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O UmDois entrevistou o Drauzio Varella e ele falou TUDO SOBRE MACONHA

O canal mais maconheiro da internet brasileira conseguiu fazer um super quadro com o Drauzio Varella respondendo tudo sobre maconha e questões que todo mundo que assistiu a série dele – “Drauzio Dichava” e ficou com vontade de saber.

https://www.youtube.com/watch?v=VAP-rbUMNmc

A entrevista do Mituo foi demais e com certeza esse é um marco para os maconhistas brasileiros, o médico mais famoso do Brasil reconhecendo em primeiro os avanços da maconha e segundo aceitando participar de um canal notoriamente canabista.

Vida longa ao UmDois!

 

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Curiosidades Especiais

Drauzio Dichava: Dr. Drauzio Varella lança série falando só sobre maconha

O doutor mais conhecido do Brasil, Dr. Drauzio Varella vai começar uma série só sobre maconha. A série Drauzio Dichava, que terá lançamento no dia de hoje – 22 de abril, pontualmente às 4:20 vai abordar o uso adulto da maconha (antes chamado de “uso recreativo”). Não somente do ponto de vista científico e de saúde, mas analisando também os impactos sociais da política que envolve a cannabis. Vamos dichavar este assunto.

“Há 12 mil anos, já havia maconheiros no planeta”, assim começa o vídeo o médico mais reconhecido no país ao abordar um tema que é tendência mundial: a regulamentação da maconha.

São cinco episódios, lançados simultaneamente (colocamos todos nesse post), a nova série do Portal Drauzio Varella no entanto o episódio “O Jardineiro Fiel” que deveria ser o quinto e ultimo episódio da séria Drauzio Dichava vazou acidentalmente no UOL, o episódio em questão mostrava a realidade de uma pessoa que cultiva e vende maconha, que se autodenomina um agricultor-comerciante, mas que perante a atual lei de drogas seria preso como traficante.

O episódio conta com pessoas importantes como o historiador Mauricio Fiore, do Cebrap – Centro Brasileiro de Análise Planejamento, o Dr. Emílio Figueiredo, advogado da Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas.

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Notícias sobre maconha Opinião

Drauzio Varella, José Gomes Temporão, Jairo Bauer e outros especialistas pedem descriminalização das drogas em manifesto

Na lista com mais de 200 profissionais, se destacam o ex-ministro da Saúde (Temporão), o presidente da Fiocruz (Paulo Gadelha), o psiquiatria da Unicamp, Luís Fernando Tófoli, e diversos outros especialistas em suas áreas. Todos eles unem sua voz para pedir: Descriminaliza STF! As informações são do O Globo.

SÃO PAULO – Na véspera de o Supremo Tribunal Federal (STF) realizar uma votação para decidir se portar drogas para consumo pessoal no Brasil continuará ou não sendo crime, um grupo de profissionais de saúde e estudiosos divulgou, nesta terça-feira, um manifesto a favor da descriminalização.

São mais de 200 assinaturas de pessoas como o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, do presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha; o vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), Mauro Gomes Aranha de Lima; o médico oncologista Drauzio Varella e o psquiatra Jairo Bouer. O texto destaca que, do ponto de vista epidemiológico, as pessoas com problemas ocasionados pelo uso de drogas são exceção. Diz ainda o manifesto que nenhuma evidência sustenta a afirmativa de a descriminalização do porte em outros países gerarou aumento no consumo de drogas ilícitas.

O manifesto cita como exemplo a campanha educativa e preventiva em relação ao uso do tabaco no Brasil, dizendo que não é necessário impor aos dependentes medidas de natureza penal para chegar aos resultados desejados de redução no consumo.

Para o professor de Psiquiatria da Unicamp Luís Fernando Tófoli, um dos elaboradores e signatários do manifesto, o documento tem base científica – utiliza de conclusões de estudos promovidos em países da Europa, da América Latina e nos Estados Unidos. O psiquiatra chama a atenção para a necessidade de se garantir aos usuários direitos e parar de estigmatizá-los.

– Há várias declarações saindo na imprensa, de autoridades dizendo coisas contra a descriminalização que não têm base científica. A intenção foi emitir um documento que tivesse embasamento. Por conta muitas vezes do chamado pânico moral no Brasil, se confunde descriminalização com legalização das drogas. É preciso ter clareza em relação a isso – diz Tófoli, que acrescenta:

Há duas questões relevantes, a do direito de liberdade individual do usuário e o do usufruto do próprio corpo. Segundo, é necessário quebrar o estigma de que a pessoa que está usando droga é criminosa e precisa de tratamento. Isso é minoria.

Segundo o manifesto, o endurecimento das leis de drogas contra os usuários pode implicar em danos à saúde pública “porque distancia as pessoas que usam drogas dos sistemas de saúde e de assistência social”. O texto ainda afirma que a desigualdade social está mais associada à violência do que a descriminalização.

‘Questão complexa e divisiva’

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF) admitiu nesta segunda-feira que a descriminalização do porte de drogas para usuários “é uma questão complexa e moralmente divisiva em todo o mundo”. Sem adiantar o voto, Barroso sugeriu ser a favor da medida:

– A política de guerra às drogas como uma questão de segurança pública e bélica não funcionou em nenhum lugar do mundo. E mesmo os Estados Unidos que lideraram essa guerra a partir do governo Nixon, estão mudando de ideia e liberando.

No Brasil, de acordo com o ministro, a descriminalização “deve diminuir o encarceramento de jovens não perigosos”.

Caso o Supremo decida pela descriminalização, o magistrado acredita que a corte arbitrará por uma quantidade máxima que possa ser portada por um usuário sem que ele possa ser acusado de tráfico.

– A quantidade de drogas faz diferença nos extremos. Claro que um sujeito pego com uma tonelada de maconha não está com a droga para uso pessoal. E claro que o sujeito pego com um grama não está traficando. Nesse sentido o Supremo deve estabelecer uma quantidade que exclua os usuários da questão do tráfico, mas que não feche questão. Começar pela maconha é bom porque dentre as drogas é a que apresenta menos risco para o usuário e para terceiros – disse na segunda-feira, durante evento no Instituto Fernando Henrique Cardoso.

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Opinião

Grupo RBS questiona especialistas sobre a legalização da maconha

Como parte do seu editorial favorável a legalização da maconha o Grupo RBS questionou médicos, juristas, policiais e religiosos sobre a regulação no Brasil.

Policiais no front do combate às drogas discordam sobre o modelo mais apropriado ao Brasil. Para um grupo, a legalização da maconha não reduziria o tráfico e, pior, aumentaria a violência. Para outra parcela, somente a regulamentação da marijuana acabará com as mortes no submundo dos tóxicos.

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Um dos contrários é o delegado de Polícia Civil Heliomar Franco. Com a experiência de quem comandou o Departamento Estadual do Narcotráfico (Denarc), afirma que a legalização facilitará o acesso à maconha, aumentando o consumo entre jovens.

– Ledo engano achar que reduzirá a criminalidade – alerta o delegado, que organizou a operação Anjos da Lei para capturar traficantes que rondavam escolas.

Franco também se preocupa com os reflexos no narcotráfico. Acha que, no mercado legal, a erva poderá custar mais, em função dos impostos, das licenças e da pureza do produto. Isso abriria espaço para um comércio paralelo, com a oferta de produtos mais baratos, mas de qualidade duvidosa. Também há o risco de os traficantes se reorganizarem, partindo para entorpecentes ainda mais pesados para compensar a perda do negócio com a cânabis.

Já o delegado Orlando Zaccone D’Elia Filho, do Rio, está convicto de que somente a regulação, num regime em que o Estado controlaria o plantio, a produção e a venda, poderia diminuir a criminalidade. Secretário da organização Leap (Law Enforcement Against Prohibition) no Brasil, o delegado fluminense observa que a violência não resulta do uso da maconha, mas da proibição que alimenta o narcotráfico.

“As pessoas morrem mais em decorrência da guerra pelas drogas, do que pelo consumo delas – argumenta Zaccone.”

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De tanto frequentar as sucursais do inferno em que se converteram os presídios, a Pastoral Carcerária Nacional firmou posição: é contra a criminalização da maconha. A entidade está convicta de que a repressão move as engrenagens do encarceramento massivo, que aumentou 450% nos últimos 20 anos. O Brasil já tem 715 mil pessoas atrás das grades – a terceira maior população no mundo, depois dos EUA e da China.

Aperte e Leia: Grupo RBS lança editorial a favor da legalização da maconha 
MACONHA – É hora de legalizar?
Como a legalização funciona nos EUA e no Uruguai

Coordenador da pastoral, o padre catarinense Valdir João Silveira inclina-se pela ideia de que a descriminalização poderia aliviar a violência e diminuir o ritmo do aprisionamento. Atualmente, um em cada quatro detentos está trancafiado por comércio ilegal de drogas. A maioria (52%) é de jovens entre 18 e 29 anos, vindos das periferias.

– Este assunto (drogas ilícitas) nos é muito caro – afirma o sacerdote.

O advogado Paulo Malvezzi diz que a pastoral ainda não definiu qual seria o melhor modelo de regulação das drogas. Mas já concluiu que o regime de reprimir e punir faliu. Justamente nos presídios, onde deveriam ser recuperados, os condenados têm fartura de tóxicos.

A partir dos relatórios de 6 mil agentes (religiosos e leigos), a pastoral está alarmada com a situação de mulheres presas por tráfico. O contingente cresceu 260% em 10 anos, ante 105% dos homens. Em Estados fronteiriços, elas já representam 80% nas cadeias.

O enclausuramento de mulheres é mais traumático. Laços familiares se rompem, porque elas são apartadas dos filhos. Malvezzi cita outro agravante:

– O sistema prisional não foi pensado para a mulher. Em São Paulo, houve gestantes parindo algemadas.

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Uma parcela significativa de magistrados brasileiros acredita que chegou o momento de o Brasil descriminalizar a maconha, a droga ilícita mais consumida no país. O grupo propõe equipará-la ao álcool e ao tabaco. Juiz de Direito em São Paulo, conselheiro da Associação Juízes para a Democracia (AJD) e suplente da diretoria do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM), Roberto Luiz Corcioli Filho questiona: por que proibir a erva, estigmatizando o usuário, se a cerveja e a cachaça estão liberadas?

– (O melhor modelo) é descriminalizar e regulamentar o consumo – diz Corcioli, para quem o país “já estaria preparado” para legalizar a cânabis desde a Constituição de 1988, que prevê respeito à vida privada.
Portas estão abertas para essa discussão na mais alta corte. Há pouco mais de um ano, em julgamento de recurso de dois condenados por tráfico, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso defendeu um debate público sobre a descriminalização.

– O foco do meu argumento não é o usuário. A preocupação é dupla.

Primeiro, é reduzir o poder que a criminalização dá ao tráfico. A criminalização fomenta o submundo do poder político e econômico dos barões do tráfico, que oprimem comunidades porque oferecem remunerações maiores que o Estado e o setor privado. Meu segundo questionamento é sobre a conveniência de uma política pública que manda para a prisão jovens de bons antecedentes, que saem de lá graduados na criminalidade – disse Barroso.
O gaúcho Luiz Matias Flach, há cinco décadas lidando com as consequências das drogas, seja como delegado de Polícia Civil ou como juiz de Direito que foi, ex-presidente do Conselho Federal de Entorpecentes, é cauteloso. Não se “atreveria” a propor a legalização, mas entende que o Brasil deve observar a experiência de outros países, além de estimular o debate interno.

Presidente do Instituto Crack Nem Pensar, Flach lembra que, para a Organização das Nações Unidas (ONU), a maconha segue proibida:

– Não vão conseguir mantê-la proscrita para sempre, mas querem segurar isso o quanto for possível.
Também se manifestando em nome da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), Flach acha que o consumo individual não deveria ser punido. Mas alerta:

– Quando o assunto é drogas, um passo demasiado longo pode significar um retrocesso.

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Antes de debater qual o melhor caminho para a maconha, se continuar proibindo ou legalizar o uso, a psiquiatra Ana Cecilia Marques gostaria que fossem avaliados os efeitos das chamadas drogas legais na saúde dos brasileiros. Alerta que o álcool e o fumo já causam estragos além do tolerável para se pensar na regularização de mais um entorpecente.

Presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Ana Cecilia diz que a maconha “é a bola da vez” entre os difusores da legalização. No entanto, pondera que o país ainda não aprendeu a lidar com a bebida alcoólica e os cigarros, responsáveis por doenças, acidentes e mortes. E questiona:

– Será que é o momento de se legalizar mais uma droga? Não seria melhor controlar e aprender com as drogas lícitas?

A médica psiquiatra compara que a maconha é como um leão solto, o qual não se tem noção do tamanho, da ferocidade e das reações. Afirma que é “ingenuidade” olhar a marijuana sob o prisma dos anos 1960, quando estava associada à contracultura e aos protestos contra governos autoritários na América do Sul.

Não se trata de um psicotrópico inofensivo, assegura ela.

– A neurociência atesta que não é uma droga leve. Estamos falando de um psicotrópico que muda não só o indivíduo, também o entorno e o meio – diz Ana Cecilia.

Posição semelhante é a de Analice Gigliotti, integrante da comissão de dependência química da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Ela teme que a liberação aumente o consumo, num país sem estrutura para tratar os dependentes nem deter os prejuízos no aprendizado escolar e no trabalho.

– Nossa preocupação é mais ampla, porque não fizemos o nosso dever de casa. Não temos fiscalização sobre a venda de tabaco e dos derivados etílicos. Não vamos ter como assistir quem irá consumir a maconha – diz Analice.

Outra entidade que congrega psiquiatras, a Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas (Abrad) também não acha recomendável liberar o uso. O presidente dela, Jorge Jaber, adverte que haveria uma corrida de jovens pela erva – não somente os mais esclarecidos, mas sobretudo os pobres e sem perspectivas.

– Contra a maconha, pesa a determinação maldita de que é um veneno – recorda Jaber, que atua há mais de 20 anos no atendimento gratuito a dependentes e suas famílias, no Rio.

Também diretor da Associação Americana de Psiquiatras Administradores (AAPA), Jaber ressalva que poderia ser feita apenas uma concessão, destinada ao emprego medicinal da maconha. Refere-se ao canabidiol, já utilizado para tratar pacientes que sofrem de convulsões resultantes de doenças graves. No entanto, seria em caráter experimental, por dois ou três anos, até aparecerem pesquisas científicas que comprovem a eficiência.

Entre as vozes discordantes no meio médico brasileiro está a de Drauzio Varella, talvez o profissional de saúde mais conhecido do país. Em textos sobre o assunto, ele reconhece que a maconha traz malefícios consideráveis e causa dependência, mas propõe a legalização em razão do fracasso da política de guerra às drogas: “Manter a ilusão de que a questão da maconha será resolvida pela repressão policial é fechar os olhos à realidade, é adotar a estratégia dos avestruzes. É insensato insistirmos ad eternum num erro que traz consequências tão devastadoras, só por medo de cometer outros”, escreveu Drauzio.

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Simpatizantes da maconha vão além da descriminalização.O presidente do Instituto Cannabis (ICa), Lucas Oliveira, quer a legalização, numa estrutura em que o Estado regulamentaria desde o plantio até o comércio. Sugere que o próprio governo poderia controlar a produção de tecidos (a partir das fibras da marijuana), de fármacos para tratamento de doenças raras e de cigarros para consumo. Em troca, cobraria taxas e impostos, revertendo o que arrecadasse para a saúde pública.

O ICa nasceu em 2007, criado por alunos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) inconformados contra o que denominam de “perseguição, extorsão e preconceitos” aos usuários. Promove cursos e debates sobre as diversas utilizações da cânabis, da industrial à medicinal. Para Lucas Oliveira, o país começa a perceber a necessidade de reavaliar tabus:

– Há um caminho longo a percorrer, mas acredito que não seja difícil de se conseguir a legalização.

Os exemplos do Uruguai, de Estados norte-americanos e de cidades europeias incentivam o ICa, que vem se articulando com grupos similares pelo mesmo objetivo – o de liberar o uso recreativo da cânabis. Desde 2008, os adeptos realizam passeatas nas ruas. Só o ICa organizou seis marchas da maconha em Santa Catarina.

De acordo com o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), realizado em 2012 pelo grupo do psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cerca de 7% dos brasileiros entre 18 e 59 anos já fumaram maconha.

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Sem nada definido, debate contra e a favor da maconha medicinal continua

Enquanto a Anvisa não se pronuncia em relação à liberação do Canabidiol, a justiça continua decidindo a favor de pacientes. Entre opiniões, favoráveis e contrárias, o Conselho Federal de Medicina ouviu especialistas e deve se posicionar publicamente sobre a prescrição de canabinoides.  As informações são da Exame.

Nesta semana a decisão da justiça de obrigar o governo de São Paulo a fornecer o medicamento Canabidiol a um menino de 7 anos do interior do estado reacendeu o debate sobre o uso da maconha medicinal no país.

O Canabidiol (CBD) é um dos 80 canabinoides presentes na planta Cannabis sativa – a planta da maconha – e tem propriedades médicas para tratar diversas doenças que afetam o sistema nervoso central.

A substância virou motivo de debate depois que mães de crianças epilépticas começaram a importar ilegalmente o remédio para dar a seus filhos. O caso da menina Anny Fischer é um dos mais famosos, já que ela foi a primeira a conseguir autorização judicial para a importação do CBD.

Em 29 de maio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em reunião da diretoria colegiada, adiou a decisão sobre a retirada do CBD da lista de substâncias proibidas no país para permitir seu uso como medicamento.

As documentações e pareceres relacionados ao tema estão sob a análise do Diretor Jaime Oliveira, que solicitou vista do processo antes de relatar seu voto. Ainda não há uma data de quando a discussão será retomada.

Segundo a Anvisa, já foram formalizados 35 pedidos de importação excepcional de Canabidiol. Desses, 18 já foram autorizados – o pedido mais antigo, segundo a Agência, é de 7 de julho de 2014.

O restante está aguardando a apresentação de documentação do paciente para a concessão da autorização ou aguardando análise inicial da área técnica.

Recentemente o Conselho Federal de Medicina se reuniu em Brasília para uma audiência sobre o canabidiol. A diretoria ouviu especialistas e deve se posicionar publicamente sobre a prescrição de canabinoides em breve.

É importante lembrar que o que está sendo discutido é apenas a reclassificação da substância Canabidiol pela Anvisa, o que permitiria que qualquer pessoa com uma receita conseguisse importar medicamentos feitos com base nela.

Veja a seguir alguns argumentos a favor e outros contrários à reclassificação do CBD:

A favor:

Renato Malcher, neurocientista e professor de Ciências Fisiológicas da Universidade de Brasília, em entrevista à EXAME.com:

“Em relação ao uso do CBD puro, já existem algumas pesquisas de clínicas – a principal delas foi feita no Brasil em 1980 e outras foram expostas em congressos – que indicam que ele é eficaz para tratar epilepsia, mesmo nos casos em que a epilepsia não responde a nenhum medicamento.

Isso é o mais importante: o CBD serve para todas as epilesias. Isso é importante porque o efeito dos remédios usados contra a epilepsia são muito fortes, em níveis quase tóxicos. Não há nenhuma razão para ter toda essa dificuldade a não ser o estigma em relação à maconha.

A discussão toda começou por causa da extração do óleo que tem alto índice de CBD e baixo de THC [outro componente da maconha]. Também para esses casos há documentação científica que comprova sua eficácia e segurança. Não há problema em relação ao THC, porque é uma quantidade pequena e ele também tem efeito anti-convulsivo.

Além disso, o CBD tem uma vantagem sobre qualquer outro remédio porque atua em diversos sintomas ao mesmo tempo. Inclusive sintomas de autismo – e autismo e epilepsia andam de mãos dadas.”

Dráuzio Varella, em artigo em seu site e depois em debate sobre a liberação da maconha medicinal:

“Estudo recente mostrou que 11% dos pacientes ficaram livres das crises convulsivas com o uso de maconha com teores altos de canabidiol; em 42% o número de crises diminuiu 80% e, em 32% dos casos, a redução variou de 25% a 60%. Canabinoides sintéticos de uso oral estão liberados em países europeus.”

“Se fosse o meu filho eu faria a mesma coisa”, se referindo ao caso das mães que estão importanto CBD sem autorização da Anvisa para dar a seus flhos epilépticos.

Contra:

Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas, em manifesto público:

“No Brasil, o canabidiol vem sendo estudado por vários grupos, inclusive professores da USP. Os resultados têm sido animadores, principalmente para transtornos de ansiedade e episódios psicóticos, mas ainda falta muito.

A ABEAD acredita que para que a substância seja liberada para o tratamento de uma doença é preciso cumprir várias etapas metodológicas, como estudo em animais, estudo em humanos, duplo-cego com placebo, com amostras representativas de diferentes populações e estudos que possam ser replicados.

Existe também a necessidade de realização de estudos de longo prazo, com diferentes tipos da mesma doença, sobre os efeitos adversos, estudos multicêntricos, com amostras representativas, bioequivalência, faixa terapêutica, comparação entre os medicamentos já utilizados. Portanto, até que sejam comprovados os reais efeitos do canabidiol, a ABEAD desaprova que a Anvisa libere a importação da substância.”

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Saiba porque Drauzio Varella defende a legalização da maconha

O médico, apresentador e colunista da Folha de S.Paulo, vem dedicando suas últimas publicações, entre artigos ‘contrários‘ e ‘favoráveis‘, para falar um pouco mais sobre a erva.

Em sua mais recente publicação (26), o médico defende a experiência uruguaia. “Manter a ilusão de que a questão da maconha será resolvida pela repressão policial é fechar os olhos à realidade, é adotar a estratégia dos avestruzes”. Além de explanar os motivos em que acredita, que a regulamentação da maconha é o melhor passo, após uma fracassada guerra às drogas.

Legalizar não significa liberar geral. É possível criar leis e estabelecer regras que protejam os adolescentes, disciplinem o uso e permitam oferecer assistência aos interessados em livrar-se da dependência.

E você, concorda com o Dr. neste artigo?!

Legalização da maconha

Por Drauzio Varella

Em duas colunas anteriores mostramos que os efeitos adversos da maconha não são poucos nem desprezíveis e que o componente psicoativo da planta pertence à classe dos canabinóides, substâncias dotadas de diversas propriedades medicinais.

Falamos das evidências de que fumar maconha pode causar dependência química —embora menos intensa do que a da nicotina, da cocaína ou dos benzodiazepínicos que mulheres e homens de respeito tomam para dormir.

No final, dissemos que o inegável interesse medicinal dos canabinóides não é justificativa para a legalização da droga, já que a imensa maioria dos usuários o faz com finalidade recreativa.

Acho que a maconha deve ser legalizada por outras razões. A principal delas é o fracasso retumbante da política de “guerra às drogas”.

De acordo com o 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), realizado em 2012 pelo grupo do Dr. Ronaldo Laranjeira, da Unifesp, cerca de 7% dos brasileiros entre 18 e 59 anos já fumaram maconha. Descontados os menores de idade, seriam 7,8 milhões de pessoas. Perto de 3,4 milhões haviam usado no ano anterior.

Como se trata de droga ilegal, poderíamos considerá-los criminosos, portanto passíveis de prisão. Quantas cadeias seriam necessárias? Quem aceitaria ver o filho numa jaula superlotada, porque foi pego com um baseado?

Legalizar, entretanto, não é empreitada corriqueira, como atestam as experiências do Colorado, Washington, Holanda e Uruguai.

Quem ficaria encarregado da produção e comercialização, o Estado ou a iniciativa privada?

Fundaríamos a Maconhabrás e colocaríamos fora da lei as plantações particulares? Seriam autorizados cultivos para consumo pessoal? Há amparo jurídico para reprimir a produção doméstica de uma droga legal? Por acaso é crime plantar fumo no jardim ou destilar cachaça em casa para uso próprio?

Quantos pés cada um teria direito de cultivar? E aqueles que ultrapassassem a cota, seriam obrigados a incinerar o excesso ou iriam para a cadeia? Quem fiscalizaria de casa em casa?

A que preço a droga seria vendida? Se custar caro, o tráfico leva vantagem; se for barata, estimula o consumo. Como controlar a quantidade permitida para cada comprador?

E os pontos de venda? Farmácias como no Uruguai, coffee shops como na Holanda, lojas especializadas ou nossas padarias que já comercializam álcool e cigarros?

Se a iniciativa privada estiver envolvida em qualquer fase do processo, como impedir o marketing para aumentar as vendas? A experiência com o álcool e o fumo mostra que deixar drogas legais nas mãos de particulares resulta em milhões de dependentes.

São tantas as dificuldades que fica muito mais fácil proibir.

Tudo bem, se as consequências não fossem tão nefastas. A que levou a famigerada política de guerra às drogas, senão à violência urbana, crime organizado, corrupção generalizada, marginalização dos mais pobres, cadeias abarrotadas e disseminação do consumo?

Legalizar não significa liberar geral. É possível criar leis e estabelecer regras que protejam os adolescentes, disciplinem o uso e permitam oferecer assistência aos interessados em livrar-se da dependência.

O dinheiro gasto na repressão seria mais útil em campanhas educativas para explicar às crianças que drogas psicoativas fazem mal, prejudicam o aprendizado, isolam o usuário, tumultuam a vida familiar e causam dependência química escravizadora.

Nos anos 1960, mais de 60% dos adultos brasileiros fumavam cigarro. Hoje, são 15% a 17%, números que não param de cair, porque estamos aprendendo a lidar com a dependência de nicotina, a esclarecer a população a respeito dos malefícios do fumo e a criar regras de convívio social com os fumantes.

Embora os efeitos adversos do tabagismo sejam mais trágicos do que os da maconha, algum cidadão de bom senso proporia colocarmos o cigarro na ilegalidade?

Manter a ilusão de que a questão da maconha será resolvida pela repressão policial é fechar os olhos à realidade, é adotar a estratégia dos avestruzes.

É insensato insistirmos ad eternum num erro que traz consequências tão devastadoras, só por medo de cometer outros.

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Drauzio Varella está longe de ser o Sanjay Gupta da Globo

Saiba porque o Drauzio Varella está longe de ser o Sanjay Gupta da Globo.

Recentemente vemos muitas opiniões contrárias e favoráveis (mais contra) sobre os últimos artigos publicados pelo médico Drauzio Varella, em sua coluna na Folha de S.Paulo, mas antes de falarmos sobre a opinião do Dr. mais Global do país, vale lembrar do renomado médico americano, o neurocirurgião Sanjay Gupta.
Sanjay Gupta é responsável pelos assuntos médicos da CNN e em agosto passado divulgou uma nota de desculpas por ter pulicado, em 2009, um artigo contrário ao uso medicinal da maconha.

Gupta produziu o documentário “Weed” (assista a primeira parte legendada no fim da matéria) mostrando que, em um contexto controlado, seja na forma de óleo, compostos isolados, ou de material in natura, o uso medicinal da Cannabis representa uma nova revolução na medicina. Por isto, hoje em dia, Dr. Gupta pede desculpas por ter se enganado.

Os casos abordado na primeira parte do documentário “Weed” são das síndromes de Dravet e de CDKL5, das quais sofrem, respectivamente, as meninas Charlote, protagonista do documentário americano, realizado pela CNN, e Anny, do documentário nacional Ilegal, de Raphael Erichsen e Tarso Araújo, que trouxe à tona a real necessidade do debate e quanto antes da regulamentação da maconha, no Brasil, trazendo esperança à família de diversos pacientes.

sanjay cnn
Dr. Gupta assumindo seu erro publicamente. Quando veremos um médico brasileiro fazendo o mesmo?

Pois bem, voltando ao Dr. Drauzio e ao recente artigo, em que relaciona superficialmente os benefícios da maconha para fins medicinais, era o esperado que mesmo que ele tivesse todo o impresso da Folha de S.Paulo faltaria espaço para relacionar todos os reais benefícios medicinais da maconha.

Abaixo explanamos o artigo na íntegra, publicado pela Folha (12), além de questionarmos alguns pontos em que o médico poderia ter sido menos obscuro e mais claro a toda sociedade.

Efeitos benéficos da maconhadrauzio e seus efeitos

Por Drauzio Varella

Não são poucos os benefícios potenciais da maconha. Na última coluna falamos sobre os efeitos adversos, apresentados numa revisão recém-publicada no “The New England Journal of Medicine”.

Explicamos que os estudos nessa área padecem de problemas metodológicos. Geralmente envolvem usuários que consomem quantidades maiores, por muitos anos, acondicionadas em baseados com concentrações variáveis de tetrahidrocanabinol (THC), o componente ativo.

Como consequência, ficam sem respostas claras as consequências indesejáveis no caso dos usuários ocasionais, a grande massa de consumidores.

Em compensação, o uso medicinal do THC e dos demais canabinoides dele derivados está fartamente documentado.

Pode isso Dr.? Os canabinoides são derivados do THC? Achamos que não.

A descoberta de que os canabinoides se ligavam aos receptores CB existentes na membrana celular dos neurônios aconteceu em 1988. Dois anos mais tarde, esses receptores foram clonados e mapeadas suas localizações no cérebro. Em 1992, foi identificada a anandamida, substância existente no sistema nervoso central, relacionada com os receptores, mas distinta deles.

A partir de então, diversos trabalhos revelaram que os canabinoides naturais ou sintéticos desempenham papel importante na modulação da dor, controle dos movimentos, formação e arquivamento de memórias e até na resposta imunológica.

Pesquisas com animais de laboratório demonstraram que o cérebro desenvolve tolerância aos canabinoides e que eles podem causar dependência, embora esse potencial seja menor do que o da heroína, nicotina, cocaína, álcool e de benzodiazepínicos, como o diazepan.

Hoje sabemos que o uso de maconha tem ação benéfica nos seguintes casos:

1) Glaucoma: doença causada pelo aumento da pressão intraocular, pode ser combatida com os efeitos transitórios do THC na redução da pressão interna do olho. Existem, no entanto, medicamentos bem mais eficazes.

O que isso significa? Que a maconha não seria uma opção terapêutica, por ser menos eficaz?

2) Náuseas: o tratamento das náuseas provocadas pela quimioterapia do câncer foi uma das primeiras aplicações clínicas do THC. Hoje, a oncologia dispõe de antieméticos mais potentes.

Drauzio se refere ao THC sintético? Ou ao uso da maconha in natura? Não fica claro. “Hoje, a oncologia dispõe de antieméticos mais potentes.” O que o Drauzio pretende dizer? Que o mais potente é mais eficiente, mesmo podendo causar mais efeitos colaterais? Não fica claro.

3) Anorexia e caquexia associada à Aids: a melhora do apetite e o ganho de peso em doentes com Aids avançada foram descritos há mais de 20 anos, antes mesmo de surgirem os antivirais modernos.

4) Dores crônicas: a maconha é usada há séculos com essa finalidade. Os canabinoides exercem o efeito antiálgico ao agir em receptores existentes no cérebro e em outros tecidos. O dronabinol, comercializado em diversos países para uso oral, reduz a sensibilidade à dor, com menos efeitos colaterais do que o THC fumado.

Dores crônicas: sobre o THC sintético (dronabinol): “o dronabinol reduz a sensibilidade à dor, com menos efeitos colaterais do que o THC fumado”. No mínimo estranho usar a expressão “fumar THC”. Em um artigo do Grinspoon, ele relata que em pesquisas clínicas a erva in natura era preferida em relação ao dronabinol (Marinol). Pacientes abandonavam os testes clínicos quando eram do grupo que usava o dronabinol, ou o trocavam pela maconha in natura, mesmo do mercado ilegal, ao longo dos testes, porque os efeitos colaterais do sintético eram menos bem aceitos.

5) Inflamações: o THC e o canabidiol são dotados de efeito anti-inflamatório que os torna candidatos a tratar enfermidades como a artrite reumatoide e as doenças inflamatórias do trato gastrointestinal (retocolite ulcerativa, doença de Crohn, entre outras).

6) Esclerose múltipla: o THC combate as dores neuropáticas, a espasticidade e os distúrbios de sono causados pela doença. O Nabiximol, canabinoide comercializado com essa indicação na Inglaterra, Canadá e outros países com o nome de Sativex, não está disponível para os pacientes brasileiros.

Esclerose Múltipla: o Nabiximols é o nome científico do Sativex, um produto farmacêutico criado apenas para uso com base em prescrição pela GW Pharmaceuticals, já que a patente é deles.

O Nabiximols não é um canabinóide, propriamente, mas uma tintura da maconha com THC e CBD em concentrações controladas disponibilizado em aerosol. Cada pulverização proporciona uma proporção aproximada de 2,5 mg de CBD para 2,7 mg de THC. Portanto se referir o Nabiximols como ”canabinóide”, pode não ser o melhor termo.

7) Epilepsia: estudo recente mostrou que 11% dos pacientes ficaram livres das crises convulsivas com o uso de maconha com teores altos de canabidiol; em 42% o número de crises diminuiu 80%; e em 32% dos casos a redução variou de 25 a 60%. Canabinoides sintéticos de uso oral estão liberados em países europeus.

Drauzio diz que “canabinoides sintéticos de uso oral estão liberados em países europeus”. O único canabinoide com a finalidade médica é o Marinol, sendo que os demais ‘canabinoides’ sintéticos, que até pouco tempo eram “natural highs”, aos poucos têm sido classificados como drogas ilícitas, como o Spice e o K2, podendo causar danos irreversíveis levando inclusive a óbito. [ADICIONAR O LINK DA MENINA EM COMA E DO OUTRO Q MORREU].

Com tal espectro de ações em patologias tão diversas, só gente muito despreparada pode ignorar o interesse medicinal da maconha. Qual a justificativa para impedir que comprimidos de THC e de seus derivados cheguem aos que poderiam se beneficiar deles? Está certo jogar pessoas doentes nas mãos dos traficantes?

No entanto, o argumento de que o uso de maconha deve ser liberado em virtude dos efeitos benéficos que acabamos de enumerar, é insustentável: a imensa maioria dos usuários não o faz com finalidade terapêutica, mas recreativa.

Não Drauzio, não está certo jogar pessoas doentes nas mãos dos traficantes e tão pouco os que buscam uma droga recreativa como álcool e tabaco, afinal se rir é o melhor remédio, saiba que não há substância natural melhor que a erva para te fazer rir, experimente sem preconceitos.

Entretanto Dr. Drauzio, o que levou o senhor a deduzir que a maioria dos usuários não faz uso da maconha com finalidade terapêutica, com certeza não foram os mesmos motivos enumerados abaixo.

Pelos principais motivos:
– Das comunidades médicas não prescreverem, temorosos a uma retalhação;
– Pela classificação (lista 1) que é mantida a planta;
– Pela ANVISA fazer vistas grossas em algo tão emergencial;
– Devido ao alto custo e burocracia para importação (apenas do CBD, sendo excluído mais uma vez o THC), a média de custo, por 10 g, é de 500 dólares, quando a mercadoria não é apreendida;
– Devido ao risco de cultivar meia dúzia de pés e ser considerado traficante, ao tempo que isso é feito para evitar um produto duvidoso e não financiar o tráfico (vai entender né?!);
– Pelo motivo de muitos permanecerem ocultos, entre personalidades e pessoas comuns, para não serem taxados por algo tão pejorativo que se criou em cima do MACONHEIRO.

Apesar do doutor dizer que “Maconheiro é louco para dizer que maconha não vicia e nem faz mal”, hoje podemos dizer em contra partida que “O Dr. Drauzio Varella está longe de ser o Dr. Sanjay da Rede Globo” na defesa do uso medicinal da maconha, inclusive ”in-natura”, abrindo mão, em nome do conservadorismo, de praticar ação semelhante ao colega americano.

Como diz o povo: uma coisa é uma coisa…

Acho que a maconha deve ser legalizada, sim, mas por razões que discutiremos em nossa próxima coluna.

Estamos de olho Dr. e no aguardo do seu próximo artigo.

Para um enriquecimento maior da crítica sobre o recente texto, do médico brasileiro, aconselhamos que você assista a primeira parte, em português, do documentário Weed produzido pelo Dr. Sanjay Gupta.

https://www.youtube.com/watch?v=2R0GSwQABf0

Aproveite e comente abaixo sobre o último texto do Dr. Drauzio Varella.

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Efeitos adversos da maconha, por Drauzio Varella

Maconheiro é louco para dizer que maconha não vicia, nem faz mal… e proibicionista adora um artigo assim.

Como tudo na vida há seus prós e contras, com a erva não seria diferente. Drauzio Varella explana alguns efeitos indesejados da maconha, na sua coluna da Folha de S. Paulo.

Maconheiro é louco para dizer que maconha não vicia e nem faz mal.

Vou resumir uma revisão da literatura sobre os efeitos adversos da maconha, publicada no “The New England Journal of Medicine”, por pesquisadores americanos do National Institute on Drug Abuse:

1) Dependência

Os inquéritos mostram que 9% dos que experimentam se tornam dependentes. Esse número chega a 1 em cada 6 no caso daqueles que começam a usá-la na adolescência. Entre os que fazem uso diário, 25 a 50% exibem sintomas de dependência.

Comparados com os que começaram a fumar na vida adulta, os que o fizeram enquanto adolescentes apresentam 2 a 4 vezes mais sintomas de dependência, quando avaliados dois anos depois de fumar o primeiro baseado.

Uma vez instalada a dependência surgem crises de abstinência: irritabilidade, insônia, instabilidade de humor e ansiedade.

2) Alterações cerebrais

Da fase pré-natal aos 21 anos de idade o cérebro está em estado de desenvolvimento ativo, guiado pelas experiências. Nesse período fica mais vulnerável aos insultos ambientais e à exposição a drogas como o tetrahidrocanabinol (THC).

Adultos que se tornaram usuários na adolescência apresentam menos conexões entre neurônios em áreas específicas do cérebro que controlam funções como aprendizado e memória (hipocampo), atenção e percepção consciente (precúneo), controle inibitório e tomada de decisões (lobo pré-frontal), hábitos e rotinas (redes subcorticais).

Essas alterações podem explicar as dificuldades de aprendizado e o QI mais baixo dos adultos jovens que fumam desde a adolescência.

3) Porta de entrada

Qualquer droga psicoativa pode moldar o cérebro para respostas exacerbadas a outras drogas. Nesse sentido, o THC não é mais nocivo do que o álcool e a nicotina.

4) Transtornos mentais

O uso regular aumenta o risco de crises de ansiedade, depressão e psicoses, em pessoas com vulnerabilidade genética. Uso frequente, em doses elevadas, durante mais tempo, modificam o curso da esquizofrenia, e reduzem de 2 a 6 anos o tempo para a ocorrência do primeiro surto.

O que os estudos não conseguem estabelecer é a causalidade, isto é, se a maconha provoca esses distúrbios ou se os portadores deles usam a droga para aliviar suas angústias.

5) Performance escolar

Na fase de intoxicação aguda o THC interfere com funções cognitivas críticas, efeito que se mantém por alguns dias. O fato de a ação no sistema nervoso central persistir mesmo depois da eliminação do THC, faz supor que o uso continuado, em doses elevadas, provoque deficiências cognitivas duradouras, que afetam a memória e a atenção, funções essenciais para o aprendizado.

Essas relações, no entanto, são muito mais complexas do que os estudos sugerem. O uso de maconha é mais frequente em situações sociais que interferem diretamente com a escolaridade: pobreza, desemprego, falta de estímulos culturais, insatisfação com a vida e desinteresse pela escola.

6) Acidentes

A exposição ao THC compromete a habilidade de dirigir. Há uma relação direta entre as concentrações de THC na corrente sanguínea e a probabilidade de acidentes no trânsito.

7) Câncer e doenças pulmonares

Embora a relação entre maconha e câncer de pulmão não possa ser afastada, o risco é menor do que aquele associado ao fumo.

Por outro lado, fumar maconha com regularidade, durante anos, provoca inflamação das vias aéreas, aumenta a resistência à passagem do ar pelos brônquios e diminui a elasticidade do tecido pulmonar, alterações associadas ao enfisema pulmonar. Não há demonstração de que o uso ocasional cause esses malefícios.

O uso frequente agride a parede interna das artérias e predispõe ao infarto do miocárdio, derrame cerebral e isquemias transitórias.

Nos Estados Unidos, país em que a maioria desses estudos foram realizados, o conteúdo de THC na maconha apreendida aumentou de 3% nos anos 1980, para 12% em 2012. O aumento da concentração do componente ativo dificulta ainda mais a interpretação dos estudos sobre os efeitos do uso prolongado.

E sobre os efeitos benéficos da maconha, nenhuma palavra?

Lamento desapontá-lo, leitor aflito, mas prometo que será o tema da próxima coluna (que será publicado pela Folha de S.Paulo).


Na pontinha…
Entretanto, vale lembrar que a necessidade de expor os prós e contras, com informações claras e verdadeiras, faz parte de todo produto regulamentado. Por mais que ‘maconheiro’ não curta, nós entendemos que é necessário e que venha o próximo tema, que é sobre os efeitos benéficos da maconha, do renomado Dr. Drauzio e por mais que proibicionista adore, saiba que isso não compensa todas as vidas perdidas e fragilizadas por um guerra falha e falida.

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CANNABIS: ESPERANÇA CONTRA CONVULSÕES

Aproveitamos a deixa deste texto – escrito por Tarima Nistal e reproduzido no site do famoso Doutor Drauzio Varella, referência quando o assunto é medicina – para deixar nosso recado ao médico José Alexandre Crippa: Apesar de não o conhecermos pessoalmente, a cada dia o SmokeBud se DECEPCIONA mais e mais com o profissional.

Não temos a intenção de ofender nenhum outro médico, somente deixar nossa mensagem de repudio aos comentários preconceituosos de um médico. O mesmo, aliás, que admite não saber sequer a dose a ser recomendada do óleo de CBD – coisa que qualquer médico nos Estados Unidos poderia ensinar a ele – e que do alto de sua vassoura proibicionista, continua destilando preconceitos contra os maconheiros. E o pior de tudo: sem o conhecimento de causa.

Por outro lado, vemos que ainda há uma marola de esperança. É o caso do texto de Tarima que foi reproduzido na página do Doutor Varella. Leia abaixo:

A polêmica não vem de hoje. Embora a humanidade conviva com a Cannabis sativa (nome científico da maconha) há milênios e centenas de estudos sobre suas propriedades já tenham sido publicados, o assunto continua tabu. Ainda que por lei estejam previstos o cultivo e o uso para fins medicinais e científicos, não há no país regulamentação para o uso medicinal da planta, e na prática não há regras claras para definir em que condições ela pode ser manipulada. Esse quadro mudou recentemente, quando o primeiro paciente brasileiro conseguiu uma liminar na justiça para importar e utilizar um medicamento derivado da maconha.

Anny Fischer tem 5 anos e uma doença chamada CDKL5, desordem genética rara que atinge apenas centenas de crianças no mundo e cuja principal característica é o aparecimento de convulsões desde os primeiros meses de vida — Anny tinha de 30 a 80 por semana. Nesses casos, as convulsões causam alterações no desenvolvimento neurológico e não melhoram mesmo quando a criança é medicada com o maior número possível de anticonvulsivantes — Anny chegou a tomar oito ao mesmo tempo. A maioria das crianças que tem a doença não consegue andar, falar ou sequer se alimentar; é como se ela fosse uma “boneca de pano”.

Canabidiol (CBD) é o nome da substância extraída da Cannabis sativa que mudou a vida de Anny e de seus pais, Katiele e Norberto. Segundo o psiquiatra e neurocientista José Alexandre Crippa, que é pesquisador do tema e acompanhou o caso da menina de perto, essa substância possui diversas propriedades benéficas comprovadas no tratamento de esquizofrenia, Parkinson, fobia social, transtorno do sono, diabetes tipo 2 e mesmo na cura da dependência de drogas. “O primeiro estudo brasileiro com o Canabidiol foi realizado entre as décadas de 1970 e 1980 e comprovou o seu efeito anticonvulsivante”, explica. Em alguns casos, o CBD tem os mesmos efeitos que medicamentos controlados, mas com a vantagem de não causar sedação nem vício. “Os efeitos nocivos do CBD são poucos e raramente descritos. Isso abre um leque gigantesco para o uso clínico.”

A substância é uma das mais de 50 ativas na planta e não tem efeito psicotrópico (não “dá barato”, ou seja, não provoca alterações da percepção em quem fuma). Basicamente, ao entrar na corrente sanguínea e chegar ao cérebro, ela “acalma” a atividade química e elétrica excessiva do órgão.
Como não é produzida nem comercializada no país, Katiele e Norberto resolveram trazer dos Estados Unidos, pela internet e com a ajuda de amigos, um extrato com 20% de Canabidiol em formato de pasta. Lá, o composto é considerado seguro pelo FDA (órgão que regula a comercialização de remédios no país), mas como não passou por testes clínicos, as empresas que o vendem não podem alegar propriedades medicinais e o comercializam como suplemento alimentar. Katiele aprendeu a usar o produto com um pai americano que descrevia a experiência de sua filha com o produto no Facebook.

Os resultados foram fantásticos: em um mês, Anny teve cerca de duas crises convulsivas, apenas.

A questão legal

Em umas dessas importações ilegais, o extrato foi retido nos Correios pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O documentário “Ilegal”, dirigido pelo jornalista Tarso Araújo, conta a saga de Katiele para conseguir autorização da instituição para utilizar o produto, em uma verdadeira corrida contra o tempo, pois toda a melhora de Anny com o uso do Canabidiol corria o risco de ser em vão. Foi aí que a família obteve do juiz Bruno Apolinário, da 3ª Vara Federal de Brasília, uma liminar com autorização de importação e retirada do medicamento. A Anvisa ainda pode recorrer da decisão.

No entanto, a própria agência afirma, em nota, que “ainda que o Canabidiol esteja classificado como uma substância de uso proscrito, não há impedimento para que seja solicitado o registro de medicamento com a substância, o que será avaliado em relação a sua eficácia e segurança, caso ocorra. A importação de medicamentos sem registro no país é possível por meio de pedido excepcional de importação para uso pessoal”.

O exemplo

Gabriela Mendes vê no CBD uma esperança para o caso de sua filha, Marianna, 6 anos, que não tem diagnóstico definido, mas que sofre com as internações por conta de crises convulsivas (cerca de cinco por ano), asma, pneumonia e infecções urinárias. “O máximo que conseguimos ficar em casa [sem precisar ir a hospitais] foram 6 meses e três semanas devidamente comemorados”, conta.

Enquanto aguarda o resultado de um exame genético e depois de ter passado por altos e baixos, Mari toma quatro anticonvulsivantes: três nacionais e um importado, todos nas doses máximas para o peso dela, divididos em cinco horários ao longo do dia. “As crises ficam melhor controladas, mas ela não consegue se manter acordada para aproveitar a vida, sentir os beijinhos e carinhos e fazer as terapias”, diz Gabriela.

Mari não está utilizando o CBD porque precisa de recomendação médica para que possa justificar a importação da medicação à Anvisa, caso ela seja barrada pelo órgão durante o processo. “Quero muito experimentar. Acredito que o Canabidiol seja nossa esperança de mudar esse quadro. Quero poder pintar um quadro mais colorido e alegre pra minha filha. Ela merece!”

No entanto, o país ainda precisa avançar nos estudos que comprovem a eficácia da substância em outros casos e ultrapassar barreiras burocráticas imensas, já que o CBD não é produzido no Brasil, embora o país seja referência nas pesquisas com a substância. “Depois da repercussão do caso da Anny, outras famílias também querem dar o CBD para suas crianças, e isso é legítimo. O problema é que a medicação não tem suas composições comprovadas aqui no país. Não sabemos dizer exatamente em qual dose e em quais condições as pessoas podem usá-la”, afirma o doutor José Alexandre Crippa.

Além de outras famílias, o médico afirma que há grupos que são a favor do uso recreativo da maconha e que estão usando o tratamento médico de Anny como argumento para suas causas. “Quero deixar claro que sou totalmente a favor da legalização dos canabinoides, que são essas substâncias presentes na maconha, para uso medicinal. Mas sou contra o uso para efeito recreativo, que causa alterações cerebrais e pode desenvolver transtornos psiquiátricos graves.”

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Muito além da fumaça

Maconha é legalizada no Uruguai e Colorado (EUA), enquanto usuário é criminoso no Brasil

Com a legalização do uso medicinal da maconha na Califórnia, deu-se início a uma lenta discussão mundial acerca da legalização de drogas. Apesar dessa não ser uma iniciativa de vanguarda, já que em países como a Holanda, Portugal e Argentina a descriminalização existe há muito mais tempo, a revolução ideológica representada pela legalização da droga no país que criou a própria política de guerra contra as drogas causou início a uma tendência mundial. Recentemente, o Uruguai liberou o uso recreativo da maconha, dando um passo a mais que os Estados Unidos, que têm seu segundo Estado, o Colorado, tornando legal o consumo médico.

No Brasil, há mais de duas décadas são organizadas passeatas pró-legalização e descriminalização. De acordo com pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), há 1,5 milhão de pessoas que consomem a erva diariamente no País, e no mínimo oito milhões já experimentaram. Ainda se tem os milhares, em diferentes Estados, que participaram e participam das diversas “Marchas da Maconha” realizadas ao longo dos anos.

Para o sociólogo Nildo Viana, ao se legalizar a droga: “Os efeitos seriam vários, divergindo entre setores e esferas sociais. Para os usuários haveria facilidade de acesso; para os empresários haveria mercantilização, criando um novo objeto de publicidade, como o cigarro, o que poderia aumentar o número de consumidores e a frequência de consumo da droga.”

Represálias

Apesar disso, acredita que “o preconceito existe e não se alterará. Se houverem problemas sociais relacionados ao uso haverá represálias por parte da sociedade, que terá nesse efeito negativo argumentos contra a legalização”. A visão do sociólogo reflete bem a imagem geral que se tem sobre a maconha no Brasil, advinda de uma política internacional criada pelos Estados Unidos em 1971, no governo de Richard Nixon, onde o usuário passou a ser criminalizado e responder por pena, seja por porte ou venda de entorpecentes.

Os mesmos Estados Unidos que recentemente liberaram a maconha em seu segundo Estado, sob a declaração do atual presidente Obama de que a “maconha não é mais perigosa do que álcool e tabaco”. Enquanto isso, na Holanda, o governo dá seringas e heroína para viciados cadastrados em seu sistema de saúde pública – um dos melhores do mundo – para evitar que contraiam doenças e gerem gastos com problemas posteriores, tirando-os das ruas e de ambientes de risco, uma política polêmica, mas que aproximou os usuários do Estado holandês e reduziu as taxas de portadores de HIV no País. Com o diálogo e a visualização do viciado em drogas como um doente, com um vício, e não um criminoso, o governo tem tido muito menos conflitos e a reabilitação, desejada pela maioria dos doentes, tem se tornado uma realidade.

Quebrando o tabu

Antes de tudo, que fique claro: a maconha é uma droga, e isso não está em discussão. Droga porque altera o funcionamento regular do organismo do usuário, assim como a cerveja, o cigarro, a cocaína, a heroína, o ecstasy, o ácido lisérgico, os chás de cogumelos, entre outras. O açúcar refinado, os suplementos minerais e vitamínicos, o remédio para dor de cabeça e febre, o para gripe, e – por que não? – o inocente cafezinho.

A lista é longa; isso porque, se houver uma análise um pouco menos imediatista, perceberá que poucas foram as pessoas que viveram sem usar ou experimentar algum tipo de droga na vida. E esse costume não é atual, apenas: 2.700 anos antes de Cristo, os chineses já usavam a fumaça da Cannabis sativa (maconha) por acreditarem, ter contatos com planos de existência superiores. Não apenas isso, também utilizava as fibras da planta para a confecção de cordas e tecidos, prática que, posteriormente, levou à criação dos papiros de cânhamo, precursores do papel e usados para documentar um dos mais antigos fragmentos de história humana ao qual se tem acesso.

Em 1000 a.C., os egípcios usavam ópio e maconha – além de serem um dos primeiros povos a aprender a controlar o processo de fermentação de vegetais, criando a cerveja – para entrar em contato com os deuses e festejar, ou seja, muitas das pirâmides e palácios milenares que figuram entre as sete maravilhas do mundo foram idealizadas por usuários de drogas. O mesmo se repete em Roma, com o vinho temperado com chumbo; com o haxixe dos árabes, povo que praticamente inventou a matemática moderna, em 1600.

Nas florestas amazônicas, há mais de mil anos tribos indígenas têm conselheiros espirituais, os xamãs, que têm o costume de inalar raspas de troncos de árvores, mascar cogumelos alucinógenos e injetar veneno de animais nos músculos, entre outros, para terem predições divinas. O costume tribal e de caráter experimental é uma das bases da medicina e do estudo de princípios ativos para elaboração de remédios. A lista de exemplos poderia seguir, mas não é preciso ir tão longe assim.

Em 1920, com a proibição da venda de álcool nos Estados Unidos, país idealizador da guerra contra as drogas, originou-se a existência do crime “organizado” como se conhece hoje. E o que faz com que esse crime seja taxado como organizado é o uso da lógica de produção em escala, criação de monopólio, proteção e controle políticos na criação e distribuição da droga (à época, o álcool). As diferenças entre política e capital foram se apagando, e as barreiras que separam o lucro do exercício da violência se viram esmorecer. E não apenas violência física, mas também social, ideológica e familiar, porque a existência do crime organizado destrói em diferentes níveis a humanidade.

É o que explica Ethan Nadelmann, graduado em Princeton e diretor da Drug Policy Alliance, organização internacional que busca encontrar formas efetivas de eliminar os males causados pelo vício de drogas na sociedade: “Ao final da proibição, havia mais gente consumindo álcool do que no início. Ao mesmo tempo, a proibição levou à criação de Al Capone e ao crime organizado, à violência e corrupção, às cadeias e aos tribunais abarrotados, pessoas jovens que idolatravam contrabandistas, tiroteios e violência nas ruas, e até mesmo a pessoas que ficavam cegas e eram envenenadas (pela má sintetização do álcool, que gera metanol, tóxico), morrendo por causa de bebidas falsificadas, mais perigosas justamente por serem ilegais”. Não se aplicaria a mesma lógica à maconha, hoje, vendida no Brasil, onde há diversos produtos tóxicos, além de outras substâncias que tornam a droga impura, como o crack?

As informações acima, bem como a fala de Nadelmann, vêm do documentário Quebrando o Tabu, de 2011, dirigido por Fernando Grostein Andrade. No filme, Grostein procurou abordar o tema tendo em vista não a estigmatização que gira em torno do usuário de drogas, mas sim em maneiras realistas de lidar com os diferentes níveis de vício existentes e no efeito que a ilegalidade tem sobre o usuário de drogas.

Usuário

O documentário, apresentado pelo sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mostra o encontro do político com diversos outros agentes do poder público estrangeiro. Dentre eles, o ex-chefe da Divisão de Política de Drogas do Ministério da Saúde Holandês, Bob Keizer, que acredita que “é melhor resolver metade do problema do que não resolver nada. […] Pelo menos os jovens não são presos por estar com maconha”, justifica.

Sobre o aumento do uso, responde: “As pessoas podem até pensar que isso levou a um aumento significativo do uso da maconha, pois ela está de fato disponível, mas as estatísticas revelam que as taxas de consumo são comparáveis com as de países vizinhos, e até menores do que em países como a França e o Reino Unido, onde há uma política de repressão.”

Segundo o médico Dráuzio Varella, “o que aconteceu com o crack no Brasil é a maior prova do fracasso dessa política de guerra às drogas”; FHC completa: “Até hoje as convenções das Nações Unidas (ONU), fortemente influenciadas pelos Estados Unidos, fazem com que os países sejam obrigados a tratar as drogas numa forma de proibição absoluta, sem prestar atenção às alternativas”

Assista o documentário Quebrando o Tabu

Assim, uma coisa fica clara: quem quer usar maconha vai usar, legal ou ilegalmente, e quem não quer, não. Afinal, essa é a única forma de explicar a contradição entre liberação e diminuição da taxa de usuários; na verdade, com a legalização, muito da glamourização que envolve a droga é também eliminada, e isso afasta potenciais consumidores, jovens que idealizam na droga uma forma de parecerem mais atraentes e independentes (mais ou menos como se fez no século passado com o cigarro). No Brasil, não há distinção clara entre quantidades para diferenciar usuário de traficante, o que dificulta o tratamento específico e coloca no mesmo patamar duas figuras em diferentes níveis.

Traficante

O crime organizado obtém dinheiro para financiamento de armas principalmente através do tráfico de drogas ilegais, majoritariamente a maconha, cocaína e crack, no Brasil. Na maioria das vezes, as três substâncias são vendidas pelos mesmos indivíduos, o que justifica o senso comum de que a maconha é porta de entrada para drogas mais pesadas: ao entrar em contato com o traficante, é mais provável que o usuário busque experimentar drogas muito mais viciantes e nocivas que a maconha, como a debilitante cocaína e o mortal crack, muito mais lucrativas para o traficante e prejudiciais para o usuário, além de colocar a si mesmo em situações de risco ao travar contato com criminosos armados e violentos.

Legalizando o consumo, esse problema seria eliminado, uma vez que o contato do usuário se daria diretamente com fornecedores, regulamentados pelo Estado, que, como com a venda de álcool e cigarros, teria uma porcentagem de impostos revertida sobre a venda da maconha. Talvez seguindo o exemplo do Colorado, que reverterá os primeiros U$ 40 milhões adquiridos para a construção de escolas públicas. Não seria essa, especialmente no Brasil, uma política mais lucrativa do que o entulhamento de cadeias com usuários, colocando-os em contato com traficantes e criminosos mais experientes?

Lembrando as palavras do sociólogo Nildo, a estigmatização do usuário não mudará, mesmo com a legalização, o que impede que a mesma seja viável socialmente para o País. Mas e as opções intermediárias, como a legalização do plantio pessoal (como na Argentina) e do consumo médico (como nos EUA)? Em 14 países da Europa, o usuário foi descriminalizado, o que trouxe menores custos para o Estado no que se refere ao tratamento de usuários de drogas pesadas – o que não é o caso da maconha.

Enquanto isso, no Brasil, a Aliança de Controle do Tabagismo (ACT) revela que o Brasil gasta R$ 21 bilhões no tratamento de pacientes com doenças relacionadas ao cigarro, registrando 130 mil óbitos anuais, ou 350 mortes por dia. Enquanto isso, o consumo da maconha alivia a dor de pacientes de câncer terminais, não causa overdose, faz menos mal do que cigarro, álcool e cocaína, e ainda tem em sua planta as possibilidades de uso do cânhamo e de diversos óleos úteis para a saúde. A diferença entre eles, aparentemente, nada mais do que uma questão de costume.

Via DM – Diário da Manhã
Por Pietro Bottura