Cheguei uns dez minutos depois das quatro e vinte e o bloco Planta na Mente já tinha saído. Como não sabia que o desfile do bloco na quarta-feira de “brasas” estava garantido e tinha de ir ao centro da cidade para ver um habeas corpus, fui de roupa social ao bloco do qual faço parte da bateria.

O desfile dos Arcos da Lapa até a praça Tiradentes foi um sucesso. Em torno de 12 mil pessoas passaram tranquilonas, sorrindo e curtindo as marchinhas do bloco da maconha, sem nenhuma briga, assalto ou violência.

Bem no fim do bloco, já em frente ao histórico 23º Batalhão da Polícia Militar, os representantes da ordem pública da Prefeitura, acompanhados de grande efetivo da Guarda Municipal e da Polícia Militar, chegaram dizendo que o bloco deveria se dispersar e acabar de supetão. Membros do bloco, eu e o vereador Renato Cinco fomos negociar com as autoridades no local. O nosso vereador engrossou, dizendo que se houvesse truculência, haveria resistência e muitos discursos na tribuna da Câmara denunciando a violência da Prefeitura.

Em torno de 12 mil pessoas passaram tranquilonas, sorrindo e curtindo as marchinhas do bloco da maconha, sem nenhuma briga, assalto ou violência.

planta na mente 2015 Foto face

Como advogado, argumentei que existiam leis e constituições que garantiam o direito das pessoas ficarem na praça pública. Depois de toda essa negociação, tivemos de retirar o carro de som às 19 horas, horário estabelecido pela Prefeitura. O bloco tomou o centro da praça, os guardas municipais e policiais foram embora, os camelôs voltaram e a festa continuou alegre, tranquilona e sem qualquer confusão.

Conversando com os guardas municipais, vi que eles estavam retirando os ambulantes. Um deles chegou pra mim e disse que já tinham aturado várias pessoas fumando maconha e que o bloco tinha de acabar. Falei então sobre uma constatação daquele carnaval: os camelos só podem vender cerveja da Antártica. Aí o guarda respondeu, não, só podem vender cervejas da AMBEV. Respondi, então: isso é muito mais grave do que fumar maconha. Pois, além da privatização das ruas por um cartel de cervejas, a força policial do Estado estava ali para garantir as condutas previstas na Lei 8137/1990, que define crimes contra a ordem tributária, econômica e contra as relações de consumo.

Trata-se na realidade de abuso do poder econômico de uma empresa para dominar totalmente o mercado de vendas de cerveja nas ruas da cidade, eliminando a concorrência, com o controle da distribuição e fornecimento. Tudo com o apoio das forças de segurança, que poderiam estar fazendo muita coisa, ao invés de ficar reprimindo maconheiras e maconheiros e garantindo a privatização das ruas da cidade por uma marca da cerveja. A poucos metros daquele local, dois dias antes, um turista havia sido assassinado a facadas. Apenas como exemplo: não seria melhor se as forças policiais protegessem os caminhos para as estações de trem, barcas e metrô?

Fotos: Andrew Muller Reed / Bethânia Santos via Maconha Brasil