A questão da legalização da maconha pode ter as mais diversas ramificações, se estendendo aos aspectos mais visíveis no dia a dia. O sujeito não necessariamente precisa ser consumidor de Cannabis para se deparar com situações ou resultados de seu consumo. Uma observação mais aprofundada da cultura pop faz com que seja possível descrevermos o fenômeno da maconha na música, na moda, na literatura e no cinema.

Em meio ao “politicamente correto/careta” do Brasil atual, o cantor Marcelo D2 é visto como o típico “carioca sangue bom”, adepto da mistura entre samba e hip hop. Na segunda metade dos anos 90, D2 era um dos cabeças da banda Planet Hemp que se posicionou em favor da legalização da maconha no Brasil.

Após três álbuns o Planet Hemp se desfez. D2 seguiu carreira solo, ascendendo na cena musical nacional e desvinculando-se da imagem que a banda lhe criou. No entanto, o cantor sempre afirmou ser usuário. Agora em 2013, o Planet Hemp se reuniu para alguns shows, mas sem pretensão de prosseguir uma carreira regular.

Escute a faixa de “Queimando Tudo” do Planet Hemp

A contracultura dos anos 60 do século XX, nos EUA, apontava para o uso de entorpecentes, uso este que buscava a alteração dos estados estéticos dos usuários. Fossem eles escritores, poetas ou músicos. Neste caso, não apenas a maconha se incluía, mas também o uso de LSD dentre outras substâncias. Escritores hoje descritos como beatniks talvez o tenham sintetizado os efeitos, não só da maconha, da melhor forma literária.

A tosse introdutória de “Sweet Leaf”, canção que iniciava o álbum “Master of Reality” do Black Sabbath de 1971, era um engasgo do guitarrista Tony Iommi decorrente de um baseado. O título traduzido, quer dizer “doce erva” e a canção é uma ode a maconha.

O Sabbath, de origem britânica, emplacou em território Yankee e se adequou bem à atmosfera do pós-1969/Woodstock. Vale lembrar que foi Bob Dylan quem apresentou a maconha aos Beatles. O rock e os entorpecentes nunca se dissociaram.

A junção entre música e maconha sempre foi enfática e artisticamente produtiva em meio ao reggae. A obra de Bobr Marley ou Peter Tosh é unívoca a maconha, sendo que a planta possui cunho religioso na Jamaica, algo a que muitos se referem como “cultura rasta”.

Ouça “Sweet Leaf” do Black Sabbath
https://www.youtube.com/watch?v=H3YtvuZ2-I0

Hoje datado mas futurista à 30 anos atrás, “Neuromancer” (1984) obra literária de William Gibson (semi plageada pelo filme “Matrix”/1999, talvez mais datado ainda), foi o pilar da estética cyberpunk e surgiu permeado de referências a “cultura rasta”.

Em dado momento da trama há um rebocador que transporta os protagonistas Case e Molly, chamado Marcus Garvey. Garvey foi um dos precursores da “cultura rasta” na década de 20, do século XX e que remetia a Etiópia, na África. Ele desejava que os negros tornados escravos voltassem ao continente africano para ouvir dub, gênero musical descendente do reggae, e usar “ganja” termo que denomina maconha. O uso da erva é sacramentado. O termo Zion (ou Sião, bíblico) é usado para descrever a terra prometida, dos rastas, dos personagens de “Neuromancer” e também de “Matrix”. Tudo, em nome de Jah (ou Jeová).

Se o futuro remetia ao passado o presente faz o mesmo. O rapper norte-americano Snoop Dogg sintomáticamente rebatizou-se Snoop Lion. Ainda se considerando um gangstha rapper, Snoop fez uma viagem a Jamaica em 2012 no intuito de conhecer e divulgar a “cultura rasta”. Compôs um álbum de reggae chamado “Reincarnated” além de um documentário homônimo sobre sua jornada.

Veja o trailer do documentário “Reincarnated” de Snoop Lion

por Alexandre Kazuo, via Yahoo! Contributor Network