Empresa britânica investe no desenvolvimento de remédios com extratos de maconha. Com valor de mercado estimado em mais de um bilhão de dólares, farmacêutica é parte de ascensão da cannabis legal. Plantação de maconha da empresa no interior da Inglaterra é vigiada 24 horas por dia. Confira!

A cidade medieval de Salisbury, no sudoeste da Inglaterra, está inundada de história. Sua majestosa catedral, concluída em 1258, contém o que se acredita seja o relógio mais antigo do mundo em funcionamento, e também um dos quatro únicos originais da Carta Magna. As ruínas pré-históricas de Stonehenge ficam a apenas 13 quilômetros, ao norte.

Mas esta antiga cidade também abriga uma corporação bem moderna. Em um complexo na periferia fica a sede da GW Pharmaceuticals, que não é uma empresa de biotecnologia comum. É provavelmente a mais valiosa empresa de cannabis do mundo.

A GW Pharmaceuticals não vende a erva, mas sim remédios canabinóides a serem adquiridos sob prescrição médica. A empresa, que tem atraído certa atenção da mídia, está listada tanto na Bolsa de Valores de Londres como na Nasdaq, em Nova York. Sua cotação nos EUA subiu 75% nos primeiros três meses de 2014 e 713% desde maio do ano passado, elevando seu valor de mercado para mais de um bilhão de dólares. Tudo isso para uma empresa com vendas de apenas 44 milhões de dólares no ano passado. Essa avaliação otimista decorre parcialmente de uma mudança aparentemente inexorável na direção da legalização da maconha nos Estados Unidos.

sativexpack

Somente neste ano, até agora dois estados dos EUA – Colorado e Washington – efetivamente legalizaram a maconha. A droga também foi aprovada para propósitos medicinais em outros 18 estados, mais a capital, Washington (distrito de Colúmbia), que no total têm uma população de cerca de 117 milhões de pessoas, ou mais de um terço dos norte-americanos. Pelo menos 14 outros estados, incluindo Maryland e Flórida, estão analisando leis que aprovariam a maconha para uso medicinal este ano.

Se por um lado isso está deliciando os usuários de maconha e frustrando alguns grupos anti-legalização das drogas, está também criando um problema peculiar para o órgão de regulamentação farmacêutica do país, a FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos, na sigla em inglês), que nunca aprovou o uso da maconha como um tratamento legítimo. Parte do motivo para o aumento do preço das ações da GW Pharmaceuticals este ano é a crença entre alguns investidores de que a empresa poderá conceder à FDA um meio elegante para sair dessa enrascada.

No ano passado, o spray canabinoide Sativex, da GW, usado para tratar espasticidade (aumento do tônus muscular) causada por esclerose múltipla, foi aprovado para venda em 11 países europeus. Está atualmente na terceira e última fase de testes pela FDA em experimentos separados para tratamento de esclerose múltipla, bem como para uso no alívio da dor decorrente de câncer. Se passar pela Fase III de testes, poderá se tornar o primeiro produto à base de cannabis aprovado pela FDA a chegar ao mercado dos EUA, e proporcionaria uma alternativa ao consumo da erva com propósito medicinal, além da possibilidade de fumá-la ou comê-la. (Existem outros produtos que contêm versões sintéticas de substâncias químicas da cannabis, mas o Sativex é o único a conter extratos das plantas de maconha).

Aperte e Leia: Importação de Sativex traz esperança, mas ainda não é a melhor solução para o brasileiro. Saiba por quê.

“A FDA está numa situação difícil porque alguns Estados estão aprovando a maconha medicinal, e isso é um absoluto pesadelo porque é muito difícil controlar a produção”, comenta o analista de biotecnologia Samir Devani, da WG Partners, consultoria em saúde e tecnologia. “Você pode imaginar a situação da FDA: ‘espere um minuto, isto pode ser a nossa salvação’. Se houver um produto aprovado pela FDA no mercado, então por que você precisa de cannabis medicinal?”

Estudo da RAND Corporation, instituição financiada pelo governo dos EUA que realiza pesquisas para o desenvolvimento de políticas públicas, estima que os americanos tenham consumido 40,6 bilhões de dólares em maconha em 2010, um aumento de 30% em relação à década anterior. Outro estudo, da IBIS World, empresa australiana que realiza pesquisas sobre economia, indústria e mercado, estimou o valor do setor da maconha medicinal nos EUA no ano passado em dois bilhões de dólares, com um crescimento anual de 13,8% desde 2008. Todos os indicadores atestam que o setor da maconha é imenso e cresce rapidamente. Agora, à medida que se torna cada vez mais aceito legalmente, seus empreendedores estão saindo das sombras do submundo e entrando no comércio convencional. Um exemplo: o Wall Street Journal publicou um perfil de Justin Hartfield, provavelmente o mais proeminente magnata da maconha legal nos Estados Unidos. Hartfield administra o weedmaps.com, uma espécie de guia online para dispensários de maconha legal, que teria faturado 25 milhões de dólares no ano passado. Ele também lançou recentemente Ghost Capital, um fundo de capital de risco direcionado para a maconha.

Para investidores comuns, há meios limitados de apostar nessa mudança econômica no consumo. O setor que poderia capitalizar a crescente legalização da maconha é o do fumo em grande escala. As vendas de cigarro vêm declinando consistentemente, e a maconha (bem como os produtos com menos tabaco, como os cigarros eletrônicos), seria uma maneira óbvia de compensar as perdas.

Aperte e Leia: Decisão inédita no Brasil autoriza importação de remédio à base de THC

Ainda assim, apesar de piadas na mídia sobre um hipotético cigarro de maconha da Marlboro, o setor não deu nenhuma indicação de que pretenda vender baseados. Os termos “maconha” ou “cannabis” não aparecem na busca de transcrições de balanços e palestras dos grandes fabricantes de cigarro desde o começo do ano passado. Analistas de tabaco em bancos de investimento contatados pela Quartz não quiseram fazer comentários sobre o assunto. “A maconha continua sendo ilegal pela lei federal, e as empresas da Altria não têm planos de venda de produtos baseados em maconha”, disse no começo deste ano um porta-voz da gigante do tabaco, proprietária da Marlboro e outras marcas.

Há uma série de empresas menores, que produzem medicamentos de venda livre, com ações na bolsa, se promovendo ativamente como companhias do ramo da maconha. Entre elas está a Growlife, que atualmente tem valor de mercado de cerca de 503 milhões de dólares, a, Advanced Cannabis Solutions, de cerca de 570 milhões, e a MedBox, avaliada em 443 milhões.

O que nos traz de volta à GW Pharmaceuticals. A empresa está no mercado desde 1998, cotada na bolsa de valores de Londres desde 2001, e lutou contra o ceticismo dos investidores por quase dez anos. Agora, com o interesse pela maconha em níveis possivelmente sem precedentes, a GW está se beneficiando da escassez de opções legítimas de investimento na erva.

Aperte e Leia: ANVISA nega qualquer registro do Sativex no Brasil

Em um local secreto em alguma parte do sul da Inglaterra, a GW tem instalações de plantio de maconha que produzem 200 toneladas de material bruto e cerca de 20 toneladas de autêntica maconha por ano. (As instalações são supostamente vigiadas 24 horas por dia, e cada planta é marcada geneticamente para permitir seu rastreamento, no caso de algo ser roubado.) Os componentes essenciais dos produtos canabinoides da GW são extraídos cuidadosamente dessas plantas e padronizados. “Não se trata simplesmente de erva comprada na rua e engarrafada”, disse o CEO Justin Grover ao The Guardian, em 2011. “Para obter a aprovação regulatória, nós tivemos de cumprir padrões muito rígidos. Tivemos de garantir que cada frasco de Sativex fosse idêntico a todos os outros.”

A empresa, que firmou acordos de parceria na distribuição com alguns dos gigantes da indústria farmacêutica, como a Novartis e a Bayer, parece ter criado um nicho para ela mesma no espaço canabinoide. “Nós não estamos a par de nenhuma outra empresa que siga a mesma trajetória da GW, tanto no sentido de extrair um medicamento canabinoide de extratos de plantas como no de seguir adiante com o completo procedimento de experimentação clínica regulamentado, de modo a chegar às prescrições farmacêuticas aprovadas”, disse um porta-voz da GW por e-mail.

Em março, a empresa divulgou que estava progredindo nos estágios iniciais de desenvolvimento de produtos canabinoides para tratar de esquizofrenia, diabetes e várias formas de epilepsia. Mas o que mais entusiasma as pessoas é a perspectiva de uma alternativa à maconha medicinal. Devani disse que a GW é “provavelmente a mais bem posicionada para, depois de as barreiras regulatórias caírem, cumprir os requisitos rigorosos que a FDA vai propor”. Seus investidores estão rezando para que essa promessa seja cumprida.

Matéria originalmente publicada no Quartz, site dos EUA que publica reportagens sobre comportamento, política e tecnologia; traduzido por Maria Teresa de Sousa para o Opera Mundi.