Justin Hartfield já tem planos para quando os Estados Unidos legalizarem a maconha. No ramo desde 2007, Hartfield criador do portal WeedMaps pretende se tornar o Philip Morris da indústria americana da planta. As informações são do Wall Street Journal

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Justin Hartfield quer ser Rei da maconha legalizada

“Estou viajandão desde que tinha 13 anos”, diz o empresário da maconha, hoje com 30, enquanto toma um chá gelado no Pelican Hill Resort, um clube elegante à beira-mar onde ele joga golfe duas vezes por semana. Mas não confunda Hartfield, que já vendia maconha para os colegas no colégio, com um maconheiro qualquer. O objetivo dele é se tornar o Philip Morris da indústria americana da maconha.

“A proibição está prestes a acabar. E aqueles que estavam aqui desde o começo, se estiverem posicionados de forma inteligente, vão colher os frutos. Acho que estamos muito bem posicionados”, diz Hartfield.

Nos anos 20 e início dos 30, empresários que se arriscaram a investir em bebidas alcoólicas quando elas ainda eram vendidas ilegalmente enriqueceram quando o álcool foi legalizado. Joseph Kennedy obteve licenças para vender “bebidas medicinais” durante a Lei Seca e, meses antes da proibição ser revogada, em 1933, garantiu direitos exclusivos de importação de marcas populares como o uísque Dewar e o gim Gordon.

À medida que mais Estados americanos legalizam a maconha, Hartfield está executando uma versão dessa mesma estratégia para a era da internet: Ele vem atuando e investindo em algumas das principais empresas de tecnologia da maconha nos Estados Unidos. Quer fazer de tudo, desde fornecer avaliações da qualidade da maconha para especialistas em cânabis (a planta da maconha) até, em algum ponto, vender as próprias plantas. “A maconha não será rentável no longo prazo, ela vai custar um dólar por grama. Então, alguém […] tem de intervir e tornar seu cultivo rentável”, diz ele. “Sou a melhor pessoa para fazer isso.”

É fácil entender por que ele está tão otimista. Vinte Estados americanos e o Distrito de Columbia aprovaram leis que legalizam a maconha para uso médico. Outros 14, incluindo a Flórida, estão considerando isso. Este ano, os eleitores de Oregon e do Alasca podem se juntar a Washington e Colorado e legalizar o uso da maconha para fins recreativos. Políticos de outros Estados aguçaram os ouvidos recentemente, quando o Colorado anunciou que arrecadou US$ 2 milhões em impostos e taxas em janeiro — o primeiro mês de vendas legais da droga, com apenas um punhado de lojas abertas — e espera gerar dezenas de milhões de dólares anualmente. “A guerra cultural não acabou”, diz Hartfield, “mas está nas rodadas finais.”

Ele está apostando nisso. E se situou no ponto ideal entre as leis conflitantes que afetam este obscuro mercado em rápido crescimento.

O federalismo dos EUA permitiu que ele tirasse proveito do mercado da maconha nos Estados onde a droga é legal para uso médico ou recreativo. Ao mesmo tempo, o fato de a maconha continuar sendo ilegal em nível federal — classificada como narcótico, como cocaína e heroína — limita o número das fontes legais e, assim, mantém o preço e a demanda altos. A proibição federal também levou investidores institucionais de peso, os grandes bancos e administradoras de cartão de crédito, a evitar o setor, pelo menos por ora.

“Será só eu. A Philip Morris não vai se mexer até que seja 100% legal”, diz Hartfield. “Aí, eles vão comprar de mim.”

Hartfield sempre teve uma inclinação para a rebeldia. Nas últimas férias antes de começar o ensino médio, ele se juntou a um grupo de hackers chamado #714, com quem aprendeu administração de sistemas e como construir e invadir websites. Era 1998, o auge da bolha pontocom, e os hackers mais velhos tinham “muito dinheiro disponível”, que ganhavam em trabalhos de programação. “A maconha estava em toda parte”, lembra Hartfield, “mas ela nunca foi considerada uma droga.”

Em dois anos e meio ele se formou em ciência da computação pela Universidade da Califórnia, em Irvine, e rapidamente conseguiu empregos muito bem pagos como programador. Aos 21, decidiu largar tudo para se tornar seu próprio patrão e embarcou numa sequência de empreendimentos fracassados, incluindo “Zen Presence”, uma série de livros eletrônicos de autoajuda que só conseguiu algumas dezenas de assinantes, e um guia para atrair mulheres no Facebook, outro livro eletrônico que o Facebook logo descartou.

Em meados de 2007, quando já havia usado o limite de dois cartões de crédito e dividia uma casa com outras quatro pessoas, Hartfield recebeu autorização para comprar maconha medicinal, alegando insônia e ansiedade. Quando visitou seu primeiro dispensário, “não pude acreditar”, recorda. “Tinha esse cara vendendo maconha em jarros. Foi um choque para mim.” Ele foi para casa e criou o site Weedmaps.com.
Na época, havia pouca informação on-line sobre onde encontrar os dispensários de maconha, e Hartfield viu aí uma oportunidade. WeedMaps seria um site onde usuários de maconha medicinal na Califórnia poderiam encontrar médicos e dispensários, avaliá-los, ler comentários e enviar mensagens uns aos outros.

O tráfego decolou. Durante um ano, Hartfield visitou “cada dispensário na Califórnia”, diz, oferecendo listagem gratuita no Weedmaps.com. Em 2010, começou a cobrar. Hoje, a taxa mensal para entrar na lista começa em US$ 295. Em 2013, o site faturou mais de US$ 25 milhões. Ele inclui 4.121 empresas, representando todos os Estados com alguma forma de legalização. Hartfield emprega mais de 60 pessoas. O WeedMaps já não é mais o único; há concorrentes, mas ele tem um nome reconhecido e quatro milhões de visitantes por mês.

O sucesso do WeedMaps permitiu a Hartfield investir em firmas novatas da indústria da maconha através da Ghost Group, a empresa que controla seus negócios. A Ghost Group está “focando em tecnologia, software, hardware” que, como o WeedMaps, são inteiramente legais, ou seja, não se envolvem no plantio direto. Os empreendimentos, no entanto, estão em áreas do setor que serão significativas se a maconha se tornar um produto legal e regulamentado, como o álcool. “Só estou fazendo tudo que posso legalmente nesta indústria, sem o risco de parar na cadeia”, diz.

O segmento que mais anima Hartfield é o de testes. A maconha, quando for vendida como um produto regular, vai precisar de algo parecido com uma “tabela nutricional”, para que os usuários possam saber a potência e a pureza da droga — por exemplo, quanto tetrahidrocanabinol, ou THC, tem uma cepa particular — antes de consumi-la. Este mercado vale “bilhões”, insiste. “E é permanente, porque cada lote terá de ser testado.”

Através de um acordo com a SC Labs, o WeedMaps testa “mais maconha do que qualquer um no mundo”, diz Hartfield, uma alegação que é impossível verificar. Ele diz que a empresa avalia 3.500 produtos mensalmente, cobrando dos dispensários entre US$ 40 e US$ 80 por teste.

Para o consumidor final, Hartfield diz que há um aparelho em desenvolvimento que pode ser anexado a um smartphone para testar a erva. Ele está “em negociações” com o desenvolvedor deste “laboratório portátil”.

Além disso, há os “milhares” de URLs, endereços de websites, que Hartfield comprou ao longo dos anos, como marijuana.com, pelo qual ele pagou US$ 4,2 milhões em novembro de 2011.

“Se houver uma legalização completa, você vai ter uma opção: Você pode ir a uma loja ou você pode comprar de nós. Vamos entregar em 24 horas. É por isso que temos marijuana.com. Queremos atingir diretamente o consumidor como o wine.com [um site de venda de vinhos]. Nós amamos esse modelo”, diz. “Se a maconha for regulada como o álcool, podemos enviá-la para as pessoas sob as mesmas regras e regulamentos que já existem” para vinícolas e distribuidores.