Já perdemos as contas de quantas vezes o proibicionismo sustentou que a legalização da maconha traria danos aos adolescentes, aumento da criminalidade, de overdose de drogas, de dirigir sob o efeito e até mesmo a evasão escolar, argumentos esses que não podem ser mais sustentados.

Por Christopher Ingraham* para o Washington Post

Um novo relatório do Centro de Justiça Juvenil e Criminal adiciona ao crescente corpo de evidências que a legalização ou descriminalização da maconha não leva a qualquer número dos cenários apocalípticos imaginados pelos opositores da legalização. Olhando especificamente para a Califórnia, onde a descriminalização total da maconha entrou em vigor em 1º de janeiro de 2011, o relatório conclui que “a legalização da maconha na Califórnia não resultou em consequências danosas para os adolescentes, como o aumento da criminalidade, de overdose de drogas, dirigir sob a influência, ou abandono escolar. Na verdade, adolescentes californianos mostraram melhorias em todas as áreas de risco, após a reforma”.

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O mais notável na tabela acima é a queda das taxas de abandono escolar. Estudos recentes sugerem que o uso de maconha e as baixas taxas de conclusão do ensino estão ligados. Mas muitos especialistas questionam a direção da causalidade nessas situações, sugerindo que poderiam haver inúmeros fatores que respondem por essa relação. Embora ainda seja cedo o experimento da descriminalização na Califórnia, os números acima sugerem lançar um olhar cético sobre reivindicações da queda desempenho acadêmico, em um mundo pós-legalização.

De fato, como relatam os autores: “por uma série de medidas, o comportamento dos adolescentes da Califórnia realmente melhorou drasticamente após a maconha ser efetivamente legalizada – melhorias que ocorreram de forma mais fraca ou não ocorreram entre os californianos mais velhos e entre os adolescentes em todo o país.”

Agora é claro que isso não resolve a causalidade, e esses números não devem servir de base para dizer que a descriminalização causou estas quedas. Mas eles mostram muito claramente que, nos dois anos desde que a descriminalização em grande escala entrou em vigor, as crianças da Califórnia ainda estão bem. O céu não caiu. E adicionam a um corpo crescente de pesquisas que mostram, por exemplo:

  • que o uso de drogas, incluindo o álcool, continua caindo, mesmo que mais estados tenham legalizado a maconha para fins recreacionais ou terapêuticos;
  • que nos estados com leis para maconha medicinal, não se vê um crescimento no seu uso por adolescentes;
  • que os estados que legalizaram para fins medicinais, têm realmente notado uma queda nas taxas de overdose para medicamentos prescritos;
  • que as mortes no trânsito caíram no Colorado desde que ocorreu a legalização.

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Por outro lado, há pouca evidência no aumento de danos sociais nos estados onde a maconha foi descriminalizada. O único estudo, que merece créditos, é um relatório da Drug Enforcement Administration – DEA no qual constata-se que mais motoristas envolvidos em acidentes de carro estão testando positivo para o consumo de maconha. Porém, um balde de água fria recai sobre o estudo: ao contrário do álcool, metabólitos de maconha permanecem inativos no corpo por muito tempo após o consumo – dias ou semanas, dependendo da frequência de uso. Mas a presença não indica necessariamente que você estava chapado no momento do teste, no máximo indica que você consumiu maconha em algum momento nos últimos dias ou semanas anteriores.

Mesmo se aceitarmos que mais cidadãos do Colorado estão usando maconha, e que alguns deles estão ficando chapados atrás do volante, ainda temos que observar que as mortes no trânsito caíram de modo geral – isto porque provavelmente é muito menos perigoso conduzir sob o efeito da erva do que dirigir bêbado. Isso sugere que algumas pessoas no Colorado estão substituindo o álcool pela maconha.

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Por fim, a barreira de provas favoráveis que os adversários da legalização têm que enfrentar é incrivelmente alta. A fim de apresentar argumentos convincentes contra a legalização da maconha, os proibicionistas tem que buscar:

  1. que a liberalização está associada a um resultado negativo;
  2. que essa associação é causal, de fato, e não apenas uma coincidência;
  3. que os danos a partir dos resultados negativos são maiores do que uma infinidade de danos causados ​​pela proibição da maconha.

Mas, até agora, as experiências do Estado com a liberalização não produziram quaisquer consequências que passem da primeira questão acima. Considerando que estamos agora próximo dos 20 anos, desde quando os eleitores da Califórnia iniciaram a legalização da maconha, isso deve ser uma notícia reconfortante para todos.

Tradução: SmokeBud

*Christopher Ingraham escreve sobre política, política de drogas, entre outros assuntos. Anteriormente, trabalhou na Brookings Institution e no Pew Research Center.