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Música

Música: Feminine Hi-Fi reúne mulheres da Jamaica e do Brasil no clipe Femina Ganja

A Feminine Hi-Fi, projeto e selo paulistano comandado por mulheres e focado na linguagem do reggae e sound system, lançou no último dia 10 de outubro a faixa “Femina Ganja“. O single, produzido por Digitaldubs, conta com vozes e composição das cantoras Lei Di Dai, Laylah Arruda, Mis Ivy, Shirley Casaverde e também da jamaicana Sister Carol. A notícia é do site de música ZonaSuburbana.

Femina Ganja traz para os ouvintes o formato que se popularizou na Jamaica a partir dos anos 1960 e se espalhou por todo o mundo nas festas de sound system. Nele, diversos cantores versam sobre o mesmo riddim (nome dado na Jamaica à base instrumental), o que inspirou ao longo do tempo outros gêneros e vertentes musicais, como o rap e seus cyphers.

A jamaicana Sister Carol, nascida em Kingston, foi criada no bairro do Brooklin, em Nova York, e abriu sua própria gravadora, chamada Black Cinderella, nos anos 1980. É uma das vozes femininas pioneiras do reggae mundial. Também conhecida como Mother Culture, traz em suas letras mensagens conscientes sobre temas como poder feminino, ancestralidade e sociedade. Em passagem pelo Brasil em 2018, Carol se reuniu às cantoras Laylah Arruda, Lei Di Dai, Mis Ivy e Shirley Casaverde sob produção musical do Digitaldubs, e o resultado foi o single “Femenina Ganja”.

A faixa está disponível em todas as plataformas digitais, e a estreia vem acompanhada de videoclipe, dirigido por Bianca Hoffmann.

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Notícias sobre maconha

“Vaginas Ingovernáveis”: Sobre Mulheres e Maconha

Na coluna #AGORAÉQUESÃOELAS da Rebeca Lerer, jornalista e ativista de direitos humanos.

Entre uma tragada e outra no baseado para lidar com a cólica e sensibilidade típicas dos dias de TPM, reproduzindo um hábito feminino ancestral, reflito: não é por acaso que, em 2017, em meio ao caos político e sentimentos generalizados de derrota da democracia, o feminismo e o movimento pela legalização da maconha e fim da guerra às drogas representem duas das mais potentes lutas sociais no Brasil e no mundo.

As organizações horizontais de mulheres e usuários de drogas vêm pautando ruas e redes em defesa de direitos e ocupando espaços simbólicos e midiáticos inimagináveis há poucos anos. O movimento pelo fim da guerra às drogas tem acumulado avanços com leis pela legalização da maconha aprovadas em 29 estados norte-americanos, o anúncio da regulação federal da maconha no Canadá para 2018, o caso pioneiro do Uruguai em 2013 e a progressiva oferta do óleo de cannabidiol para tratar pacientes que sofrem de epilepsia e outras doenças.

Os avanços na legalização da maconha revelam também o protagonismo feminino na mudança cultural em torno da questão das drogas nos Estados Unidos. São notoriamente mães que estão à frente do renovado grito #BlackLivesMatter, questionando o racismo, a violência policial e o encarceramento em massa associados à política de drogas norte-americana. Ainda que o modelo capitalista de legalização não resolva o profundo passivo de violações contra negros e latinos nos EUA, é fato que a onda canábica criou oportunidades inéditas para mulheres e empreendedoras no país. Na Califórnia, mulheres trocaram os brindes com vinho pela congregação com a erva em reuniões para falar sobre maternidade e família. A nova indústria da maconha nos EUA é, curiosa e espetacularmente, o primeiro negócio bilionário na história do país a ter grande parte de CEOs e lideranças femininas.

No Brasil, apesar do crescimento do debate, ainda sopram as brisas do retrocesso. A política de drogas brasileira insiste na guerra contra pessoas pobres e negras e na criminalização de trabalhadorxs do comércio e usuárixs de substâncias consideradas ilícitas, gerando estigma, corrupção e violência. O fracasso é explícito no contínuo aumento do consumo de drogas e na marca de 60 mil assassinatos por ano, que tornou o país o recordista mundial em números absolutos de homicídios.

Mulheres negras moradoras das periferias brasileiras sofrem desproporcionalmente os efeitos negativos dessa lógica falida. Na rotina da guerra, que inclui operações policiais fortemente armadas com blindados e fuzis em comunidades e favelas densamente populadas, uma parcela dessas mulheres perde filhos jovens e negros mortos pela polícia ou presos; irmãos e maridos acabam envolvidos com o varejo do tráfico de drogas, encarcerados ou assassinados. Em visitas, companheiras de presidiários acabam submetidas a revistas vexatórias e humilhações de toda sorte. Multiplamente violentadas pelo Estado e com vidas marcadas pelo luto, ainda cabe à essas mulheres garantir o sustento de suas famílias.

Entre 2000 e 2014, justamente o período pós-alteração na Lei de Drogas de 2006 que endureceu as penas mínimas para tráfico, aumentou em 503% o número de presas. Hoje, são mais de 40 mil encarceradas em masmorras superlotadas e indignas. Cerca de 63% estão presas por crimes relacionados a drogas, a maioria sem antecedentes criminais, muitas delas mães e únicas fontes de renda de residências periféricas.

O estigma sobre as mulheres envolvidas com o varejo das drogas ilícitas é infinitamente maior do que o que atinge os homens. Basta observar a fila de visitas a uma cadeia feminina e verificar que uma mulher presa é geralmente abandonada pelos machos ao redor; o que lhe resta é a solidariedade de irmãs, mães, tias, madrinhas, amigas e filhas. São os conceitos de “sororidade” e “solidão da mulher negra” aplicados em suas mais nuas e cruas traduções.

Em outra proporção, também bastante danosa, o estigma contra mulheres usuárias de drogas, mesmo as brancas e de classe média, anda de mãos dadas com o machismo. Parte considerável dos relatos de violência sexual envolve o uso de alguma droga como “justificativa” para o comportamento, seja da vítima ou do agressor. Se a mulher estava “bêbada” ou “drogada”, a cultura do estupro automaticamente a rotula, culpabiliza e desacredita; quando é o homem que se embebedou, a culpa da agressão é do “álcool.”

O proibicionismo das drogas visa controlar nosso direito à consciência e ao prazer, assim como o machismo nega a soberania da mulher sobre o próprio corpo. Combinadas, tais práticas alimentam o racismo e a criminalização da pobreza e estão vinculadas às graves crises de (in)segurança pública, encarceramento e violência de gênero que vivemos no Brasil.

Não há, portanto, como ser feminista sem ser antiproibicionista – e vice-versa.

Como acontece em todos os ambientes ditos “progressistas”, mulheres se defrontam com culturas machistas e misóginas dentro do próprio movimento pelo fim da guerra às drogas. Para garantir respeito e pautar o feminismo no debate, usuárias e ativistas têm se organizado na Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, no Bloco Feminista Da Marcha da Maconha São Paulo, na Ala Feminista da Marcha da Maconha Rio de Janeiro e no Coletivo Maria Fumaça de Minas Gerais, entre outras iniciativas pelo Brasil que promovem encontros, conversas e ações ao longo do ano.

Por aqui, depois do voto do STF que assegurou o direito de marchar pela legalização da erva em 2011, o movimento cresce. Em 2016, 30 cidades brasileiras se manifestaram pelo fim da guerra às drogas; só na capital paulista, mais de 40 mil pessoas realizaram um dos maiores atos recentes de desobediência civil a romper o binarismo que marca o atual ciclo político. Este ano, pelo menos 27 cidades já agendaram marchas da maconha no Brasil; em São Paulo, o ato acontece neste sábado, dia 06 de maio, no MASP, a partir das 14h20.

Acabou o baseado. A cólica melhorou. Concluo essa reflexão esperançosa porque somos maconheiras de luta, somos vaginas ingovernáveis em busca de liberdade.

Nos vemos nas ruas. Vamos juntas.

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Ativismo

8 de março – Mulheres e drogas: contra o proibicionismo, por nossos corpos

8 de março não é um dia apenas para parabenizá-las e sim um dia em que deve-se celebrar algumas mudanças efetivas para melhor na vida delas, em séculos de batalha, além de ser um lembrete para continuarmos apoiando e gritando com o feminismo popular, que está em luta denunciando toda opressão vivida pelas mulheres em um sistema machista, mercantilizador, lesbofóbico e racista.

Em virtude da data buscamos um texto publicado originalmente no blog Marcha Mundial das Mulheres, escrito por Thandara Santos*, que mostra a proibição das drogas como o principal fator do alto número de mulheres encarceradas no Brasil e o porquê que cada vez mais as mulheres devem gritar pelos seus direitos.

“Atualmente a maioria das mulheres no sistema prisional brasileiro foram condenadas por tráfico de drogas ao levarem drogas para dentro dos presídios para seus companheiros, maridos, filhos e irmãos encarcerados.” 

Segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional, o número de presos e presas no Brasil cresceu 121% entre 2000 e 2011, atingindo, em dezembro de 2011, uma população carcerária total de 514.582 pessoas. Esse crescimento, no entanto, carrega especificidades muito claras sobre a condição das mulheres no “mundo do crime”: nesse mesmo período, o número de mulheres encarceradas cresceu 252%, contra um crescimento de 115% da população carcerária masculina e, enquanto as condenações dos homens perpassam grande parte do nosso Código Penal, 47% de todas as mulheres encarceradas no Brasil em 2011 pagava por um único crime, o tráfico de drogas.

A esmagadora maioria destas mulheres foi enquadrada por tráfico na legislação de Drogas e Entorpecentes, reformulada em 2006, ao levarem drogas para dentro dos presídios para seus companheiros, maridos, filhos, irmãos, etc, encarcerados. É preciso problematizar essa política de drogas que entende o encarceramento em massa como resposta ao tráfico de drogas, mas fecha os olhos para a estrutura do crime organizado que está sendo cada vez mais fortalecida e financiada pelo próprio dinheiro do tráfico, que entra nos presídios, na maior parte das vezes, pelas mãos destas mulheres que lhe servem como instrumento.

Para além da denúncia da falência desta política de drogas como forma de superação da violência e da criminalidade financiada pelo tráfico, é preciso que o movimento feminista se engaje verdadeiramente na luta antiproibicionista e busque revelar quais os pressupostos por trás dessa noção de “proibição” às drogas, que se sustenta e se reproduz nos corpos destas mulheres exploradas pelo tráfico e submetidas aos abusos físicos e morais já rotineiros do sistema penitenciário feminino, e de que forma esses pressupostos compõem uma estrutura muito mais ampla de dominação de nossos corpos.

A revolução social por trás da ideia de superar os limites e as imposições do proibicionismo às drogas se alimenta da mesma fonte do feminismo no Brasil e, por isso, não pode se distanciar dessa luta. Ambas revelam a mais dura face do conservadorismo que insiste em tomar as formulações de políticas públicas, as deliberações legislativas, os debates veiculados pela grande mídia e o senso-comum (des)informado pela mesma grande mídia que se fortalece a cada dia e se dissemina.

Aperte e Leia Por que um bloco feminista na Marcha da Maconha
Feminista da Marcha Mundial das Mulheres em todo o Brasil

Em ambos os casos, esse conservadorismo e a utilidade de sua perpetuação têm origem e nome: no caso da luta antiproibicionista, ele nasce, principalmente, pautado pelos interesses da grande indústria farmacêutica capitalista moderna, que se alimenta e se reproduz a partir do monopólio sobre as possibilidades de exploração da mente e dos corpos animais; já no caso da luta feminista, o conservadorismo é filho único do capitalismo patriarcal, que fundamenta a divisão sexual do trabalho, fonte da exploração da mulher, de seu corpo e de sua mente.

A indústria farmacêutica representa o capital que determina a intervenção sobre o corpo e que monopoliza as possibilidades de abstração mental, enquadrando as diferentes lógicas de pensamento e níveis de consciência em “desvios mentais” passíveis de serem tratadas a partir de medicamentos monopolizados por 2 ou 3 grandes indústrias e criados sem qualquer participação ou controle por parte dos usuários.

Assim como a discussão sobre a mercantilização do corpo e a indústria do consumo enfoca as mulheres, a discussão sobre o proibicionismo passa pela superação do capitalismo monopolista que cria os mais diversos “desvios sociais”, travestidos de fatores os quais, supostamente, inviabilizariam sua vida social e, portanto lhe anulariam como ser humano e ser social “bem sucedido” (como a obesidade, a flacidez, a introspecção, a timidez, a depressão, as espinhas, etc). Em paralelo, o mercado cria e monopoliza os artifícios para superação desses “desvios”, tais como: os cosméticos e as cirurgias plásticas para os “desvios” do corpo e da aparência que impossibilitariam sua plena sociabilidade; e os remédios, anti-depressivos, estimulantes, etc para os “desvios” da mente, que também inviabilizariam sua vida em sociedade. Ambas crias do capitalismo, ainda que datadas de forma diversa, as bases desse conservadorismo geram um mesmo produto: a negação da autonomia.

O debate sobre as drogas trás em seu bojo o questionamento da divisão entre público e privado, tão central na luta feminista, uma vez que a proibição incide sobre os estímulos psicoativos que são criados e disponibilizados pela natureza e, naturalmente/milenarmente, apropriados pelos seres humanos como forma de explorar suas potencialidades mentais. O proibicionismo, portanto, incide sobre a auto-determinação dos corpos, mas principalmente sobre a auto-determinação das mentes e das possibilidades de explorações dos limites mentais.

Na luta feminista, a negação da auto-determinação dos corpos se manifesta no machismo que determina comportamentos como femininos e não-femininos, que justifica o estupro pelo uso de determinadas roupas e por determinadas formas de se portar em público, que entende o corpo feminino como seu espaço de dominação e o encerra cotidianamente ao espaço privado, mas, principalmente, se manifesta na proibição do aborto, que mata milhares de mulheres diariamente e nega a autonomia de decisão sobre a maternidade a todas nós.

A ordem social que proíbe as drogas é também a ordem que se mantém a partir da exploração do corpo feminino e, portanto, só poderá ser superada quando essas lutas se unirem. Seguiremos em marcha até que [email protected] sejamos livres do capitalismo patriarcal, do conservadorismo e da restrição às mentes e corpos.

Acompanhe o Blog Marcha Mundial das Mulheres

* Thandara Santos é cientista social, pesquisadora do campo da Segurança Pùblica e militante da Marcha Mundial das Mulheres – São Paulo.