Tratamento » Uma cepa de maconha medicinal com baixo nível de THC interrompe convulsões em crianças com epilepsia grave.

Toda semana, um tutor vem à casa de April Sintz para ensinar Isaac de 7 anos a redigir suas cartas. Com um desenvolvimento atrasado devido a um distúrbio convulsivo raro, ele é capaz de compreender as formas e sons, mas logo se esquece deles.

“É um passo em frente e dois passos para trás”, disse Sintz, que não perdeu a esperança de Isaac ainda ler um dia. Ela também não desistiu de sua busca por um tratamento à base de “ervas” – disponível apenas em um dispensário de maconha medicinal no Colorado – que fez milagres para algumas crianças com formas severas e intratáveis de epilepsia.

Sintz é membro da “Hope 4 Children With Epilepsy” [Esperança Para Crianças Com Epilepsia], um grupo de mães mórmons em Utah que agora encontraram um deputado disposto a ajudá-las a obter uma forma de importar legalmente extrato de planta de cannabis.

“Não é uma droga, não é maconha medicinal”, disse o deputado Gage Froerer, de Huntsville.

A planta, cultivada pela organização sem fins lucrativos “Realm of Caring” em Colorado Springs, é rica em canabidiol (CBD), mas pobre em tetrahidrocanabinol (THC), o componente químico psicoativo da maconha que dá a “onda” aos usuários.

É tão baixa em THC, na verdade – que contém 0,5 por cento de THC e 17 por cento de CBD, de acordo com o website da Realm of Caring – que o dispensário estava tendo problemas para encontrar um mercado para ela. Então os funcionários encontraram Charlotte Paige, uma jovem de uma família de militares conservadores em Colorado com síndrome de Dravet, a mesma doença que Isaac tem.

Doses regulares do extrato à base de óleo da planta pararam a progressão da doença de Charlotte, como mostrado no documentário “Weed” da CNN.

Depois de tomá-lo, ela passou de 300 ataques por semana para um, no máximo, de acordo com o documentário. Anteriormente catatônica, ela agora está andando, comendo, conversando e brincando.

Trazer o extrato para Utah pode não necessitar de legislação, disse Froerer, o mesmo legislador que pressionou a proibição de uma forma sintética da maconha, “spice”. Mas ele se comprometeu a patrocinar um projeto de lei, se necessário.

Primeiro, ele está buscando apoio do “Utah Substance Abuse Advisory Council” [Conselho Consultivo sobre Abuso de Substâncias de Utah] para tratar o extrato como algo diferente de uma substância controlada, permitindo que as famílias o importem sem o risco de serem presas.

Ele está o chamando de “Alepsia”, fazendo referência à epilepsia. Froerer afirma que os níveis de THC na Alepsia são os mesmos que aqueles encontrados no cânhamo industrial e em seus óleos e proteínas, os quais são utilizados em produtos de venda livre como cremes e sabonetes.

Nada na lei federal ou estadual proíbe a venda ou uso dos produtos de cânhamo, disse Froerer.

“Elas podem ir até o Colorado agora e trazê-lo”, disse ele. “Mas não quero fazer nada que possa ser percebido como violação da lei.”

Vinte estados permitem o uso medicinal da maconha. Colorado e Washington também permitem o uso recreativo da droga.

Nenhum estado tem uma legislação que mencione especificamente o uso de cannabis com alto índice de CBD na forma oral concentrada, de acordo com a “Epilepsy Association of Utah” [Associação de Epilepsia de Utah].

“Utah tem a oportunidade de ser inovador”, disse a presidente da associação, Annette Maughan, cujo filho de 6 anos de idade também sofre de uma epilepsia intratável.

“Estamos desesperados em nossa necessidade dessa legislação acontecer nesta sessão. Nossas crianças estão aguardando apreensivas a cada dia”, disse ela em um comunicado.

Não houve nenhum ensaio clínico randomizado com a Alepsia.

Mas há evidências de estudos com animais e estudos clínicos limitados em humanos de que a maconha e seus canabinóides têm efeitos anti-epilépticos, de acordo com um artigo de 2001 na revista Epilepsia. “Estes podem ser específicos para crises parciais ou tônico-clônicas [grande mal]”, disse.

Uma empresa farmacêutica, a GW Pharmaceuticals, está realizando testes de investigação com um medicamento à base de CBD. Mas poderia levar uma década para ele para ganhar a aprovação, tarde demais para as crianças como Isaac.

Síndrome de Dravet é uma forma rara e de difícil tratamento de epilepsia caracterizada pelo número e a gravidade das crises, às vezes centenas por dia, com duração de 45 minutos ou mais.

Tradução: SmokeBud
Via, The Salt Lake Tribune