Visando principalmente a segurança das crianças, grupos exigem maior rigidez por parte dos fabricantes de comestíveis canábicos. Entretanto, não adianta lançar uma nova linha de embalagens, com mais informações e resistentes as crianças, quando no fim, a segurança de um item comestível depende em grande parte do consumidor.
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Doce em formato de ursinho com maconha (esq.) é colocado ao lado de outro, sem a erva: são quase idênticos

Com a comemoração tradicional do Dia das Bruxas nos Estados Unidos, o Departamento de Polícia de Denver e o dono de uma loja que vende maconha se juntaram para fazer um vídeo de utilidade pública que só poderia existir nesse novo e estranho mundo da maconha legalizada.

“A maconha nem sempre se parece com maconha”, alertaram aos pais das crianças que pediriam doces na vizinhança. Cada vez mais ela pode imitar doces populares nos EUA como Sour Patch Kids, Jolly Ranchers e ursinhos gelatinosos, e a polícia alertou os pais para checarem as prendas de Dia das Bruxas dos filhos em busca de doces com aparência suspeita que podem ter sido adulterados com maconha.

“De fato não há como diferenciar”, disse em um vídeo Patrick Johnson, dono da Urban Dispensary. E acrescenta: “o melhor é simplesmente jogar essas coisas no lixo.”

Para alguns defensores da maconha, o alerta faz parte das lendas urbanas obscuras sobre chocolates envenenados e doces com lâminas de barbear dentro.

Não houve nenhum caso registrado de doces adulterados com maconha distribuídos no Dia das Bruxas aqui nos Estados Unidos. Até porque a maioria da “maconha comestível” vem em pacotes pouco atraentes que não se parecem em nada com os doces comuns. Ainda assim, a mensagem ressaltou uma preocupação crescente entre grupos de pais e agências reguladoras com a abundância das novas variedades de maconha comestível — e legalizada — que se parecem muito com alimentos comuns.

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Mapa da legalização da maconha nos EUA

  • Uso medicinal e recreativo legalizado
    Colorado e Washington
  • Uso medicinal legalizado
    Arizona, Califórnia, Connecticut, Delaware, Distrito de Columbia, Havaí, Illinois, Maine, Maryland, Massachussets, Michigan, Montana, Nevada, New Hampshire, New Jersey, Novo México, Oregon, Rhode Island, Vermont
  • Legalização em análise
    Flórida e Alaska

Desde que as vendas de maconha para uso recreativo começaram aqui em janeiro, a maconha comestível se tornou um item campeão de vendas nos estabelecimentos no Colorado. É uma forma saborosa e doce para os que experimentam maconha pela primeira vez — ou para as pessoas ficarem alteradas sem tossir ou ficarem impregnadas do cheiro da fumaça. Mas uma série de ingestões acidentais por crianças e adultos, além de duas mortes ligadas à maconha comestível neste ano, motivaram pedidos generalizados para restringir o ramo comestível do mercado de maconha.

Enquanto algumas companhias estão fazendo refrigerantes sabor tangerina e barras de chocolate amargo infundidos com a droga, defensores de uma regulação maior para a maconha dizem que outros estão simplesmente cobrindo jujubas coloridas e cereais matinais com apelo para crianças com óleo de cannabis e vendendo-os por preços bem mais altos. E os críticos argumentam que até mesmo os consumidores experientes de maconha estão ficando doentes ou perdendo o controle depois de consumir doces com maconha que são muito mais potentes do que imaginavam. Um único doce ou refrigerante pode ter THC – o principal químico psicoativo presente na maconha – suficiente para servir dez pessoas.

De acordo com as novas regras aprovadas pelas agências reguladoras estatais, alguns doces potentes que antes continham doses de 100 miligramas de THC estão sendo reduzidos para 10 miligramas por porção, quantidade que foi designada como uma dose única. E a partir de fevereiro próximo, mais itens comestíveis virão em pacotes à prova de crianças e serão embrulhados em plástico e folhas de alumínio similares aos usados para guardar remédios controlados.

Regras insuficientes

Mas alguns funcionários acham que as novas regras não são suficientes. Neste mês, o departamento de saúde do Colorado chegou a recomendar uma proibição de quase todas as formas de maconha comestível, desde brownies a biscoitos e balas, dizendo que sua proliferação confunde os consumidores e atrai crianças que não sabem a diferença. A proposta não ganhou muito apoio, mas mostrou as profundas divisões entre os fabricantes de maconha e os funcionários de saúde pública que agora estão discutindo as embalagens dos comestíveis, se devem ter rótulos e selos mais claros, e com que rigor devem ser regulados.

Julie Dooley e um sócio começaram a fabricar doces infundidos de maconha anos antes que os eleitores dos Estados de Colorado e Washington se tornaram os primeiros a legalizar a maconha para uso recreativo para adultos. Isso ajudava a aliviar seus problemas de saúde, e funcionava para as mulheres com problemas de ansiedade. Os usuários queriam consumir discretamente perto de seus filhos, então cozinhar com manteiga enriquecida de cannabis parecia a escolha ideal. Hoje, a companhia de Dooley, a Julie’s Baked Goods, vende granola, barras de cereais, sementes de girassol e chocolates com infusão de cannabis para mais de 30 lojas em todo o Estado.

Brownie THC

Dooley disse que ficou consternada com a proposta de banirem sua granola, e disse que parecia ilegal de acordo com a Emenda 64, a medida aprovada pelos eleitores que colocou a legalização da maconha na Constituição do Colorado. Mas isso também mostra que os reguladores não conhecem o setor, diz.

“Eles claramente não consideram o motivo pelo qual criamos os itens comestíveis”, diz ela. “Acreditamos profundamente que a maconha é um remédio.”

Ela e outros empresários da maconha dizem que o medo em relação aos comestíveis ultrapassou a realidade. Durante a primeira metade do ano, médicos do pronto-socorro do Hospital Infantil Colorado soaram o alerta depois de terem tratado nove crianças que tinham acidentalmente comido maconha – mais do que o número total de casos em 2013. Desde o fim de maio, o hospital teve mais cinco casos de crianças passando mal por comer maconha.

“Não há crise, não há emergência”, disse Dooley. “O medo está grande demais agora.”

Mas funcionários do centro de controle de envenenamentos do Colorado disse que os telefonemas por causa de crianças expostas à maconha aumentaram de 11 em 2010 para 26 no ano passado, depois que a maconha recreativa foi legalizada, mas antes das vendas ao varejo começarem. Adultos também se enganaram. Em agosto, sete pessoas que foram à feira do condado de Denver disseram que comeram chocolates com maconha acidentalmente de um vendedor do Pot Pavilion, recém-inaugurado na feira, que garantiu que os doces não continham maconha.

“Não dá para saber o que tem maconha e o que não tem”, diz Gina Carbone, uma das fundadoras do Smart Colorado, que defende controles mais rigorosos para manter a maconha longe das crianças.

Uma empresa do Colorado começou a seduzir os pais preocupados com kits de exame para maconha de US$ 15 que usam uma solução sensível ao THC para determinar rapidamente se um biscoito ou doce que parece inócuo contém maconha.

Alguns defensores dizem que os comestíveis devem ter uma marca ou selo que os identifique de forma inequívoca que contêm maconha, da mesma forma que a marca Hersheys aparece em relevo na própria barra de chocolate, ou que os confeitos M&M e Jelly Bens trazem uma insígnia estampada.

Mas os fabricantes de comestíveis resistem à ideia, dizendo que o equipamento necessário custaria dezenas de milhares de dólares, aumentando o preço dos comestíveis e possivelmente tirando mais consumidores das lojas e levando-os de volta ao mercado negro. E há problemas práticos, dizem eles: como você coloca um marca em um caramelo ou em um pacote de granola? E alguns fabricantes dizem que marcar uma barra de chocolates com a palavra “MACONHA” pode na verdade ter efeitos perversos, tornando-a mais atraente para crianças curiosas.

Lindsay Topping, diretora de marketing da Dixie Elixirs and Edibles, uma fabricante de bebidas e doces com maconha de Denver, diz que sua empresa já está preparando uma nova linha de embalagens resistentes a crianças. Mas, no fim, a segurança de um item comestível depende em grande parte do consumidor.

“Não posso controlar como os pais guardam isso”, diz. “Está fora do meu alcance uma vez que entra nas casas.”

Artigo traduzido por Eloise De Vylder via The New York Times para o Terra