Maconha, esquizofrenia e o paradoxo ético dos psiquiatras que são contra o uso Medicinal da Maconha

No Brasil, as evidências relacionando quadros psicóticos e o uso pesado de maconha por adolescentes vêm sendo colocadas de forma um tanto alarmista em declarações feitas, entre outros, pelos psiquiatras, Dr. Ronaldo Laranjeira e Dr. Valentim Gentil e pela psicóloga Marisa Lobo, os quais frequentemente dão a entender, erroneamente, que a maconha causa esquizofrenia.

Tal atitude equivocada coloca em oposição os interesses legítimos e não excludentes de grupos totalmente distintos e igualmente merecedores dos cuidados e da atenção de profissionais da saúde e daqueles que detém conhecimento cientifico a respeito das propriedades farmacológicas da maconha e de seus derivados.

Renato Malcher no CID 2013 (Foto LF Tófoli)
Renato Malcher no CID 2013 (Foto LF Tófoli)

De um lado, existe uma minoria, menos de 1% da população, que possui predisposição para a apresentação de quadros psicóticos e esquizofrenia, os quais, de fato, podem ser negativamente afetados pelo uso da maconha. Do outro está um numero enorme de pessoas que podem se beneficiar das propriedades terapêuticas da maconha, incluindo inúmeras que já padecem de sofrimentos severos para os quais não existem disponíveis remédios tão eficientes quanto a maconha e seus derivados. É contra estes últimos, e não a favor dos primeiros, que funciona a difusão alarmista deste erro de interpretação científica.

A despeito de suas intenções, esta postura obscurece a difusão de informações científicas acuradas e, portanto, não apenas priva pessoas em grande sofrimento de um alívio barato, eficiente e seguro, mas também prejudica o acesso da população a informações e condições que poderiam prevenir o problema de surtos psicóticos associado ao uso pesado de maconha na minoria susceptível.

Resumidamente, o que se constatou cientificamente foi: 1) a maconha é frequentemente usada por esquizofrênicos, que tendem a preferi-la sobre outras drogas; 2) o uso de maconha pode adiantar em cerca de dois anos a ocorrência do primeiro surto em pessoas esquizofrênicas ainda não diagnosticadas; porém 3) o aumento de uso de maconha numa dada população não redunda em aumento na frequência de esquizofrênicos na mesma.

É correto afirmar que um número significativo de pessoas que desenvolvem quadro esquizofrênico fazia uso pesado de maconha antes de ter o primeiro surto. Mas isto não significa causalidade porque, em geral, maconha inibe a ansiedade e pessoas que desenvolvem quadro psicótico frequentemente sofrem de ansiedade antes de serem diagnosticadas, ou seja, na fase prodrômica da doença. De fato, é comum que o primeiro surto da vida de uma pessoa eventualmente diagnosticada como esquizofrênica ocorra durante um período marcado por crises de ansiedade. Pesquisas feitas no Canadá revelaram que um terço das pessoas que fazem uso regular da maconha sem indicação médica o fazem para aliviar sintomas de ansiedade de forma auto-medicamentosa.

Dentre estes, certamente haverá uma concentração de adolescentes que sofrem de ansiedade por serem esquizofrênicos, mesmo que ainda não tenham tido o primeiro surto. Ou seja, que ainda estão na fase prodrômica da doença. Quando experimentam maconha e percebem alivio nos sintomas, estes adolescentes passam a gostar e buscar o bem-estar proporcionado pela planta da mesma forma que qualquer pessoa busca aliviar seus sofrimentos com fitoterápicos ou remédios vendidos na farmácia. Quanto maior for a diferença entre uma rotina de sofrimento crônico pela ansiedade e o conforto experimentado com o uso da maconha, maior será a tendência do indivíduo a fazer seu uso crônico e pesado.

De uma forma geral, jovens em desenvolvimento devem evitar o uso da maconha, pesado ou não. Porém, o que se pode mais adequadamente afirmar a partir das informações científicas disponíveis, é que adolescentes que usam maconha pesadamente para aliviar ansiedade provavelmente são pessoas com distúrbios psicológicos / psiquiátricos não diagnosticados e que, imprudentemente, se automedicam com a planta. Mas é um erro afirmar que 10% ou X% dos adolescentes que fazem uso pesado se tornam esquizofrênicos por causa da maconha.

Note-se, entretanto, que mesmo pessoas normais podem experimentar quadros paranoides em decorrência do uso da maconha. Situação em que o indivíduo sente uma apreensão indefinida acompanhada de desconfortos fisiológicos característicos deste estado psicológico, tais como taquicardia, respiração ofegante e suor nas mãos. Dependendo das circunstâncias emocionais, esta apreensão pode ser direcionada a preocupações comezinhas do dia a dia, que tomam a intensidade emocional de um pesadelo angustiante. Uma sensação generalizada de medo também pode ocorrer. Na grande maioria das pessoas, este efeito é passageiro e não há alucinações, perda de consciência ou alterações comportamentais que melhor caracterizem um surto psicótico propriamente dito. Essas “nóias”, em geral, mas não necessariamente, acontecem quando a pessoa está psicologicamente predisposta a preocupações e faz uso de uma variedade de maconha cuja proporção de THC é muito maior que a de canabidiol.

Tais efeitos não são comuns em variedades com maior proporção de canabidiol. Isto porque o THC pode causar ansiedade e conduzir, junto com seus os outros efeitos psicoativos, ao quadro paranoide descrito acima. O canabidiol, por outro lado, reduz a ansiedade e inibe a psicose. Ao fumar uma maconha com baixa concentração de canabidiol ou ao ingerir uma pílula de THC puro, uma pessoa normal poderá passar por essa situação psicologicamente angustiante sem maiores consequências quando os efeitos agudos do THC passarem. Entretanto, para uma pessoa esquizofrênica ainda não diagnosticada, esse quadro paranoide pode ser o gatilho de passagem da fase prodrômica para o primeiro surto psicótico de fato. Em especial, pesquisas indicam que há alguma influência de fatores genéticos que tornam algumas pessoas mais sensíveis a este efeito do THC.

Assim, havendo a pressuposta divulgação de informações CORRETAS, uma postura mais racional e ética com relação à maconha poderia, de fato, evitar expor adolescentes em fase prodrômica às situações descritas acima. A educação e a regulamentação do acesso a variedades com concentrações conhecidas de canabinóides seria a forma mais responsável de prevenir tais problemas para quaisquer usuários. Além disto, a descriminalização possibilitaria a correta assistência de adolescentes em fase prodrômica, assumindo-se o uso pesado como um possível indicativo diagnóstico. Paradoxalmente, portanto, o discurso protetor alarmista é cúmplice dos efeitos indesejáveis que o abuso de maconha pode causar em esquizofrênicos em fase prodrômica, sejam eles adolescentes ou adultos. E é cúmplice também do sofrimento, injustificável sob qualquer aspecto, que a proibição do uso médico impõe a pessoas com quadros dos mais diversos.

Por Renato Malcher,
Via Banco de Injustiças

 

Renato Malcher é Mestre em Biologia Molecular, doutor (Ph.D) em Neurociências. É professor adjunto do Departamento de Fisiologia da Universidade de Brasília e autor do livro “Maconha, Cérebro e Saúde” escrito em colaboração com o neurocientista Sidarta Ribeiro.