livres das crises convulsivas com o uso de maconha com teores altos de canabidiol; em 42% o número de crises diminuiu 80%; e em 32% dos casos a redução variou de 25 a 60%. Canabinoides sintéticos de uso oral estão liberados em países europeus.

Drauzio diz que “canabinoides sintéticos de uso oral estão liberados em países europeus”. O único canabinoide com a finalidade médica é o Marinol, sendo que os demais ‘canabinoides’ sintéticos, que até pouco tempo eram “natural highs”, aos poucos têm sido classificados como drogas ilícitas, como o Spice e o K2, podendo causar danos irreversíveis levando inclusive a óbito. [ADICIONAR O LINK DA MENINA EM COMA E DO OUTRO Q MORREU].

Com tal espectro de ações em patologias tão diversas, só gente muito despreparada pode ignorar o interesse medicinal da maconha. Qual a justificativa para impedir que comprimidos de THC e de seus derivados cheguem aos que poderiam se beneficiar deles? Está certo jogar pessoas doentes nas mãos dos traficantes?

No entanto, o argumento de que o uso de maconha deve ser liberado em virtude dos efeitos benéficos que acabamos de enumerar, é insustentável: a imensa maioria dos usuários não o faz com finalidade terapêutica, mas recreativa.

Não Drauzio, não está certo jogar pessoas doentes nas mãos dos traficantes e tão pouco os que buscam uma droga recreativa como álcool e tabaco, afinal se rir é o melhor remédio, saiba que não há substância natural melhor que a erva para te fazer rir, experimente sem preconceitos.

Entretanto Dr. Drauzio, o que levou o senhor a deduzir que a maioria dos usuários não faz uso da maconha com finalidade terapêutica, com certeza não foram os mesmos motivos enumerados abaixo.

Pelos principais motivos:
– Das comunidades médicas não prescreverem, temorosos a uma retalhação;
– Pela classificação (lista 1) que é mantida a planta;
– Pela ANVISA fazer vistas grossas em algo tão emergencial;
– Devido ao alto custo e burocracia para importação (apenas do CBD, sendo excluído mais uma vez o THC), a média de custo, por 10 g, é de 500 dólares, quando a mercadoria não é apreendida;
– Devido ao risco de cultivar meia dúzia de pés e ser considerado traficante, ao tempo que isso é feito para evitar um produto duvidoso e não financiar o tráfico (vai entender né?!);
– Pelo motivo de muitos permanecerem ocultos, entre personalidades e pessoas comuns, para não serem taxados por algo tão pejorativo que se criou em cima do MACONHEIRO.

Apesar do doutor dizer que “Maconheiro é louco para dizer que maconha não vicia e nem faz mal”, hoje podemos dizer em contra partida que “O Dr. Drauzio Varella está longe de ser o Dr. Sanjay da Rede Globo” na defesa do uso medicinal da maconha, inclusive ”in-natura”, abrindo mão, em nome do conservadorismo, de praticar ação semelhante ao colega americano.

Como diz o povo: uma coisa é uma coisa…

Acho que a maconha deve ser legalizada, sim, mas por razões que discutiremos em nossa próxima coluna.

Estamos de olho Dr. e no aguardo do seu próximo artigo.

Para um enriquecimento maior da crítica sobre o recente texto, do médico brasileiro, aconselhamos que você assista a primeira parte, em português, do documentário Weed produzido pelo Dr. Sanjay Gupta.

Aproveite e comente abaixo sobre o último texto do Dr. Drauzio Varella.