Depois de muita proibição e repressão, por anos, o mundo começa a dar passos pela legalização da maconha, tanto para fins medicinais quanto para uso recreativo. Primeiro o Uruguai, em 2013, e depois o Canadá, em 2018, já fizeram isso. A matéria originalmente é escrita pelo Marcelo Tuvuca, do UOL Brasil.

E essa onda de aceitação da cannabis atinge também os Estados Unidos, o país que comandou o combate à maconha no século 20.

Primeiro, os números de 2018: mais da metade dos norte-americanos já têm acesso à maconha de forma regularizada, para fins medicinais ou mesmo recreativos.

Dez estados (incluindo o Distrito de Colúmbia, da capital Washington) permitem esse último uso, que coloca a erva no mesmo status de outras drogas permitidas no país. Entre esses estados, está o maior de todos, a Califórnia, que concentra 12% da população.

Outros 20 locais, incluindo Nova York, Flórida, Pensilvânia e Illinois, já regularizaram a maconha estritamente para fins medicinais. A soma desses 30 estados representa 62% da população do país.

Nos últimos anos, 17 estados se abriram para essa discussão: permitiram o uso médico do canabidiol (CBD), com baixo THC. Ao contrário do THC, o CBD é uma substância da maconha que não tem efeito psicoativo e é legal no Brasil desde 2015. Ele não entra na conta justamente por sua restrição ao THC, mas mostra o passo um pouco mais discreto de outra parte do país –majoritariamente conservadora, no sul– em torno da aceitação da cannabis.

Hoje também há muito mais pesquisas e conhecimento sobre os efeitos reais da maconha no organismo. Há indícios de que seu potencial viciante é mais baixo do que em drogas legalizadas como álcool e tabaco e não há informações sobre mortes de consumidores de maconha por overdose da erva.

Mas também há suspeitas de que a maconha possa agravar doenças psiquiátricas, como esquizofrenia, além de prejudicar a formação de memórias no cérebro e a concentração e aumentar o risco de acidentes para quem estiver dirigindo sob efeito da substância.

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Se hoje há uma discussão mais científica sobre o assunto, nem sempre foi assim.

Consumo e repressão
O mundo consome maconha há milhares de anos. Há relatos do uso da erva como planta medicinal na China no século 15 a.C., e no Egito antigo no século 12 a.C., para tratar inflamações gerais.

E esse uso chegou também à América do Norte. A enciclopédia medicinal americana, chamada de “farmacopeia”, de 1850 recomendava a maconha para problemas intestinais, sangramentos e vícios como o alcoolismo.

Mas aos poucos essa situação foi mudando e, nas primeiras décadas do século 20, a maconha passou a ser vista como uma droga perigosa. Os Estados Unidos, assim como o Brasil, proibiram a maconha na década de 1930 quando políticos, autoridades e parte da sociedade começaram a relacionar a erva a loucura e comportamentos violentos –ainda sem base nos estudos científicos que, anos depois, investigariam essas questões com mais profundidade.

Nas décadas seguintes, fumar maconha foi ficando cada vez mais arriscado e virou motivo de prisão em alguns estados americanos. A coisa ficou pior quando o presidente Richard Nixon assumiu a Casa Branca e seu governo elaborou o chamado Ato sobre Substâncias Controladas de 1970, que classificou a maconha como uma droga viciante semelhante a heroína e LSD.

Nessa época, posse, cultivo e venda de marijuana eram proibidos nos 50 estados americanos e no Distrito de Colúmbia.

Chris Roussakis/AFP

Mulher levanta bandeira estilizada do Canadá com a folha de maconha em Ottawa

Mas nesses anos todos o consumo de maconha nos Estados Unidos continuou em alta, principalmente entre os jovens, com a disseminação da erva nos campi de universidades e o uso geral e escancarado em festivais culturais como o Woodstock, no interior de Nova York, em agosto de 1969.

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O debate sobre o valor medicinal da marijuana também se manteve firme nesse período. Em 1976, Robert Randall conquistou, na Justiça, o direito de usar maconha para tratar os sintomas de glaucoma, se tornando o primeiro paciente norte-americano em décadas a ser oficialmente tratado com a substância.

Aos poucos, alguns estados começaram a afrouxar a proibição. Em 1978, 12 deles já haviam descriminalizado a erva, evitando, por exemplo, que os usuários fossem para a cadeia quando flagrados portando maconha.

Demorou até 1996 para a Califórnia derrubar as barreiras e se tornar o primeiro estado a efetivamente legalizar a maconha para fins medicinais. Dez anos depois, em 2006, o mapa americano já tinha 11 estados com uso medicinal de maconha regularizado.

E aí a porteira abriu de vez. Em 2012 Colorado e Washington foram os primeiros a legalizar o uso recreativo da maconha, para alegria de ativistas e usuários em geral, em um movimento decisivo para a aceitação da marijuana na sociedade norte-americana. Desde então, oito estados expandiram o alcance da maconha para uso recreativo.

Sem contar os já citados 20 estados com uso de maconha restrito para fins medicinais, e de outros 17 com permissão apenas para o CBD, restam quatro locais sem regularização da cannabis. Um deles é o Nebraska, onde a maconha é descriminalizada desde 1978 para usuários flagrados com a erva pela primeira vez, e três lugares onde as leis são mais duras: Idaho, Kansas e Dakota do Sul.

Pelo menos por enquanto. Ativistas, defensores do uso medicinal e políticos mais liberais pressionam cada vez mais por um maior relaxamento das leis envolvendo a cannabis, acelerando essa onda de aceitação no território americano. Uma atitude muito baseada no que essa indústria hoje movimenta. Estima-se que o mercado legal de cannabis nos Estados Unidos já atinja os US$ 10 bilhões.

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