A cientista política Ilona Szabó, de 35 anos, e o psiquiatra e especialista em dependência química Ronaldo Laranjeira participavam de um acalorado debate no programa “Roda Viva”, da TV Cultura, exibido em maio, sobre política de drogas no Brasil. Os dois não se entendiam. Ilona, que é diretora da Rede Pense Livre, cuja principal bandeira é a descriminalização das drogas, aproveitou o intervalo para dizer a Laranjeira que ele estava “mal informado” e usava dados “desatualizados”. O psiquiatra retrucou: “Cresça e apareça, menina. Quem você pensa que é?”.

Ilona é coordenadora desde 2008 da Comissão Global de Política sobre Drogas e Democracia. Trabalha ao lado de líderes globais como os ex-presidentes César Gaviria (Colômbia), Ernesto Zedillo (México) e Ruth Dreifuss (Suíça), além de Fernando Henrique Cardoso, de quem ficou amiga. Também é diretora e fundadora do Igarapé, instituto dedicado à integração das agendas segurança e de desenvolvimento, que tem a Rede Pense Livre como um de seus projetos.

Ela ganhou fama ao participar como roteirista do documentário “Quebrando o tabu”, filme que trata da descriminalização das drogas, conduzido por Fernando Henrique e visto por mais de 20 mil pessoas.

Numa das salas do seu escritório, que funciona num prédio no Humaitá, Ilona fala horas sem parar. No quadro branco afixado na parede, está o cronograma que dá a dimensão de seu trabalho. Ali estão inscritos projetos, seminários e palestras de temas variados a serem realizados até 2015 em países da Europa, da África e da América do Sul.

— Política de drogas não é discutida no Brasil. Ninguém está dizendo que as drogas fazem bem, mas sabemos que elas funcionam como combustível do ciclo da violência, que começa com a extorsão, a corrupção e a morte. As drogas fazem parte do mercado ilícito mais lucrativo do mundo. Quem ganha com esse sistema de produção? Só o crime organizado. Todo o resto perde — afirma.

Intercâmbio na Letônia

Ela conta que o nome Ilona Szabó é uma homenagem à avó materna, que veio da Hungria para o Brasil após a Segunda Guerra e de quem ouviu histórias durante a infância em Nova Friburgo. Ali, acredita, começava o fascínio pelo tema. Estudava no tradicional Colégio Anchieta e na adolescência surpreendeu a todos ao escolher a Letônia, um país pobre da antiga União Soviética, como destino para um intercâmbio de um ano.

— Eu já falava inglês e não me interessava ir aos Estados Unidos. Aí peguei o atlas e vi que havia muitos países interessantes do Leste Europeu para conhecer. Minha mãe ainda falou: “Pensa direitinho, lá é muito frio”. Mas fui mesmo assim — diz ela, que é filha de um engenheiro naval e uma jornalista.

Além do frio intenso, Ilona enfrentou um país em transição. Nas ruas, havia dois idiomas: o russo e o letão, que aprendeu em quatro meses. A pedido de sua “mãe” do intercâmbio, dava palestras em letão para estudantes de origem russa, mostrando que era possível aprender o idioma facilmente. Na sua casa, a calefação não funcionava direito, e a comida era racionada:

— Passei quatro meses tomando banho de caneca porque não havia água quente e me virava comendo massa com ketchup. Quando queria falar com meus pais por telefone, ligava para Moscou e entrava na “chamada em espera”, que às vezes demorava três dias.

Mesmo com estilo de vida impensável para uma adolescente, ela completou o intercâmbio. Na volta, já se considerava uma cidadã do mundo e escolheu cursar relações internacionais. Já morando no Rio e dando aulas de inglês para pagar as contas, conseguiu estágio num banco de investimento. O problema é que não se sentia à vontade no trabalho.

— Lembro que as pessoas se referiam a mim como “aquela menina estranha que morou na Letônia” — diz, aos risos.

“O pulo do gato”, como a própria define, aconteceu quando leu um artigo do antropólogo inglês Luke Dowdney, fundador da ONG Luta Pela Paz, em que comparava crianças soldados a crianças do tráfico:

— Aquele artigo me tocou profundamente. Estava decidida: ia encontrar aquele homem de qualquer jeito.

Ilona é tão determinada que, mesmo já tendo conseguido uma bolsa de mestrado em estudos de conflito e paz na Universidade de Uppsala, na Suécia, ela arrumou um jeito de encontrar Luke numa festa da namorada dele.

Após a conclusão do mestrado e de um curso de pós-graduação que resolveu emendar na Noruega, os dois foram finalmente trabalhar juntos no Viva Rio, que, na época, iniciava uma campanha nacional de desarmamento.

— Ela era muito interessada e comprometida com o tema, mostrou isso desde o início e, em duas semanas, o Rubem César Fernandes (presidente do Viva Rio) puxou a Ilona para o grupo dele — brinca Luke.

Com apenas 25 anos, a jovem ajudou na montagem do primeiro posto de recolhimento de armas do Rio. Participou de dezenas de palestras e debates antes do referendo que não proibiu, para sua tristeza, a comercialização de armas de fogo no país (“Ninguém entendeu como isso pôde acontecer”). Foi nesse período que conheceu Fernando Henrique.

— Fiquei impressionado com o domínio técnico dela sobre a questão da violência e do contrabando de armamento. Mais tarde, em um encontro em Genebra, fiquei novamente bem impressionado com a segurança que ela demonstrava na argumentação da matéria — lembra FHC.

ilona

O ex-presidente não mede elogios à amiga Ilona e sua “invejável habilidade para organizar redes pela internet”:

— Em poucas palavras, a competência técnica, a devoção ao trabalho e a capacidade organizacional de Ilona a fazem uma das mais brilhantes profissionais de sua geração.

Ilona faz jus à fama. Fala cinco idiomas: inglês, espanhol, francês, russo e letão (os dois últimos ela diz que estão meio “esquecidos”). Depois abre parênteses, para dizer que isso “não é muito”, já que a sua mãe fala sete línguas.

Ilona também chama atenção pela sua beleza. E tem resposta para tudo. Despeja uma infinidade de percentuais sobre violência ao longo da conversa: “No Brasil, 70% dos homicídios são cometidos com armas de fogo”; “O homicídio é o crime que menos acaba em prisão no Brasil, menos de 8% desses crimes vão a julgamento”. E por aí vai.

— A política de drogas hoje é extremamente seletiva. O menino que fuma maconha no Posto 9 não tem o mesmo tratamento do que fuma no Alemão. Em Ipanema, o policial acaba resolvendo o problema ali mesmo, na areia da praia, bem diferente da realidade da favela — diz ela.

No momento, desenvolve um aplicativo de celular que gravará automaticamente um vídeo assim que o policial militar deixar a viatura durante uma operação:

— É um um mecanismo de segurança até para o próprio policial.

Atenta a tudo que se fala sobre o tema, um dia Ilona conta ter visto um depoimento do médico Dráuzio Varella sobre a internação compulsória de usuários de crack. Logo arrumou um jeito de encontrá-lo e dizer o que pensava.

— O Dráuzio é uma pessoa que eu admiro muito. Eu sabia o que ele estava querendo dizer: a pessoa está morrendo ou pode matar alguém e deve ser internada. Mas isso vale apenas para uma minoria de usuários. Eu queria dizer que estavam usando politicamente a declaração dele — conta.

Dráuzio, que também participa do documentário “Quebrando o tabu”, lembra o encontro:

— Disseram que havia um grupo querendo discutir a internação compulsória e resolvi ver o que eles queriam. A Ilona faz um trabalho muito legal, temos algumas posições semelhantes. Além do mais, é articulada e tem propostas novas sobre o tema — diz ele, que já tem outro trabalho marcado com a moça.

Sobre o episódio com Ronaldo Laranjeira, no “Roda Viva”, diz:

— Quero deixar bem claro que não tenho nada contra o doutor Laranjeira, só achei que ele prestava um desserviço ao divulgar dados desatualizados.

Ronaldo Laranjeira admite que Ilona é articulada, mas refere-se a ela como ideóloga:

— É jovem e muito articulada, mas tem argumentos científicos inconsistentes. No fundo, é uma ideóloga.

Ilona não se deixa abater. É enfática ao dizer que poderia ter convencido até o Papa Francisco, em sua visita ao Rio, a ser favorável à descriminalização das drogas:

— Eu tenho certeza de que, se tivesse conversado com o Papa, ele não seria contra. Ele, na verdade, ainda não entendeu o que é a descriminalização das drogas de fato. Disseram a ele que é “liberou geral”, mas é mentira. Não defendo nada que vá ferir valores cristãos, muito pelo contrário. Eu luto pela vida.

Via: O Globo