O ex-presidente Julio María Sanguinetti, 77, que comandou o Uruguai por duas vezes, de 1985 a 1990 e de 1995 a 2000, é um dos críticos à regulamentação da venda e do cultivo da maconha no país sul-americano. Para ele, o projeto é improvisado.

“Hoje há um clima festivo sobre isso, mas muitos estudos mostram as consequências do uso da maconha na saúde, como a perda de memória”, afirmou por telefone à Folha, de Montevidéu.

Filiado ao Partido Colorado, de oposição, Sanguinetti diz que a aprovação da lei no Uruguai irá “banalizar o consumo” da droga. “Estamos controlando o fumo, queremos controlar o álcool e aí permitimos a maconha?”

O Uruguai pretende votar em seis meses lei que visa combater o consumo excessivo de álcool no país. O projeto, que ainda será debatido, pretende aumentar os impostos sobre as bebidas e proibir a venda entre as 22h e as 8h, entre outras coisas. Em relação ao tabaco, o país foi o primeiro da América a proibir o fumo em locais fechados.

O político, que também já ocupou cadeiras no Senado e na Câmara, rechaça o argumento governista de que a legalização da maconha vá combater o tráfico e melhorar a segurança. “O grande problema nessa área é a pasta-base de cocaína. E ela vai continuar a ser vendida no terreno da ilegalidade.”

O ex-presidente publicou em outubro um artigo no jornal argentino “La Nación” com o título “Maconha, sim ou não?”, no qual aproveita para dar algumas cutucadas no atual presidente, José Mujica: qualifica a proposta como uma de suas “ocorrências habituais” e chama de “extravagantes” declarações do líder uruguaio sobre o tema.

As críticas sobraram também para personalidades que abraçaram publicamente a causa de Mujica. “Lamentavelmente, gente séria do mundo internacional que deseja discutir a legalização da maconha se mostrou favorável à proposta, sem saber como foi malfeita e com pressa. Por exemplo, nossos estimados amigos Mario Vargas Llosa e Fernando Henrique Cardoso”, escreveu. “Os dois são meu amigos, conheço-os bem, mas desculpe, eles não me convenceram”, diz.

Mesmo crítico ao governo, Sanguinetti reconhece um mérito no trabalho do atual presidente: “Ele conseguiu manter a estabilidade econômica.Mas tem fracassado em muitos assuntos, como a educação e segurança”.

TRADIÇÃO LIBERAL

Quando senador, Sanguinetti votou a favor de leis como a descriminalização do aborto e o casamento gay. Para ele, o Uruguai está à frente de outros países nessas questões porque possui uma grande tradição liberal. “Em 1876, virou lei a escola pública obrigatória. Em 1905, nós aprovamos o divórcio.”

Por LÍGIA MESQUITA de Buenos Aires, via Folha de S.Paulo