O EUA estão retirando suas tropas do Afeganistão num cenário nada animador: perdendo a batalha contra a indústria de narcóticos do país, um dos maiores fracassos da estratégia elaborada em 2009 pelo governo Barack Obama para virar o jogo na guerra às drogas no país do Oriente Médio.

O investimento americano de quase US$ 7 bilhões desde 2002 não foi suficiente para combater o mercado de ópio afegão, que cresce impulsionado pela demanda e por uma insurgência que tem se tornado cada vez mais protagonista no comércio, de acordo com autoridades policiais e especialistas. Com a guerra arrefecendo a economia local, as papoulas de ópio – matéria-prima da heroína – podem desempenhar um papel cada vez maior no comércio e na política do país, minando dois dos principais objetivos dos Estados Unidos: lutar contra a corrupção e enfraquecer a ligação entre a insurgência e o tráfico de drogas.

Pela primeira vez em anos, o Exército afegão optou na última primavera em não para fornecer segurança para as equipes de erradicação em regiões-chave, abdicando de uma perigosa missão que tem amargurado a população rural, que depende do cultivo das papoulas para a subsistência.

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Agricultores afegãos colhem ópio bruto em um campo de papoulas no distrito de Khogyani, no leste de Cabul, em maio. Produto é a matéria-prima para fabricação da heroína Rahmat Gul / AP

De acordo com especialistas, os esforços feitos na última década para conter o cultivo foram impedidos pela insegurança arraigada em grande parte do país, a pobreza, e a ambivalência – às vezes, conivência – da classe dominante do país. Faltando poucos meses para a eleição presidencial, a vontade política para se implantar iniciativas antidrogas é fraca entre os membros da elite afegã, aponta Jean-Luc Lemahieu, que dirige o Escritório das Nações Unidas contra as Drogas e o Crime (UNODC, na sigla em inglês) no país.

Com a retirada das forças americanas do Afeganistão – após um pico de 100 mil soldados, hoje existem cerca de 51 mil homens no país -, os insurgentes lutam para recuperar o terreno perdido na província de Helmand, no epicentro da indústria de papoula do Afeganistão.

No último relatório enviado ao Congresso americano sobre os progressos no Afeganistão, o Pentágono alertou que a safra de papoula em 2013 deve ser “consideravelmente” maior do que a de 2012, devido a temperaturas mais amenas, à redução das tropas da Otan e ao aumento do preço do produto.

Especialistas e diplomatas ocidentais em Cabul dizem esperar que o próximo relatório do UNODC, que deve ser divulgado na próxima semana, mostre uma dramática expansão do cultivo a partir de 2012, quando a agência estima que 154 mil hectares foram utilizados para a colheita da papoula.

Haroon Rashid Sherzad, vice-ministro de Combate aos Narcóticos do Afeganistão, afirma que chegar às raízes do problema da droga no país levaria uma geração e exigiria uma ampla cooperação regional:

– A minha preocupação é se a comunidade internacional percebe a importância deste problema para a estabilidade e a segurança globais. Eles devem entender que a economia da droga está alimentando o terrorismo e desestabilizando a região e a aldeia global. Ela está apagando as conquistas dos últimos dez anos.

Logo após a eleição de Barack Obama em 2008, enquanto seu governo ainda avaliava o pedido do Pentágono para enviar dezenas de milhares de tropas adicionais para conter o agravamento do conflito, a Casa Branca decidiu rever a sua abordagem de combate às drogas no país invadido. Até então, os Estados Unidos e seus aliados no Afeganistão faziam vista grossa para as relações entre a produção de papoulas e os senhores da guerra que eles apoiavam.

A Agencia Antidrogas americana (DEA, na sigla em inglês), que tinha pouco mais de dez agentes no Afeganistão, enviou outras dezenas de especialistas para a zona de guerra, incorporando pequenas equipes às bases militares americanas. A ligação entre o comércio de drogas e a insurgência deixou os funcionários da DEA assustados. Líderes do Talibã vinham há algum tempo taxando os produtores de papoula, mas ainda assim cada vez mais rebeldes estavam comandando laboratórios de drogas e redes de contrabando.

– No começo, eles viam isso como um meio para atingir os seus fins, como uma fonte de financiamento. Mas como frequentemente acontece com as drogas, ela acabou corrompendo-os. Você ganha dinheiro, poder e influência. Tudo isso através do tráfico de drogas, sem contar as casas e carros de luxo – explica um alto funcionário da DEA, que prefere não se identificar.

O Departamento de Estado americano financiou iniciativas de erradicação manual das papoulas, que foram executadas por funcionários das províncias. O órgão também estabeleceu um sistema de recompensas financeiras para os governadores das províncias que conseguissem se livrar do ópio ou tivessem quedas significativas no cultivo. A Agência americana para o Desenvolvimento Internacional, por sua vez, lançou programas para aumentar o incentivo de culturas alternativas.
Hajji Sha Wali, um ancião da província de Helmand, afirma que os plantadores de papoula a princípio ouviam as propostas de Cabul e de funcionários internacionais, sugerindo que eles plantassem culturas alternativas.

– Eles nos disseram que iriam nos dar alternativas, construir pontes, mas não cumpriram essas promessas – diz Wali, acrescentando que um número cada vez maior de afegãos está se voltando para a prática por necessidade ou coerção. – As pessoas são muito pobres, e os custos estão aumentando a cada dia. Enquanto isso, as forças de oposição armada estão ensinando as pessoas a plantar papoula, para que possam ganhar dinheiro com isso.

Via O Globo