Criadora do projeto “Aquele Abraço” organizou evento em SP para se aproximar dos dependentes de crack e ajudá-los a resgatar cidadania

As ruas do centro de São Paulo que fazem parte da chamada “cracolândia” foram palco de um sábado diferente. Os usuários de crack que vivem e perambulam pela região se reuniram hoje para celebrar a primeira “Festa Junina da Cracô”, iniciativa promovida pela assistente social aposentada Albertina Galvão, 70 anos, carinhosamente chamada por eles de “dona Tina”. Há um ano, ela decidiu sair às ruas uma vez por semana para distribuir abraços – geralmente à noite e sozinha – , entre a os dependentes químicos da vizinhança. A partir daí, nasceu o projeto “Aquele Abraço”, uma espécie de terapia baseada no carinho e na busca pelo resgate da dignidade da população usuária de drogas.

“O ato de abraçar traz para perto de nós os usuários. O nosso papel é fazer com que eles voltem a adotar certos cuidados. A dignidade continua aí”, disse.

Com o apoio de moradores e comerciantes da região – e dos grupos não-governamentais Coletivo Desentorpecendo A Razão (DAR), Centro É de Lei e Fora do Eixo -, dona Tina decorou com bandeirinhas e balões da festa de São João uma quadra da alameda Dino Bueno, que fica próxima à estação da Luz. Preparou cachorro-quente, pipoca e suco, e comprou doces como paçoca e pé-de-moleque para distribuir entre os convidados. Também chamou um músico que, com um teclado e uma caixa de som, ficou responsável por tocar forró durante a tarde ensolarada, que terminaria com um debate sobre direitos humanos e o tratamento dado aos dependentes químicos, e confecção de cartazes para serem colados pela vizinhança.

“A festa junina é uma celebração típica do Brasil que não saiu da memória deles. Falei com eles e o pessoal se animou”, contou a aposentada, que incentivou os usuários a ajudarem nos preparativos. “Eles mesmos vão fazer uma roda de samba hoje. E pediram para cantar o Hino Nacional. Hoje é um dia de alegria, mas também de reflexão”, completou.

No convite divulgado pelas redes sociais, o recado era claro: o objetivo do evento é lembrar a sociedade que a região existe. “Queremos mostrar que aquele pedaço faz parte da cidade e que as pessoas que costumam frequentá-lo são gente boa como a gente!”, dizia o informativo.

Redução de danos
Quase 4 mil pessoas foram convidadas pelo Facebook, mas a maioria dos convidados que apareceram não frequentam a rede social: eram dependentes químicos que, mesmo em meio ao visível entusiasmo e alegria em participar da comemoração, não conseguiam deixar de se drogar durante a festa, que começou por volta das 14h.

A metodologia da assistente social, acostumada a trabalhar com a população carente (como moradores de rua, detentos e travestis), busca minimizar os danos provocados pelas drogas, mas não prega a abstinência, considerada por ela muito radical.

“Aqui quem apita é quem pita”, disse a assistente social, explicando ser contra medidas como a internação involuntária, empregada no início do ano pelo governo de São Paulo. “Não tem como dar certo um tratamento que não busca ouvir os usuários. Querer se tratar tem que partir deles. A gente incentiva, fala para buscar ajuda, explica que faz mal. Nós tentamos fazê-los voltarem a se cuidar aos poucos”, explicou dona Tina, que é favorável à iniciativas que visam substituir o uso do crack por drogas menos agressivas, como a maconha, por exemplo.

Medidas nesse sentido já foram adotadas por outros países no enfrentamento às drogas. Em Portugal, por exemplo, agentes de saúde distribuíam seringas descartáveis entre usuários de heroína para diminuir a transmissão de doenças como a aids, conforme explicou ao Terra o presidente do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT), em entrevista publicada em março sobre uma das políticas antidrogas mais respeitadas do mundo.

Questionada se não teme sofrer algum tipo de violência durante a distribuição de abraços – já que o crack causa sérios transtornos psicológicos aos usuários -, dona Tina negou qualquer receio. “Meus irmãos tinham medo no começo, mas eles já se acostumaram. Minha mãe também sempre trabalhou com isso, ajudou muita gente nessa área. E eles me reconhecem. Me reconhecem bastante e gostam de mim”, garante a aposentada, que logo se levanta para conversar e distribuir novos abraços entre os convidados da festa.

“Essa mulher é um anjo”, disse uma dependente química, ao presenciar a conversa entre dona Tina e a reportagem.
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Fonte: Terra
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