Galpão encontrado em Lleida em março, usado para a produção de maconha. / CNP
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A Europa produz maconha de forma industrial, em quantidade suficiente para satisfazer cerca de 60% do consumo e reduzir a dependência de outros continentes, como informa reportagem do jornal El País.

A Europa produz maconha de forma industrial. Produz em quantidade suficiente para satisfazer uma parte importante de sua demanda (ao redor de 60% segundo algumas fontes) e reduzir sua dependência de outros continentes. Durante os últimos cinco anos se consolidou uma revolução silenciosa no narcotráfico, até o ponto de fomentar um mercado interior europeu com seu fluxo de importações e exportações.

O fenômeno também afeta a Espanha, onde a produção pelo menos quintuplicou e o confisco de plantas de cannabis (maconha) cresceu ao redor de 52% entre 2009 e 2013, segundo dados do Ministério de Interior. Nas cinco províncias mais afetadas foram confiscadas mais de 105.000 plantas apenas em 2013. Há uma década, um especialista advertiu sobre a futura evolução de uma droga europeia e a batizou com o nome de eurocannabis.

Aquela menção à eurocannabis, que alguns tacharam como uma projeção um tanto alarmista, se consolidou. A melhoria genética de alguns tipos de sementes, os avanços na tecnologia dos cultivos hidropônicos (sem terra), a existência de plantas menores capazes de gerar entre quatro e seis colheitas por ano com produções de maior qualidade brindam uma “vantagem competitiva” às hortas nativas. Consequência disso, o cultivo de cannabis se generalizou na Europa, a produção se triplicou em cinco anos e afeta 26 países europeus. Segundo a Europol, foram confiscadas mais de sete milhões de plantas em 2012.

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Mais cannabis no ar de Malága

Já faz um tempo, um suboficial da Guarda Civil procurou a Faculdade de Biologia da Universidade de Málaga. Queria conhecer a opinião daqueles que fazem medições de partículas suspensas no ar de Málaga. Entre elas, o pólen de cannabis. Dessas medições, foi descoberto uma tendência ao aumento deste tipo pólen nos três últimos anos, e não é explicada pela presença de ventos. Pode indicar a existência de cultivos próximos. “Não podemos ir além desta conclusão”, comenta a professora Trigo. Málaga foi a segunda província em número de plantas de cannabis confiscadas durante 2013.

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Existem indicadores suficientes para afirmar que a Espanha não apenas se incorporou ao grupo de produtores, mas também ao de exportadores de maconha. Os dados do interior são ilustrativos: a soma das plantas de maconha confiscadas nas cinco províncias mais afetadas (Murcia, Málaga, Granada, Alicante e Valência, por esta ordem) supera as 105.000 durante o ano de 2013. As operações que começaram descobrindo pequenos viveiros caseiros evoluíram até chegar a instalações quase industriais, detrás das quais há atores que operam com uma ideia de negócio.

Tanto a polícia quanto a Guarda Civil não possuem muitas informações sobre o perfil dos agricultores. Tivemos casos de produtores locais sem relação com distribuidores estrangeiros, mas também de produtores estrangeiros (holandeses e britânicos) estabelecidos na Espanha. “A investigação destes casos é muito mais complexa”, comenta um tenente da Guarda Civil em Málaga, “porque estas organizações são muito pequenas e não precisam do número de colaboradores nem a complexidade de uma operação de transporte de haxixe, por exemplo. O mesmo produtor pode fazer quase todas as tarefas”, explica o oficial, “não precisa cruzar o Estreito nem nada parecido: coloca a produção em um carro ou em um caminhão e a leva até seu destino. No máximo, precisa de algumas pessoas para vigiar a propriedade ou o galpão.”

Os agentes consultados reconhecem a “vantagem competitiva” dos produtores locais pela eliminação de intermediários em uma parte da cadeia, o que aparece nos relatórios. “Os agricultores dos tradicionais países produtores de cannabis”, diz a Europol, “não recebiam mais que uma modesta porcentagem do preço final pago pelos consumidores europeus. No entanto, os produtores europeus chegam a ganhar quase 50% da renda.” Também existe outro fator, que é o preço: o grama de maconha subiu de 3,58 euros a 5,02 em quatro anos, enquanto que o grama de haxixe (a resina da planta de cannabis) permaneceu estável. Essa estabilidade nos preços é explicada pelos especialistas da Europol como outro indicativo da concorrência imposta pela eurocannabis, que está se apoderando de mercados antes quase exclusivos do haxixe procedente do Marrocos. A evolução dos confiscos também aponta uma evidente queda: dos mais de 700.000 quilos nos anos 90 a pouco mais de 300.000 na atualidade.

[pull_quote_left]O “eurocannabis” está se apoderando do mercado de haxixe do Marrocos[/pull_quote_left]

A geografia do novo mercado europeu ainda é imprecisa, porque as estatísticas são muito recentes, a coleta de dados não está homologada e coexistem cultivos em viveiros e cultivos de exterior, estes mais extensos em países do sul da Europa, entre eles a própria Espanha, onde às vezes se ocultam entre plantações de milho ou outros produtos agrícolas.

Os especialistas coincidem que os dois maiores produtores de maconha são Holanda e Reino Unido, onde se localizaram maior número de plantações. Atrás ficariam, só em 2012, Polônia e Bélgica, onde foram descobertos entre 1.200 e 1.500 centros de produção. O caso belga tem sua explicação: por causa de algumas mudanças legislativas que penalizavam o cultivo, os produtores holandeses transferiram algumas de suas plantas para a Bélgica, para depois importar a produção para suas coffee shops.

[pull_quote_left]Parte da produção espanhola é exportada para a Holanda e Reino Unido[/pull_quote_left]

O mercado cria algumas circunstâncias curiosas. Na Hungria, o consumo de maconha procede de distribuidores de nacionalidade vietnamita que espalharam os cultivos em algumas zonas da Eslováquia, República Checa e Polônia. Assim, tanto a Eslováquia quanto a República Checa se converteram em países exportadores para, entre outros lugares, a Alemanha. A polícia destaca a existência de organizações de cidadãos vietnamitas dedicados ao cultivo de maconha em viveiros. Além do caso citado, foram encontradas organizações de cidadãos vietnamitas na Bélgica, Alemanha, França e Reino Unido. Trata-se de grupos com uma estrutura muito fechada e hierarquizada, que dispõem de especialistas próprios, como eletricistas, encanadores e jardineiros, e exploram imigrantes ilegais para o resto das funções.

O mercado europeu da cannabis “mudou radicalmente”, conclui um relatório da Europol. “Hoje se consome mais maconha que haxixe na União Europeia. Cada vez mais, a maconha é produzida nos mesmos países onde é vendida e consumida. Com o aumento da produção, apareceram sinais de que ela também é exportada a países vizinhos.”

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