Eles fizeram filas antes do amanhecer –e debaixo de neve– na quarta-feira (1º): membros da geração do pós-guerra de Nebraska, aposentados de Denver e um rapaz que dirigiu o dia todo desde Ohio. Alguns eram antigos usuários de maconha; outros tinham sido presos por posse da erva.

Centenas de turistas e moradores do Colorado participaram da primeira venda de maconha para uso recreativo no país, regulamentada pelo Estado. Eles entraram em 40 lojas, do centro de Denver até “resorts” de esqui cobertos de neve, mostraram suas identidades e, em uma transação inédita, participaram do que os defensores da erva saudaram como um distanciamento histórico das leis antidrogas, que dão ênfase à punição e à proibição.

“É inebriante dizer ‘entrei em uma loja e comprei maconha'”, disse Linda Walmsley ao sair do Denver Kush Club, onde uma fila de clientes trêmulos de frio se estendia pelo quarteirão.

Enquanto cerca de 20 Estados permitem o uso da maconha para fins medicinais, os eleitores dos Estados de Colorado e Washington decidiram no ano passado dar um passo adiante ao se tornarem os primeiros do país a legalizar pequenas quantidades da erva para uso recreativo e regulamentar a atividade, como a da bebida alcoólica. O Colorado começou rapidamente, no feriado de Ano-Novo.

Para os adeptos, foi um momento divisor de águas no complexo relacionamento do país com a droga. Era semelhante ao fim da Lei Seca, embora com “baseados” sendo passados de mão em mão em vez de champanhes estourando.

Para os céticos, representou uma grande loucura que vai manchar a imagem de um Estado cuja canção oficial é “Alto nas Montanhas Rochosas”, de John Denver, e levará a um maior uso da droga por adolescentes, além de motoristas menos atentos. O governador do Estado e o prefeito de Denver foram contra a legalização e não participaram das comemorações e das vendas inaugurais na quarta-feira.

Os reguladores disseram que as primeiras vendas no Colorado –em um dia chamado de ‘Quarta-Feira Verde’ pelos entusiastas– transcorreram de forma tranquila. Guardas de segurança foram colocados diante dos dispensários, e policiais e autoridades estaduais observaram atentamente.

As autoridades federais, céticas, também estão prestando atenção. Embora a maconha continue ilegal pela lei federal, o Departamento de Justiça deu uma aprovação experimental para Colorado e Washington seguirem com a regulamentação da maconha, mas advertiu que as autoridades federais poderão intervir se as regulamentações estaduais deixarem de manter a droga longe das crianças, dos cartéis de drogas ou de propriedades federais e de outros Estados.

Na quarta-feira, oito investigadores no Colorado verificavam as licenças dos comerciantes, inspecionavam as embalagens e os rótulos e garantiam que as lojas verificassem a identidade dos clientes, que devem ter 21 anos ou mais, afirmou Ron Kammerzell, um diretor do Departamento da Receita do Colorado. “Até agora, tudo bem”, disse ele.

Regras e preço
Desde que os eleitores do Colorado e de Washington aprovaram a maconha recreativa, no ano passado, os Estados se apressaram a criar regras sobre como plantar, vender, tarifar e rastrear a erva.

Tanto no Colorado como em Washington, a maconha recreativa foi aprovada legalmente há mais de um ano. Os adultos podem fumá-la em suas casas e comer bolachas contendo a droga sem medo de ser presos. No Colorado eles podem plantar até seis pés de Cannabis em casa.

Até quarta-feira, os dispensários de maconha só podiam vendê-la para clientes com prescrição médica e um cartão médico emitido pelo Estado. Muitas pessoas que fizeram fila na quarta-feira disseram que não tinham cartões médicos e contavam com traficantes ou amigos com prescrição para maconha medicinal para satisfazer seu desejo. Eles pagaram altos preços pela nova maconha recreativa (de US$ 50 a 60 por cerca de 3,5 gramas, quase o dobro do preço da maconha medicinal, o que equivale a mais de R$ 120), mas disseram que vale a pena para evitar o risco.

“As pessoas não gostam de infringir a lei”, disse Andy Williams, que dirige o dispensário Medicine Man em um parque industrial em Denver. “Esse peso foi retirado delas.”

Hoje, qualquer morador do Colorado com pelo menos 21 anos pode comprar até 28,7 g de maconha em um dos dispensários que começaram a venda para clientes na quarta-feira. Visitantes de outros Estados podem comprar um quarto disso, mas têm de consumi-la no Estado. Transportar maconha para outros Estados continua ilegal, e a planta não é permitida no Aeroporto Internacional de Denver.

Proibição em local público
Na quarta-feira, alguns turistas se perguntavam onde iriam consumir suas aquisições. É ilegal fumar maconha em público, em parques ou em terrenos de camping, e é contra o regulamento de muitos hotéis. Um grupo de Nebraska disse que encontraria um estacionamento e fumaria com as janelas do carro fechadas. Outros disseram que voltariam para seus hotéis e abririam as janelas. Alguns compraram alimentos assados com maconha para evitar o problema.

Kirstin Knouse, 24, saiu de Chicago com seu marido, Tristan, em suas primeiras “férias de maconha”, e disse que o casal fumaria a erva na casa de um primo. Ela disse que sofre de tonturas e fibromialgia e que seu marido de estresse pós-traumático, mas que não conseguiram obter maconha medicinal em sua cidade. Quando o Colorado abriu as vendas para moradores de fora do Estado, eles aproveitaram a oportunidade, disse ela.

“É o nosso sonho”, disse Knouse. “Estamos pensando em nos mudar para cá por isso.”

O sistema de maconha de Washington está pelo menos vários meses atrás do de Colorado, o que significa que prateleiras bem abastecidas talvez sejam uma realidade para os consumidores apenas em junho.

Enquanto o Colorado incorporou o sistema da maconha medicinal existente, Washington está partindo do zero, com toda a produção e a venda de maconha recreativa ligadas a um novo sistema de licenças, que só será emitido no final de fevereiro ou início de março.

“Depois disso, caberá ao setor cuidar do funcionamento das coisas”, disse Mikhail Carpenter, um porta-voz do Conselho de Controle de Bebidas Alcoólicas do Estado de Washington, que regulamenta o sistema e está revisando quase 5.000 pedidos de licença para plantar, processar ou vender maconha.

Os plantadores só podem iniciar uma safra depois de obterem a licença, disse Carpenter, e os comerciantes podem vender somente maconha produzida no Estado por agricultores licenciados.

Futuro
O que acontecerá depois ali será observado por Arizona, Alasca, Califórnia, Oregon e outros Estados, que flertam com a ideia de liberalizar suas leis sobre maconha. Ainda há muitas perguntas. Traficantes de drogas levarão maconha além das divisas estaduais, para vendê-la em outros lugares? A maconha recreativa irá das mãos de consumidores adultos legais para adolescentes? Os impostos das vendas da maconha cumprirão as previsões otimistas de ajuda aos orçamentos estaduais? O que acontecerá com o mercado paralelo?

Mas, na quarta-feira, entusiastas como Darren Austin, 44, e seu filho, Tyler, 21, apenas curtiam o momento. Eles tinham chegado há alguns meses da Geórgia e da Carolina do Norte, respectivamente, e decidiram ficar. O pai disse que a maconha diminui sua ansiedade e o ajudou a deixar a bebida, e o filho afirmou que simplesmente gosta de fumar com os amigos. Na quarta-feira eles dormiram em seu veículo diante de uma loja para garantir o lugar na fila.

“Nós queríamos estar aqui”, disse Darren. “É um fato histórico.”

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Via Uol / The New York Times