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O nosso último papo do ano é uma exclusiva com Katiele Fischer, a mãe da Anny, que conhecemos no doc Ilegal. Além disso, ela esteve em sessões da audiência pública da maconha (SUG8), no Senado Federal, e atuou na luta pela liberação do derivado da canábis para o tratamento da filha.

Katiele e Norberto Fischer, pais de Anny, durante reunião na Anvisa, onde se debate excluir o canabidiol da lista de substâncias proibidas e reclassificá-lo como medicamento.
Katiele e Norberto Fischer, pais de Anny, durante reunião na Anvisa, onde se debate excluir o canabidiol da lista de substâncias proibidas e reclassificá-lo como medicamento.

Katiele iniciou seu ativismo com seu marido, Norberto Fischer, de maneira inusitada. 45 dias de vida após o nascimento da Anny, a menininha começou a ter crises convulsivas e ela foi em busca das formas de tratamento. Foi aí que descobriu que maconha poderia ser o tratamento para a síndrome CDKL5.

Mas no Brasil, a maconha e suas mais de 300 substâncias são ilegais.

Contra o tempo, ela procurou legalmente a prescrição e a liberação da importação do medicamento. Participou da produção do filme Ilegal, que teve uma grande repercussão na imprensa e inseriu a pauta no noticiário nacional – mesmo que sob a mediação das emissoras.

Trailer do documentário

Olá Katiele. Antes de tudo, gostaríamos de agradecer pela oportunidade, parabenizar você pelo prêmio (Transformadores 2015, da Trip) e por conseguir romper uma das tantas barreiras do preconceito que existe no nosso país. Qual é sua profissão?

Paisagista e mãe 24hs (risos)

Qual imagem você tinha da maconha antes de pesquisar sobre seu uso no tratamento da patologia da sua filha?

Negativa, a imagem era ruim, algo que não deveria fazer parte da vida.

Por várias vezes ouvi falar da Marcha da Maconha, mas não gerava interesse o suficiente para reter a atenção, às vezes é preciso uma grande queda para poder enxergar o óbvio.

Assim como eu pensava, muitas pessoas pensam da mesma forma, isso não significa que são piores, apenas que não tiveram a oportunidade de conhecer a realidade por trás dessa planta e não devemos julgá-las por causa disso.

sug8 entra na pauta da sessao deliberativa da cdh desta quarta-feira
A audiência da maconha (SUG8), no Senado aconteceu em 2014. Clique na foto e veja mais artigos relacionado.

Na SUG8, você foi enfática com relação à liberação do canabidiol, mas nem tanto com o THC e o cultivo de canábis. Pode comentar um pouco sobre isso?

Quando ouvi a primeira vez a palavra canabidiol, não fazia ideia que era um canabinoide da maconha, mas, em seguida, soube o que era e de onde vinha. Foi um susto, pois até aquele momento a maconha era uma planta que somente poderia lesar.

O THC e o CBD devem ter o mesmo trato, assim como todos os outros canabinoides que venham a ser necessários. Sempre pensamos e defendemos isso, desde o primeiro momento. Esse posicionamento está claro em diversas entrevistas e no documentário Ilegal.

Fomos enfáticos em relação ao CBD por ser o foco naquele momento. O objetivo era garantir a continuidade dos tratamentos e a estratégia era conseguir reclassificar o CBD o quanto antes, pois já tínhamos a consciência de que uma regulamentação estava longe de se transformar em realidade. Outro aspecto é que o THC ainda enfrentará barreiras políticas e culturais, incluindo um olhar sobre os acordos internacionais do qual o Brasil é signatário.


Durante o período em que você considerou as formas de obter o canabidiol, como avaliou os riscos de fazê-lo? Chegou a cogitar a hipótese de plantar?

Pela urgência, não pensamos muito e resolvemos importar, visto que Anny estava muito mal. Simplesmente fizemos, sabendo que era ilegal e que podíamos arcar com as consequências disso.

Era a vida dela em jogo.

A hipótese de plantar passou sim pelas nossas cabeças, mas com as informações que obtive à época concluímos que não haveria possibilidade.

Sabemos que uma produção caseira não conseguiria garantir a constância de percentuais de CBD e TCH e é necessária uma alta percentagem de CBD para realizar o controle adequado das crises. Nos casos de epilepsia, as variações nos percentuais podem ser um fator desencadeador e, no caso de pessoas hipotônicas (tônus muscular fraco), um óleo com maior percentual de THC é fator de risco por potencializar ainda mais o relaxamento muscular.

Recebi muitas mensagens agressivas dizendo “joga a semente no quintal”, “não importe, plante”, “dá THC para essa menina”, quem conhece sabe que não é simples assim, eu gostaria que fosse, mas não é.

Por enquanto, dependemos dos importados para o tratamento adequado.

Qual é sua relação com o movimento antiproibicionista? Você acompanha as audiências e eventos relacionados a maconha?

Não tenho vínculos com movimentos antiproibicionista e nem os proibicionistas.

Mas, tenho contatos com grupos de ambos os lados, pois acredito que o diálogo é necessário para avançarmos e amadurecemos o assunto no Brasil. Qualquer extremismo é prejudicial, sendo ela do lado religioso ou mesmo de quem defende a planta.

Acompanho as audiências e eventos dentro da minha capacidade física e de tempo, pois sou mãe 24hs e tenho uma menininha especial que demanda muito da minha atenção.

Tenho um carinho especial pela campanha Repense do Tarso Araújo, pois foi graças a ele que conseguimos avançar no assunto e tivemos um pouquinho de voz na mídia.

Certamente sua família precisou enfrentar muitos preconceitos ao longo dessa trajetória. Pode falar sobre isso?

Não tivemos preconceitos de pessoas próximas, todos entenderam e passaram a apoiar a causa.

As Leis, e demais regulamentações, estão alinhadas aos padrões culturais do Brasil, estão revestidas de preconceitos e da necessidade do Estado controlar tudo o que é feito.

Acreditamos que, hoje, mudanças nas Leis ou regulamentações estão suscetíveis a riscos, pois poderão vir ainda mais conservadoras e ampliando as dificuldades.

Esse é um desafio, já que precisamos avançar rapidamente em termos de regulamentação, mas sabemos que a mudança cultural é lenta.

Isso torna a situação da maconha crítica, pois o conhecimento e o entendimento precisa chegar até a sociedade para que isto se reflita no cenário político. E não será “atacando” ou “agredindo” pessoas com opiniões contrárias que ela mudará de opinião e apoiará a causa.

O poder da mídia é indiscutível, os jornais são formadores de opinião.

Avançamos muito graças aos noticiários, mas não temos o controle do que eles publicam, ou do foco que os editores desejam dar. Não foram poucas as vezes que falamos do plantio nacional ou até do auto-cultivo, em casos específicos, e nem uma palavra foi ao ar ou escrita.

Por fim, acredito que o maior desafio está na postura agressiva dos extremistas, pois as mudanças e conquistas virão com o diálogo e não com gritos e ameaças de ambas as partes, ninguém é dono da verdade absoluta.

Você experimentaria tratamentos alternativos, caso se comprovasse que eles podem contribuir com o caso de sua filha? A exemplo do tratamento conhecido como “apenas maconha” (hemp only, em inglês), em que o THC, o CBN, o CBG, terpenos e outros canabinoides não são retirados do medicamento.

Sim.

Quando decidimos usar a Maconha de forma medicinal, apesar de pouco conhecer, estávamos no limite, era uma questão de vida.

No momento, a situação da Anny é outra, e uma tomada de decisão referente a mudar novamente a forma de tratamento, ou até complementá-la, passa a ter outro peso. O cenário é completamente diferente.

katiele-fischer-anny

Em seu ativismo, você conheceu outras mães lutando pelo uso recreativo. Como mãe, você apoia a legalização do uso recreativo ou acredita que apenas deve ser permitido o uso medicinal?

Sim, conheci mães que fazem o uso recreativo.

Meu foco é lutar pelo medicinal e vou continuar a fazê-lo enquanto for necessário. No entanto, não sou contrária a quem deseja fazer o uso recreativo e luta por isto.

Acredito que são causas justas e que necessitam de debates para amadurecer.

Você acha que existem forças políticas ou econômicas que mantêm a política de proibição?

Forças Políticas:
Como disse antes, as atuais leis são resultado da nossa mentalidade cultural.

Se somos uma sociedade com preconceitos enraizados, com certeza encontraremos forças politicas contrarias ao uso.

Forças Econômicas:
É difícil mensurar o quanto interesses econômicos podem estar afetando o avanço ou até a regulamentação, pois isso pode ocorrer de forma direta ou indireta. Não é segredo para ninguém que parte da politicagem no Brasil é pautada pelo dinheiro.

Depois do Fantástico, a luta da familia Fischer passou a ser pauta de toda a imprensa nacional.
Depois do Fantástico, a luta da familia Fischer passou a ser pauta de toda a imprensa nacional.

No documentário Ilegal, você conta que falavam para você que a “maconha era má”. Mas que, depois de Ilegal e do Fantástico, você conseguiu mostrar ao Brasil o seu caso e fazer as pessoas começarem a pensar diferente. Diante disso, você acha que a mídia influencia no que as pessoas pensam?

O poder da mídia é indiscutível, são formadores de opinião e isso pode ser usado para ajudar ou não, vai depender de quem esta por trás do veículo de comunicação, do que ele pensa ou deseja.

Não podemos negar que só conseguimos avançar graças aos noticiários, nosso poder de convencimento e sensibilização veio da exposição que conseguimos com a mídia.

Às vezes, basta uma manchete sensacionalista para chamar atenção das pessoas e até formar opinião sobre um assunto, mesmo sem o devido aprofundamento.

Falando de maconha medicinal, há muitos compostos disponíveis, como os que contém THC na sua composição e são utilizados contra o câncer. O medicamento que começará a ser distribuído no Brasil pelo SUS não contém THC, o que torna a sua compra bastante cara. Na sua opinião, o fato do poder econômico ser determinante para aquisição do medicamento não é injusto com milhões de pessoas que não possuem renda suficiente para adquirir a maconha medicinal?

Pelo que entendi da proposta de lei, não existe limitadores de percentuais para o THC ou CBD dos produtos.

Serão disponibilizados quaisquer medicamentos à base de Maconha autorizados pela ANVISA, importados ou que venham a ser produzidos no Brasil.

Por ser caro, disponibilizar gratuitamente para quem não tem condições de comprar torna a situação um pouco mais justa.

Mas é necessário continuar avançando, pois saúde é um direito do cidadão e não um favor do Estado e todas as opções são bem vindas: importado, produção nacional ou autocultivo.

katiele

Durante a produção do documentário Ilegal, com Tarsó Araújo, você enfrentou alguma restrição de terceiros por estar falando de maconha?

Sim.

Mas nada que um pouco de conversa amigável não resolveu, exceto algumas exceções mais radicais que nem abriam espaço para dialogar.

Algumas caras feias foram inevitáveis, mas cara feia para mim é fome (risos).

Aos poucos estão aparecendo informações sobre o uso medicinal de drogas psicodélicas. Você acha que assim como a maconha, podem existir outros tipos de cura, com outras drogas consideras ilegais atualmente?

Não posso afirmar que a maconha cura a Epilepsia, mas ela garante com certeza qualidade de vida para quem usa.

Assim como a Maconha, que temos que lutar contra o preconceito e ficamos chateadas com as pessoas que não querem nos ouvir. Não podemos fazer o mesmo quando surgem outras drogas, mesmos as psicodélicas.

A ciência avança, ainda teremos muitas surpresas.

A SmokeBud cobre os avanços da maconha no mundo e, em uma das notícias relacionadas ao seu caso, um visitante afirmou em um comentário que a HempMeds Brasil subiu um seu vídeo no canal deles no youtube. Você tem alguma relação com essa empresa?

Sim.

Temos uma relação próxima a Hempmeds. Já são dois anos de uso de seus produtos e contato constante.

Assim como a Hempmeds, temos contato também com outras empresas, tais como: Revivid, Apothecary e CBDRx, inclusive auxiliando essas empresas junto aos órgãos em Brasília e nos processos que envolvem autorização e importação dos produtos.

Em 2014, autorizamos o uso da nossa imagem no site da Hempmeds Brasil, mas solicitamos pouco tempo depois a retirada, pois o uso foi mal interpretado.

Não vejo nenhum problema nessa relação ou até no uso da imagem, mas como recebemos tantos ataques e ameaças, achei prudente solicitar a retirada que foi feito logo em seguida.

Inclusive, gostaria MUITO de ter a oportunidade de conhecer as plantações, os processos envolvidos e até mesmo essas empresas.

Qual é sua opinião sobre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)?

Na minha percepção, existem duas ANVISA, uma técnica e uma política.

O papel da ANVISA é fundamental, mas sua atuação acaba sendo às vezes comprometida pela influencia política nas decisões da Diretoria Colegiada e pela capacidade da equipe técnica em ter que abordar tantos diferentes assuntos.

Isso afeta diretamente a atuação adequada da ANVISA em seu papel de agência sanitária.

Acredito que deveria ser criada uma secretaria especial, ou uma diretoria especifica no âmbito da ANVISA, ou até mesmo uma agência reguladora independente, para a Maconha.

Você acompanha o julgamento do STF, popularmente conhecido como #DescriminalizaSTF? Você concorda em legalizar todas as drogas? Qual é sua opinião sobre o assunto?

Pensa num assunto delicado (risos).

Fui a convite de uma amiga conversar com o Ministro Luiz Fux sobre o assunto, com objetivo de mostrar um pouco a ótica de uma mãe envolvida no tema. Confesso que pouco contribui com a opinião já formada do Ministro, mas acho que esse é o nosso papel enquanto sociedade, aproveitar todas as oportunidades para demonstrar os valores em que acreditamos.

Pelo que observo nos noticiários, nas redes e no dia-a-dia, a criminalização das drogas da forma como está não tem demonstrado resultados positivos.

Como está a sua filha hoje?

Dentro dos limites impostos pela síndrome CDKL5 ela está muito bem, rola pra todo lado, come bem, está ativa e alerta.

Ainda tem algumas crises, mas nem de longe lembra a situação antes do CBD.

Você pretende continuar no ativismo, dessa vez para que a maconha possa ser pesquisada e estudada?

Nunca pensei em parar apesar, dos ataques dos extremistas ativistas e dos religiosos, até por que não tem como, vivemos a maconha em nosso lar todos os dias, a vida da Anny depende disso.

Converso todos os dias com famílias em todo o Brasil, pessoas que precisam de algo que possa trazer um pouco de esperança, mais uma opção de tratamento.

Tenho contato com pesquisadores, médicos, terapeutas, estudantes, pessoas comuns que querem trocar experiências e informações sobre a maconha.

Precisamos de pesquisas sobre as interações medicamentosas, das aplicabilidades, doses, variação de plantas, percentuais da canabinoides, efeito comitiva, entre outros.

A maconha entrou em nossa família para sempre, trouxe melhoras para Anny e mudou o rumo das nossas vidas.

Pra finalizar, gostaríamos de agradecer novamente e, já em clima de ano novo, qual é seu desejo para Brasil em 2016?

Para Anny desejo que ela continue melhorando, que não tenha crises, que volte a andar e me chamar “mamamama” de manhã cedo quando acorda.

Para minha família que tenhamos força para continuar na luta e que consigamos ajudar um pouco mais. Estamos há apenas dois anos envolvidos, mas existem pessoas que lutam há vários anos, tem as Marchas da Maconha e tantos outros eventos isolados que podem ajudar que o assunto ganhe ainda mais maturidade no Brasil.

E que o Brasil regulamente a maconha e tenhamos a primeira produção nacional oficial autorizada ainda em 2016.

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