Apesar de liberada pelo Estado do Colorado, instituições financeiras temem cometer crimes na esfera federal

Lojas e distribuidoras da erva têm dificuldade para abertura de contas em bancos e só fazem transações em dinheiro

Desde a liberação da venda de maconha para fins recreativos no Colorado, em 1º de janeiro, a loja 3D Cannabis, em Denver, recebe uma média de 350 clientes por dia. A cada compra fechada, entram no caixa entre US$ 30 e US$ 550. Todo esse pagamento é feito só em dinheiro.

O mesmo se repete em outras lojas e distribuidoras da erva –todas com dificuldades para serem aceitas por bancos por conta do tipo de negócio, que é legal no Colorado, mas não na lei federal.

O Ato sobre Substâncias Controladas, que estabelece os parâmetros e as punições sobre o uso e o comércio de drogas em todo o país, classifica a maconha como uma substância de “escala 1”, a categoria mais pesada, que inclui heroína, LSD e ecstasy.

O temor dos bancos é de que sejam enquadrados em crimes como lavagem de dinheiro ao efetuar transações com empresas do ramo.

Diante da dificuldade, a Câmara Municipal de Denver aprovou, na última semana, uma declaração, que foi enviada a Washington, pedindo permissão para que os bancos trabalhem com empresas que vendem maconha.

“Por favor, Washington, cresça e deixe que esse negócio se torne de fato um negócio e possa ter relação normal com os bancos como qualquer outro setor”, disse o deputado independente Charlie Brown, durante a sessão em que foi aprovado o texto.

A expectativa é que a venda legal de maconha para recreação no Estado movimente cerca de US$ 578 milhões (R$ 1,4 bilhão) só em 2014.

Só que esse não é apenas um problema do Colorado: outros 19 Estados e o Distrito de Columbia já aprovaram a venda para uso medicinal, e o Estado de Washington deve começar a comercializar a droga para uso recreativo ainda neste semestre. No país todo, o negócio pode atingir US$ 3 bilhões neste ano, segundo a Associação Nacional das Indústrias de Cannabis.

A preocupação diante das altas somas operadas por cada empresa já começou a mudar a rotina nas lojas e distribuidoras. Em todos os locais de venda visitados pela reportagem, há caixas eletrônicos que permitem saques. E, em alguns deles, já há seguranças armados na porta.

“Antes, os nossos seguranças não tinham armas, mas o volume de clientes cresceu muito, e ficamos mais visados”, diz Elan Nelson, consultora da Medicine Man.

A própria funcionária lembra ter saído um dia da empresa com uma mochila cheia de dinheiro nas costas para fazer uma transação. “É uma loucura, não dá para trabalhar com essa insegurança.”

Mike Farlew, um dos donos da distribuidora Patients Choice, que produz cerca de 115 kg de maconha por mês para quatro empresas diferentes, classifica a resistência dos bancos como seu principal problema hoje.

A empresa de Farlew funciona em um grande galpão nos arredores de Denver, sem qualquer identificação sobre a natureza do negócio.

“Muitas distribuidoras não colocam nada na fachada para não chamar a atenção sobre o quanto de dinheiro circula ali dentro”, explica Matt Brown, guia que acompanhou a Folha em um tour.

Por Isabel Fleck
Via Folha de S.Paulo